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Eleições em São Paulo

Giro àdireita ou falta de alternativas ao PT?

09 Oct 2014   |   comentários

Campanha petista nas redes sociais agita suposta "direitização" do eleitorado paulista para alentar voto útil em Dilma. Mentem para esconder e remediar seu debilitamento no estado.

Um dos centros dos grandes protestos em junho, o estado de São Paulo reelegeu o governador Geraldo Alckmin no primeiro turno e votou amplamente em Aécio Neves. A derrota do PT foi tão forte, que obrigou Dilma a reconhecer o fracasso e prometer um dialogo especifico com o estado.

A militância petista está culpando o reacionarismo tradicional do estado pela derrota. Seria a comprovação da sua tese, com a adesão tardia por parte de setores da esquerda, de que as manifestações de junho tiveram um caráter conservador. Uma analise mais atenta dos resultados eleitorais do estado de São Paulo, no entanto, mostram um cenário muito mais complexo.

O PT foi o grande derrotado nas eleições. Para presidente perdeu 2,8 milhões de votos. A queda para o governo do estado, com um candidato mais fraco, foi ainda maior: de 4,1 milhões de votos. Perdeu um senador por São Paulo e deputados federais e estaduais. As demais candidaturas cresceram e também os votos nulos e brancos. Seria uma análise cega demais acreditar que a queda do PT se traduza no crescimento do PSDB. O que não condiz com os números, já que o crescimento do PSDB foi ínfimo comparado com a queda do PT.

A vitória tucana não está isenta de contradições. Houve ao longo da campanha eleitoral de São Paulo grande oscilação das intenções de voto para presidente. Primeiro com a queda de Aécio e crescimento de Marina Silva, depois com o movimento contrário. Ao mesmo tempo em que acabou arrastando uma parcela do voto dos desiludidos com o PT nas classes médias, também perdeu votos neste setor para alternativas mais conservadoras e com menor expressão, como o evangélico Pastor Everaldo ou o candidato de extrema direita Levi Fidelix. Na juventude principalmente, foi expressivo o aumento da votação do PSOL, no entanto muito abaixo do aumento de votos brancos e nulos e da abstenção.

O voto para governador expressa de forma mais acentuada essa característica da eleição, da incapacidade das variantes do regime em São Paulo absorverem o forte desgaste do PT. O voto em branco e nulo passou de 10 para 17%. Na capital do estado, Aécio ampliou muito pouco a votação de Serra em 2010 ao passo que a queda do PT foi grande. Na eleição para governador não foi só o PT que diminuiu sua votação. Geraldo Alckmin também perdeu votos na capital em comparação com 2010. A cidade de São Paulo, que foi um dos centros nas manifestações de junho, mostrou desgaste eleitoral tanto do PSDB quanto do PT, ainda que deste último numa escala muito maior.

Giro a direita ou falta de alternativas ao PT?

Partindo deste quadro um pouco mais detalhado do que os dados percentuais brutos que o PT utiliza de forma interessada, podemos ver que não houve um fortalecimento da direita em São Paulo. Mais ainda, não é exagero afirmar que em meio a muitas crises, o PSDB se mantém em função da debilidade ainda maior dos seus adversários.

A força que chegou a ter a candidatura de Marina Silva no estado, antes do PT pregar nela a etiqueta de neoliberal, é uma mostra do desgaste tanto do próprio PT como do PSDB. Não é impossível até que o PT recupere parte dos votos que perdeu no estado, quando voltar sua campanha de denúncia contra Aécio Neves e pregar nele a pecha impopular de neoliberal e privatizador. Mas isso não significaria que o PT teria conseguido recompor sua base social no estado.

O grande rechaço ao PT é consequência direta das manifestações de junho e da crise de representatividade que golpeia o PT duplamente, no aparato estatal e sindical. A votação do PSOL, que na reta final do primeiro turno fez uma campanha centrada nas bandeiras democráticas contra a homofobia e o machismo, em alguma medida é expressão do sentimento de junho. É uma pequena mostra de que o desgaste do PT pode ser traduzido em crescimento das bandeiras da esquerda inclusive no terreno eleitoral.

Agora, no segundo turno, o PSOL se soma ao apoio implícito ou explícito ao PT com o pretexto do perigo da direita. Como sabem muitos trabalhadores e jovens que deixaram de votar no PT, este partido há muito tempo está aliado com a direita mais retrógrada. O único verdadeiro caminho consequente para combater a direita é construir uma alternativa de massas ao PT, que não repita os erros do passado.

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