Internacional

Grécia: a chantagem do BCE e a necessidade de retomar a mobilização operária e popular

06 Feb 2015 | A decisão do Banco Central Europeu (BCE) de cortar financiamento aos bancos gregos aparece como uma posição de "marcar terreno" na negociação e para obrigar o governo grego a aceitar piores condições. A praça Syntagma em Atenas reuniu ontem milhares de manifestantes ao grito de "não queremos ser uma colônia alemã". Para enfrentar a chantagem, cumpre aprofundar a mobilização operária e popular na Grécia e em toda a Europa.   |   comentários

A decisão do Banco Central Europeu (BCE) de cortar financiamento aos bancos gregos aparece como uma posição de "marcar terreno" na negociação e para obrigar o governo grego a aceitar piores condições. A praça Syntagma em Atenas reuniu ontem milhares de manifestantes ao grito de "não queremos ser uma colônia alemã". Para enfrentar a chantagem, cumpre aprofundar a mobilização operária e popular na Grécia e em toda a (...)

Os primeiros dez dias do novo governo grego foram intensos. Depois do acordo do Syriza para formar governo com o partido da direita nacionalista ANEL, anunciou suas primeiras medidas, que incluem a renegociação da dívida como prioridade, a intenção de aumentar o salário mínimo, reincorporação dos empregados estatais demitidos ilegalmente, uma reforma fiscal e frear as privatizações em curso para revisar suas condições.

O giro europeu de Alexis Tsipras e seus ministros ocupou esta semana as páginas de todos os periódicos internacionais, pendentes das negociações entre a Grécia e seus credores. O governo grego vem insistindo na possibilidade de chegar a um “acordo rápido e benéfico para todos†. Ainda que suas propostas tivessem sido recebidas com frieza e cautela na França e na Itália, Tsipras e Varoufakis sustentavam que o acordo estava próximo.

Mas na quarta-feira pela noite o BCE apurou uma medida para “marcar terreno†, algumas horas antes da chegada dos políticos gregos em Berlim.

A abrupta decisão do BCE de não aceitar os títulos gregos como garantia por financiamento coloca o banco central de Atenas em apuros. A medida implica, por um lado, que deve financiar seus credores, provendo os bancos do país com dezenas de bilhões de euros em liquidez adicional de emergência nas próximas semanas. Por outro lado, deixa a Grécia isolada, a menos que alcance um novo acordo com reformas econômicas. Como se diz, uma chantagem. A bolsa de Atenas tomou nota e começou na quinta-feira com uma forte queda, enquanto subia o “risco país†.

Alguns analistas dizem que esta medida “aperta†mas não “enforca†. Ainda que coloque a Grécia em uma situação muito delicada, seus bancos poderão seguir financiando-se por enquanto co o fundo de liquidez do Banco Central grego. Não obstante, a cada 15 dias este mecanismo é revisado pelo BCE, através do qual a corda no pescoço da Grécia se poderia ajustar ainda mais.

A jogada parece ser uma tentativa de impor mais condições em uma negociação que por si só já é difícil. A política do BCE também “apura†a Alemanha, colocando a possibilidade mais concreta de que a Grécia saia do euro se não houver um acordo muito rapidamente.

Uma situação que, se ocorre, colocaria uma situação com resultados inesperados que preocupam o establishment tanto europeu como norteamericano, ainda que a Alemanha tenha insinuado, pouco antes das eleições gregas, a viabilidade de uma possível saída da Grécia do euro.

Não só pela instabilidade econômica e política que geraria na Eurozona, mas também pelas aproximações entre o novo governo de Alexis Tsipras e a Rússia, no marco das cada vez maiores tensões entre a Rússia e o “ocidente†pela crise da Ucrânia.

Recordemos que os primeiros embaixadores que Tsipras recebeu, apenas algumas horas depois de tomar posse no cargo de primeiro ministro, foram nada menos que o russo e o chinês.

Até agora, o Governo grego rechaçou explicitamente a ajuda financeira da Rússia e insiste em chegar em um acordo da dívida com os “sócios europeus†. Mas Tsipras segue enxergando a Rússia “com amor†, mais ainda depois do endurecimento do BCE.

Convidado pelo presidente russo Vladimir Putin, Tsipras viajará a Moscou no próximo dia 9 de maio. A data eleita para o convite não é casual. Nesse dia se comemora a vitória da União Soviética e dos Aliados sobre a Alemanha nazista. E a Grécia tem nada menos que 17 “neonazistas†do Aurora Dourada – como os chamou nesta quarta-feira o ministro das Finanças, Varoufakis – no novo Parlamento, seis dos quais estão em prisão preventiva.

Os eixos da negociação

O novo governo grego começou a negociação de sua dívida com várias concessões. Para acalmar os investidores, deixou de falar em “cancelamento parcial†da dívida para defender uma “reestruturação†dos pagamentos, com novos títulos a mais longo prazo e atados ao crescimento. Ou seja, um compromisso de seguir pagando, mas em condições menos asfixiantes. Ao mesmo tempo, Tsipras defendeu que não renunciará a seu programa de aumento de salários e medidas sociais para reverter as consequências da crise. O esforço do governo grego foi demonstrar que o pagamento da dívida tal como está é “inviável†, que está disposto a negociar e que seu programa social é tão urgente quanto moderado.

A exigência mais imediata de Atenas é um “programa ponte†até maio que lhe permita um respiro para seguir negociando enquanto implementa suas primeiras medidas. Ou seja, que lhe deem um pouco de tempo.

O tempo, não obstante, urge desde o ponto de vista de Berlim e Bruxelas, porque a 28 de fevereiro vence o programa de resgate. Se permitem àGrécia “sair†do mesmo e seguir negociando, seria uma mensagem política de que se pode desafiar a Troika, algo muito perigoso na atual situação de instabilidade na Europa.

Por isso, o que buscam os sócios da União Europeia, desde a ala dura da Alemanha, do Estado espanhol e outros países, aos discursos mais “compreensivos†– mas igualmente defensores do status quo – da França e da Itália, é que a Grécia se comprometa a seguir pagando, que peça uma prorrogação do plano de resgate sem sair do mesmo, e que continue com as “reformas estruturais†.

Mobilização contra a Troika

Esta quinta-feira Tsipras deu seu primeiro discurso ante seu grupo parlamentar. Fê-lo após regressar com as mãos vazias de um giro europeu que, parecendo promissor, terminou mal.

O líder do Syriza e primeiro ministro grego disse que Atenas já não está disposta a aceitar mais que lhe digam o que tem de fazer. “A Grécia não aceitará mais ordens†, assegurou, em uma resposta direta ao BCE. E agregou: “A Grécia já não será mais o sócio miserável que escuta as lições para fazer seus deveres. A Grécia tem sua própria voz†. Mas nesta “prova de forças†com a Alemanha, o BCE e a Troika, não bastarão apenas declarações no Parlamento.

Quase simultaneamente, na praça Syntagma se viveu a primeira mobilização sob o governo do Syriza, para repudiar o que se percebe como uma extorsão do Banco Central Europeu e da Troika e para apoiar o governo grego.

A concentração, que também se repetiu em cidades como Tessalônica, foi convocada pelas redes sociais e reuniu rapidamente alguns milhares de manifestantes na explanada do Parlamento.

O sentimento de apoio da maioria do povo grego ao governo de Tsipras é indubitável. Mas não é um cheque em branco. “Pensei que o Syriza faria como todos os governos: ajoelhar-se diante dos alemães quando chegassem ao governo. Não o fez. E enquanto sigam assim, terão todo o meu apoio,†dizia hoje um manifestante em um blog do diário Publico.

Mas o objetivo do governo de Tsipras não é apoiar-se na mobilização popular para deixar de pagar a dívida, mas negociar para continuar pagando, ainda que de forma mais moderada. Uma orientação que, se chega a um acordo aceitável pelos abutres do BCE, do FMI e do Banco Mundial, não será sem custos para o povo grego.

A persistência desse “terceiro ator†, os trabalhadores e o povo grego, que não aparecem nas negociações que enchem os portais dos noticiários mas hoje saiu novamente às ruas, coloca não apenas a necessidade, mas a possibilidade de retomar o caminho da mobilização operária e popular que se vem desenvolvendo desde o início da crise. Uma mobilização que, para fazer justiça ao povo grego, não só deve repudiar a chantagem do BCE, mas lutar pela suspensão imediata no pagamento da dívida, uma medida elementar para poder iniciar um plano de “emergência social†que dê resposta aos padecimentos dos trabalhadores e do povo da Grécia.

A solidariedade com o povo grego e a exigência do fim da dívida grega toca os interesses de todos os trabalhadores e jovens da Europa.

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