Domingo 16 de Junho de 2019

TERCEIRIZAÇÃO

Grande luta dos terceirizados da USP: A “insurreição das vassouras†varre a sujeira do fim da história

27 Jul 2011   |   comentários

Artigo publicado na revista do grupo francês Courant Communiste Revolutionnaire, tendência marxista revolucionária que faz parte do NPA. Para saber mais, acesse http://www.ccr4.org/

Tão grande quanto o número de lições a se tirar da luta das terceirizadas(os) da empresa União, na USP, foi a surpresa da burocracia acadêmica e do governo frente ao que a “insurreição das vassouras†, como um estudante nomeou o processo, imprimiu nos corações e mentes de muitos dentro e fora da Universidade.

Na contramão de toda a repressão política, divisão objetiva e crise moral a que estavam submetidos, os trabalhadores terceirizados da limpeza, sujeitos às mais absurdas condições de trabalho e assédio, em Abril, se autoorganizaram e colocaram de pé um forte movimento pelo pagamento dos salários, suspensos há um mês em decorrência da quebra de contrato da empresa terceirizada “União†com a USP.

Nem a burocracia de seu sindicato, o SIEMACO, nem a chibata cotidiana representada pelos agentes da Reitoria da Universidade foram capazes de conter este movimento explosivo e radical que, frente a todo o acúmulo de opressão que caracteriza o trabalho terceirizado semi-escravo, em pouco tempo, rumou de reivindicar a questão dos salários até o questionamento político de tudo o que representa a precarização do trabalho enquanto elemento central de divisão da classe trabalhadora e da submissão dos setores mais marginalizados da sociedade capitalista, cuja única solução se materializou na palavra de ordem presente na boca de cada terceirizado - “Incorporação imediata sem concurso público!†-, por entenderem que esta é a única forma de avançar na solução da condição de miséria que lhes é imposta e perceberem que não precisam de concurco público para demonstrarem que sabem fazer o que há anos já realizam.

Juntamente com o SINTUSP, que já partia da experiência da luta dos terceirizados da DIMA¹, as terceirizadas, maioria de mulheres negras, moradoras das comunidades do entorno da Universidade, buscaram levar aos estudantes a sua realidade cotidiana nua e crua: Opressão de todo tipo aos negros, homossexuais e mulheres, os setores que mais ocupam estes postos de trabalho; Assédio moral e sexual; proibição de conversar com estudantes sob ameação de retirada de cestas básicas e transferência de setores; baixíssimos salários; cargas horárias exaustivas; negligência da patronal em relação a segurança, o que, por exemplo, causou a morte do trabalhador José Ferreira enquanto limpava vidros na faculdade de medicina; necessidade de percorrer longos caminhos por não terem vale transporte; impossibilidade de organização independente; obrigação de comer em banheiros e porões para não se “misturarem†nos prédios aonde trabalham...

Toda a realidade de semiescravidão como base do projeto da “USP de excelência†, dentro de um “Brasil potência†, cujas contradições já se evidenciam pela profunda precarização do trabalho, base das grandes Obras governamentais que levou a grandes revoltas em localidades no norte do País, desvelada pela gana combativa dos terceirizados juntamente com um sindicato combativo e classista como o SINTUSP, ao tocar os estudantes nas Unidades, criou uma situação explosiva para a burocracia e a empresa.

Os estudantes e trabalhadores obrigam a academia a assumir: A luta de classes voltou!

Tocados pelas absurdas condições de trabalho e as emocionantes histórias de vida dos terceirizados, os estudantes da USP, sobretudo aqueles da FFLCH², estiveram na linha de frente de, junto aos terceirizados, com métodos radicalizados de jogar os lixos ao chão, escancarar um dos pilares centrais- e mais nefastos- da política de privatização da Universidade, consolidando um legítimo apoio a luta contra a semiescravidão e em questionamento ao projeto elitista e escravagista da REItoria.

Ficou claro que não é possível que a propagandeada Universidade, templo do saber e iluminação da sociedade, seja baseada no apartheid de milhares de mulheres e jovens negros, oprimidos ao limite!

A partir da ligação com os estudantes, uma série de medidas foram implementadas, como paralisações de curso e a formação de um comitê, impulsionado pela Ler-qi e independentes, contra a terceirização e pela incorporação sem concurso Público, expressão de um novo espaço combativo na Juventude.

Mesmo aqueles que se colocaram contra o “método do lixo†, estavam a favor do movimento de trabalhadores e em repúdio ao brutal ataque contra o qual lutavam. Se tornou comum dezenas de estudantes participarem, chorando, das várias assembléias e reuniões que ocorreram para discutir a situação e como apoiar os lutadores.

O avassalador potencial da aliança dos trabalhadores com os Estudantes demonstrou-se como toda a força nas tomadas de prédios ocorridas durante uma semana. Glória, trabalhadora terceirizada dizia: “Ontem eu era escrava, mas, quando eu fiz greve com os estudantes e o SINTUSP, eu me libertei.†Tal é o resultado da moralizante aliança que, fortaleceu a luta dos trabalhadores e liberou os estudantes da apatia, abrindo portas para a discussão das grandes questões de nossa sociedade e para a reflexão de um movimento estudantil inspirado nos grandes exemplos, como o maio de 68.

Todo este processo paralisou durante uma semana a mídia burguesa e foi centro de um debate vivo e dinâmico, possibilitando discutirmos o que significa a terceirização na USP, no país e no mundo.

Proclamou-se que, com a mobilização dos terceirizados e o apoio estudantil, a luta de classes, expurgada das salas de aula, agora “voltava pelos banheiros.â€

A reação dos setores mais reacionários não poderia ser mais previsível: Moções de repúdio dos professores e da diretoria, setores da mídia burguesa, desesperados, exigindo a imediata demissão e punição exemplar destes “grevistas terroristas†e, neste meio, uma discussão dinâmica entre os estudantes que, finalmente, rompiam com a “invisibilidade†dos trabalhadores terceirizados e estes últimos que, rompendo progressivamente com o peso ideológico de décadas de neoliberalismo, passaram a se ver como nós revolucionários os vemos, ou seja, os sujeitos da transformação social!

As trabalhadoras em luta exclamam: “Uma só classe, uma só luta!â€

Um dos mais contundentes ataques que a ofensiva neoliberal desferiu àclasse trabalhadora foi, e segue sendo, a política sistemática de terceirização, com suas variações cada vez mais grotescas, como a quarteirização, etc, política esta, que, por sua vez, foi capaz de dividir a classe trabalhadora dentro dos locais de trabalho, tendo operários, por vezes, cumprindo funções muitíssimo semelhantes, sob “regimes de trabalho†distintos e tendo como resultado a idéia- que se concretiza cotidianamente- de divisão entre efetivos e precarizados, como se fossem classes diferentes, com interesses distintos.

Tal divisão somada ànoção de “fim da classe trabalhadora†e da possibilidade de “organização†como forma possível de transformação da vida, impõe um formidável obstáculo, o qual nós revolucionários temos de superar, levantando um programa e colocando cotidianamente uma prática política que garanta o avanço de consciência do conjunto dos trabalhadores.

É nessa perspectiva que a LER-QI, ao lado de independentes, na corrente Luta de Classes, tem buscado, desde o SINTUSP, avançar, por reconhecer como condição indispensável a necessidade da Unidade das fileiras da classe operária, para a conformação de uma tradição e organização que seja capaz de enfrentar os desafios que a crise econômica e futuros processos profundos da Luta de classe nos colocarão.

É baseando-se nesta avaliação que enchergamos a necessidade central de, durante o processo de luta dos terceirizados, e além, travar uma luta política na categoria de efetivos, demonstrando-lhes os planos precarizantes da REItoria, cuja intenção, em última instância, é a terceirização de milhares de postos de trabalho, hoje ocupados pelos efetivos, em conssonância com os planos de corte de gastos e precarização aplicados nacionalmente a serviço dos grandes empresários, realizando o necessário debate ideológico de combate aos capitalistas e defesa de nossa classe. Neste sentido, a aliança e defesa incondicional da luta e demanda pela incorporação dos terceirizados adquire um caráter estratégico.

Tendo isto em mente, no 1º de maio de 2011, impulsionamos um grande ato, unificando estudantes, trabalhadores terceirizados e trabalhadores efetivos, no sentido de, homenageando José ferreira e nossos mortos, buscarmos dar um exemplo de articulação necessária com a juventude e os estudantes, com um programa classista e democrático, levantando em alto e bom som as bandeiras de “Uma só classe, uma só luta†e pela Incorporação imediata dos trabalhadores terceirizados, sem concurso público, como via de fortalecer nossas fileiras e combater a ideologia da vitória do capitalismo.

Após marcharem no primeiro de maio, contra a repressão da Polícia, levantando seu exemplo de luta e combatividade; após conquistarem os salários e as verbas rescisórias e, assim, imporem uma derrota parcial àReitoria e àempresa; após avançarem em sua consciência de classe e compreensão de que papel histórico podem cumprir; após tudo isto, os terceirizados da USP ainda nos deixaram algumas lições.

Uma “batalha de classes†e uma “escola de guerrasâ€

Na conjuntura nacional coloca-se um debate amplo acerca da precarização das condições de trabalho, tendo como estopim as rebeliões operárias da construção civil, em obras do Governo, as quais tem sido duramente reprimidas e desviadas pelas alternativas de “demissões necessárias†, como é o caso de Jirau, obra de hidrelétrica, em que, recentemente, aprovou-se a demissão de 6000 operários.

Internacionalmente o debate acerca do mundo árabe e a explosão de movimentos populares massivos, como é o caso da Grécia e, mais recentemente, Espanha, tem colocado cada vez mais em xeque todo o período que chamamos de “restauração burguesa†ou neoliberalismo, com o desenvolvimento de processos em que amplos setores da juventude tem buscado soluções para além do capitalismo, para além da decadência, para além da ganância e do velho...

Nestes marcos, encarar os conflitos, como este, como uma “escola de guerras†, desde a qual retirar lições valiosas, aperfeiçoar um programa classista e coerente, forjar setores combativos e classistas, rumando para colocar de pé verdadeiras frações revolucionárias no movimento operário e estudantil, que intervenham em cada luta buscando elevá-las do patamar sindical e econômico aos patamares mais políticos, de questionamento das bases do sistema capitalista, decadente e cuja única proeminência é a de generalizar a miséria, convertendo todo o processo numa exemplar “Batalha de classes†, tal é o objetivo a que nos propomos os revolucionários, herdeiros da tradição trotskysta e é desta forma que devemos intervir concretamente na realidade, nos preparando e forjando uma tradição capaz de fazer frente aos novos tempos e desafios que se abrem!









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