Internacional

Grécia sob vigilância da Troika

11 Mar 2015   |   comentários

A Grécia apresentou sua lista de reformas ao Eurogrupo. As instituições (a “Troika†) pressionam por mais ajustes. O perigo da instabilidade econômica e política. O fantasma de Grexit e a carta do referendo.

O ministro de Finanças grego, Yanis Varufakis, entregou nesta segunda-feira uma lista de reformas às autoridades do Eurogrupo para sua supervisão. Uma vez tendo a aprovação das instituições (BCE, CE, FMI), a Grécia receberá algo de liquidez financeira para enfrentar os próximos meses.

O acordo alcançado em 20 de fevereiro entre o Eurogrupo e o governo de Atenas foi o prelúdio de novas negociações, que se realizam agora no marco do resgate financeiro e os condicionamentos da Troika, rebatizada como as "Instituições".

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, confirmou que as conversas começarão na próxima quarta-feira tanto em Bruxelas quanto em Atenas, com o objetivo de negociar as reformas que o governo heleno pretende implementar.

"Acordamos hoje que não há mais tempo a perder. As discussões entre as autoridades gregas e as instituições tem (que começar) e vão iniciar a partir de quarta-feira, depois de amanhã, a fim de obter uma finalização acelerada e exitosa da revisão" do programa de resgate.

Tsipras e o euroescepticismo

Em uma entrevista publicada no sábado pelo semanário “Die Spiegel†, Alexis Tsipras assegurou que a intransigência da Alemanha com suas políticas de "austeridade" poderia fazer fracassar todo o projeto europeu. Mostrando-se como um decidido europeísta, que "ama a Europa", Tsipras responsabilizou a Merkel de estar provocando o crescimento dos partidos "euroescépticos".

Se a Grécia afunda sustentou, "o crescente movimento cidadão que se propõe no sul por uma mudança de rumo se converteria em uma corrente antieuropeísta". "Por castigar a Syriza na Grécia não se consegue frear a dinâmica do Podemos na Espanha, senão que se obriga ao Podemos a cair em um antieuropeísmo", agregou.

O periodista do Spiegel disse na entrevista que na Alemanha há pessoas, incluindo integrantes do governo federal, que consideram que o Euro se fortaleceria com uma saída da Grécia. E ele assinala a Tsipras que inclusive em seu partido, Syriza, há uma minoria que quer um regresso a moeda nacional, o Dracma.

Tsipras responde que se amanhã é feito um referendo com a pergunta, "Você prefere sua dignidade ou uma continuação desta política indigna?", então todos elegeriam a dignidade, além das dificuldades que acompanhariam essa decisão. Mas o desafio para a Europa, sustenta Tsipras, não vem hoje em dia do Syriza ou do Podemos, senão da Frente Nacional ou do AFD na Alemanha (o partido euroescéptico que cresce na Alemanha).

Na entrevista Tsipras adiantava algumas das medidas que nesta segunda-feira se apresentaram ao Eurogrupo, que incluem propostas para abordar a "crise humanitária", garantindo eletricidade e comida aos setores mais empobrecidos, reformas para fazer mais "eficiente" a administração do Estado e uma série de medidas destinadas a melhorar a arrecadação de impostos, desde moratórias e planos de pagamento para devedores até a implementação de estímulos para o pagamento de impostos e controle sobre a evasão fiscal.

A carta geoestratégica

O ministro adjunto de defesa grego, o argentino Costas à sijos, lançou no fim de semana uma mensagem de advertência aos países europeus, assegurando que se a economia da Grécia entrasse em colapso, o país heleno podia transformar-se num fator de grande instabilidade que afetaria o resto da Europa. Se referiu concretamente a crise na Ucrânia e o conflito com o Estado Islâmico como duas questões que preocupam enormemente a diplomacia européia.

"Já temos instabilidade econômica, se também tivermos instabilidade social, geopolítica e geoestratégica com nossos vizinhos, o problema não ficará aqui, senão que vai chegar a Europa toda", afirmou.

O Ministro do Exterior grego, Nikos Kotziás, já havia destacado na quinta-feira passada em uma reunião em Riga este fator da instabilidade geopolítica que pode agravar-se na Europa: "haverá milhões de imigrantes e milhares de jihadistas entrando na Europa se a economia grega entra em colapso".

O governo da Grécia pretende utilizar como moeda de troca nas negociações o papel de relativa estabilidade que joga a Grécia na estratégica fronteira com os Balcãs, Bulgaria e Turquia e o leste do mediterrâneo.

As pressões alemãs e a ameaça do referendo

Poucas horas antes da reunião do Eurogrupo a chanceler alemã, Angela Merkel, aumentou a pressão sobre a Grécia, pedindo "responsabilidade" para implementar as "reformas necessárias" e sustentou que ambas as partes tem "um caminho difícil pela frente".

"Mas também há dois aspectos a ter em conta, por um lado está a solidariedade dos sócios europeus, e por outro a responsabilidade de aplicar as reformas necessárias a nível nacional", sublinhou Merkel.

Este fim de semana se somou um novo elemento às negociações, a partir do comentário feito pelo ministro de Finanças, Varufakis, sobre a possibilidade de convocar um referendo sobre as reformas exigidas pelo Eurogrupo.

Em uma entrevista publicada no domingo no jornal italiano "Il Corriere della Sera", Varufakis disse que se Bruxelas não aceita o plano proposto pelo seu governo, o Governo não descarta a opção de convocar novas eleições ou um referendo. Uma ideia similar deixou passar, na segunda-feira, o Ministro Adjunto de Defesa grego, Kostas à sijos.

"O povo grego está apoiando a negociação do nosso Governo, mas as negociações necessitam das duas (partes) e nossos sócios não estão negociando conosco, seguem ditando e nós negociando. Isto não pode seguir assim", assegurou à sijos. Agregou que a democracia "nunca é um problema, os referendos nunca são perigosos, são perigosos para os que temem a resposta".

A proposta de um referendo traz de volta diretamente a situação se abriu na Grécia em 2011, quando o então Primeiro Ministro do PASOK, Yorgos Papandreu, jogou com a ideia de convocar um referendo sobre o plano de resgate. Depois das enormes pressões dos mercados e da Troika, Papandreu terminou retirando o referendo e finalmente se demitiu.

A ameaça de utilizar a carta do referendo por parte do atual governo grego põe sobre a mesa as grandes expectativas que tem a maioria do povo grego de terminar com as medidas de austeridade.

Mas o governo do Syriza não tem a estratégia de apoiar-se na mobilização operária e popular para enfrentar as chantagens da Troika, senão utilizar esta "carta" de referendo somente para pressionar nas negociações (já em um marco muito desfavorável) buscando obter alguma pequena margem de manobra para suas medidas.

Contudo, como tem denunciado vários setores críticos dentro e fora do Syriza, a orientação de pressionar por um "pacto social" Europeu vem se mostrando completamente utópica e tendo fracassado no primeiro encontro, já que a Troika não está disposta a ceder.

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