Editorial Semanal

Governo Dilma em xeque, mas a resposta não pode fortalecer a direita

16 Mar 2015   |   comentários

Este último domingo centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de todo o país. Apesar dos inflados números da Polícia Militar e da TV Globo, os jornais tem divulgado o expressivo número de mais de 200 mil apenas na Avenida Paulista, o que em si mostra uma mudança de qualidade em relação a insatisfação com o governo Dilma.

Por Diana Assunção

Este último domingo centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de todo o país. Apesar dos inflados números da Polícia Militar e da TV Globo, os jornais tem divulgado o expressivo número de mais de 200 mil apenas na Avenida Paulista, o que em si mostra uma mudança de qualidade em relação a insatisfação com o governo Dilma. As manifestações tinham como clamor o pedido de mudança e pelo fim da corrupção, mas sem um programa definidos, o que dava espaço para todo o tipo de ideologia de direita, como o pedido de intervenção militar – ao qual devemos repudiar firmemente.

Além disso, é de se ressaltar que a composição social das manifestações tinha como maior expoente setores da classe média. Ainda assim, a insatisfação popular, que por motivos distintos, atinge todas as classes sociais, faz com que milhares de trabalhadores tenham comentado nos seus locais de trabalho sobre este ato com certa expectativa sobre o que iria acontecer.

As jornadas de junho de 2013 deixaram uma lição que permanece viva em nosso país: é a lição das ruas, de que é possível arrancar direitos e conquistas pela mobilização direta. Mas há outra lição muito importante de junho que é preciso que a partir da classe trabalhadora levantemos um programa que responda de fundo a insatisfação que a população já havia expressando com as péssimas condições dos serviços públicos e com a corrupção. O impeachment não responde a este problema, pois muda-se o governante, mas toda a estrutura continua sendo controlada pelos partidos da ordem, que governam para os empresários e capitalistas.

Ao mesmo tempo, o governo Dilma está em xeque porque não soube lidar com o clamor das ruas desde 2013, fazendo promessas e mais promessas que nunca se concretizaram. Pra isso contou com apoio das centrais sindicais que desviaram a luta das ruas, e com a militância petista que clamava um golpe da direita apenas pra defender o governo Dilma, sem nenhuma crítica. Esta situação é expressão de um esgotamento do ciclo “lulista†nestes 12 anos, e é preciso uma alternativa a esquerda.

A atual situação, que ainda há que se ver para onde caminha, pede uma atuação mais decidida dos trabalhadores e da juventude, que não somente protagonizaram as jornadas de junho de 2013 como a maior onda de greves dos últimos vinte anos, que nos brindou com a grande vitória dos garis do Rio de Janeiro no ano passado, mas também com uma série de greves importantes como a dos trabalhadores da USP, dos operários da Volkswagen e da General Motors, e mais recentemente a greve dos professores do Paraná, que apesar de sua direção, mostraram o caminho.

Um plano de lutas para enfrentar os ajustes de Dilma, Levy e todos os partidos da ordem.

Enquanto a insatisfação aumenta vemos um avanço também nos ataques contra a classe trabalhadora e a população mais pobre. Os ajustes são um plano de toda a burguesia, não apenas do governo Dilma, e são a expressão de que frente àcrise econômica querem que sejamos nós que paguemos a conta. Isso significa que a insatisfação poderá tomar novas proporções com o avanço dos ajustes, com a retirada de direitos e as demissões. É por isso que é necessário desde já organizar um plano de lutas que se expresse nas lutas em curso mas também nas assembleias de todas as categorias que fazem parte da CSP-Conlutas e das Intersindicais.

No próximo dia 26 lideranças da juventude anti-governista estão convocando um dia de luta pela educação que deve se combinar com a solidariedade a greve dos professores que terá nesta semana momentos decisivos, já que o governo Alckmin está atacando o direito de greve dos professores. É necessário uma campanha pelo direito de greve e também para desmascarar nas escolas e universidade que o lema “pátria educadora†é mais uma mentira do governo Dilma. Pra além disso enquanto se avança os ajustes contra os trabalhadores e a população, o Senado prepara um ataca contundente contra os setores mais explorados da classe trabalhadora com a PL 4330 que aprofunda a terceirização do trabalho. Esta PL será levada àvotação no dia 7 de abril, e por isso seria fundamental como parte de um plano de lutas contra os ajustes que a partir da CSP-Conlutas e das Intersindicais fosse feito um chamado a todas centrais sindicais a organizar para este dia uma paralisação nacional contra os ajustes e contra a PL 4330.

Precisamos levantar um programa operário pra enfrentar esta situação que deve começar por não aceitar nenhuma demissão ou outras formas de ataque ao emprego, exigindo a redução da jornada sem redução do salário, pra que todos tenham acesso ao emprego. Também devemos combater a inflação, lutando para que o aumento do salário seja de acordo com o aumento do custo de vida. Que todos os trabalhadores recebam, como mínimo, o salário mínimo indicado pelo DIEESE. Devemos lutar pelo fim da PL 4330 que aumenta e perpetua a terceirização e garantir a efetivação de todos os trabalhadores terceirizados sem necessidade de concurso público. Para que nenhuma família fique sem água e sem luz, pela abertura dos livros de contabilidade destas empresas que foram privatizadas e entregues aos grupos capitalistas para atacar o lucro patronal e para que estejam, além de estatizadas, sob controle operário e popular, como única forma de garantir água, saneamento e energia de qualidade, segura e de baixo custo.

Por uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana

Para nós, que defendemos uma sociedade sem classes, sem exploração e opressão, os trabalhadores, a juventude e o povo pobre devem conquistar o direito a decidir e fazer valer sua vontade, pois são os que sustentam o país. Neste momento de enorme insatisfação, os trabalhadores precisam avançar pra uma proposta de fundo que possa avançar pra um questionamento da sociedade de conjunto. Lutar por uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana, onde a população pudesse decidir por si própria a saída para os grandes problemas do país (soberania, propriedade privada versus propriedade social, direito àcidade, serviços públicos, emprego, meio ambiente etc.) seria uma forma de enfrentar a situação atual. A isso, precisamos combinar a agitação de ideias concretas que podem enfrentar a corrupção e impedir que tudo vire pizza: precisamos lutar por Comissões Independentes de Investigação e pelo confisco dos bens de todos os corruptos. Os políticos, deputados, juízes e funcionários de alto-escalão devem ganhar o mesmo salário de uma professora.

Estas medidas devem estar acompanhadas da luta por um governo operário e popular, contra os capitalistas e todas essas instituições do regime de exploração e opressão, na perspectiva de uma sociedade sem classes, sem explorados e exploradores em todo o mundo. Neste caminho, frente ao enorme desgaste do PT e às variantes da oposição de direita e dos grupos reacionários que já se manifestam, a esquerda precisa abrir o mais amplo debate sobre a ferramenta necessária que os trabalhadores precisam para levar adiante um caminho independente do governo, da direita e dos patrões. Precisamos de um verdadeiro partido revolucionário e internacionalista, que reúna os trabalhadores e a juventude que estiveram na linha de frente das greves e manifestações. Queremos abrir este debate com todos os trabalhadores e jovens que atuam conosco nos locais de trabalho e estudo, ou impulsionando o Movimento Nossa Classe, a Juventude Às Ruas e o grupo de mulheres Pão e Rosas, e por isto neste mês lançamos o portal digital Esquerda Diário como uma ferramenta pra este debate e pra esta perspectiva.









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