Ditadura Militar

ENTREVISTA

Gilson Dantas depõe na Comissão da Verdade da UnB

09 Oct 2014   |   comentários

Entrevistamos a seguir Gilson Dantas, médico e doutor em sociologia que militou contra a ditadura e é militante da Liga Estratégia Revolucionária, sobre o depoimento que dará na Comissão da Verdade da Universidade nacional de Brasília no dia 10 de outubro de 2014.

Site Palavra operária: O que é a Comissão da Verdade da UnB?

Gilson Dantas: É uma Comissão que foi criada pela reitoria da universidade supostamente para resgatar a memória de como foi a repressão da ditadura militar na UnB. Digo supostamente porque ela é subordinada àComissão Nacional da Verdade criada pelo governo Dilma. Ou seja, faz parte do pacto que o governo do PT fez com os militares, que impede que qualquer verdade que venha àtona nessa investigação sirva para punir os responsáveis pelos assassinatos e torturas. Um pacto sinistro, “pacto da impunidade†, que preserva o poder que esses responsáveis dispõem até hoje, não apenas no aparato militar do país, aparato que reprimiu as manifestações de junho de 2013 e reprime os trabalhadores em cada greve, mas também nos órgãos de polícia especialmente destinados a exercer a repressão contra pobres e negros nas favelas, provocando um genocídio sistemático da juventude nas periferias; na verdade é o mesmo aparato que está operando contra negros pobres nas favelas do Haiti, em deplorável cumplicidade com os interesses norte-americanos.

Palavra Operária: Por que te chamaram para depor nessa Comissão?

Gilson: Quando a UnB foi invadida pelo exército em 1968 eu estava lá e fui um dos presos junto a centenas de estudantes. E principalmente em 1970, quando lideramos uma greve estudantil na UnB, eu era vice-presidente do centro acadêmico de medicina, vinculado àFEUB, federação dos estudantes, que tinha sido posta na ilegalidade pelos militares. Naquele momento, fui preso e torturado junto com outros colegas.

Palavra Operária: Conte um pouco como foi a prisão e a tortura.

Gilson: Fomos presos sem mandato judicial. Ou seja, sequestrados. Logo surgiu um forte movimento democrático pela nossa libertação. Foram 37 dias de prisão. Eu fui torturado com socos, “telefone†e jatos de mangueira d’água. Mas colegas meus sofreram torturas muito piores. Me lembro de ver uma companheira sendo arrastada desacordada e perdendo sangue por dois policiais.

Palavra Operária: Como você foi convidado?

Gilson: Na verdade eu não fui convidado. Eu tive que ir lá bater na porta deles e dizer que eu queria depor.

Palavra Operária: Por que não te convidaram?

Gilson: Presumo que tem a ver com o fato de que eu denuncio esse pacto que o PT junto com os demais partidos da ordem fizeram para preservar os responsáveis pela ditadura. Denuncio esse pacto que legitima a lei da Anistia no Brasil, que já em 1979 garantiu essa impunidade ao colocar como pré-condição para a anistia aos que resistiram àditadura, que os militares também fossem anistiados por seus crimes. É uma lei reacionária que precisa ser derrubada. Não me convidaram espontaneamente certamente porque não querem dar visibilidade para esta posição política, que desmascara a farsa que é essa Comissão da Verdade, paliativa e com ares de teatro. O governo faz algumas pequenas concessões para calar as vítimas da ditadura. Mas eu e muitos outros não aceitamos essa farsa. A política do governo petista é tão vergonhosa que os próprios organismos de direitos humanos internacionais a denunciam. A consequência dessa política é que um personagem sinistro como Jair Bolsonaro chega a ser o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro nessas eleições. Este e vários outros absurdos são responsabilidade da política de conciliação com os militares promovida pelo PT no governo.

Palavra Operária: Qual sua expectativa com o depoimento?

Gilson: Eu espero poder contar uma história um pouco distinta da que hoje é considerada como verdade. A história que nos contam é de que o golpe de 1964 foi um golpe contra os supostos avanços nacionalistas e democráticos do governo João Goulart, e que 1968 foi apenas uma revolta estudantil e um movimento de libertação cultural. Essa é uma versão politicamente interessada. Espero poder contar que o verdadeiro motivo do golpe militar foi o poderoso ascenso de lutas do movimento camponês e do movimento operário que corroeu profundamente as bases das forças armadas, ameaçando dar passagem a um processo revolucionário que João Goulart tentava mas não conseguia controlar. E que o endurecimento da ditadura a partir de 1968 veio em resposta aos resquícios daquele processo quando estes voltaram a ameaçar a ordem com as grandes greves de Osasco e Contagem e as tendências àaliança entre estudantes e operários que se desenvolviam com uma força muito grande, inspirados pelo Maio francês. Essa, que é a verdadeira história, não é contada porque exigiria uma sincera autocrítica de todos que participaram da resistência emprestando apoio e confiança cega às direções nacionalistas burguesas e também porque é um duro golpe àestratégia de conciliação de classes que marca a história do PT.

ASSISTA INTERVENÇÃO DE GILSON DANTAS EM ATO PELA PUNIÇÃO DOS RESPONSà VEIS PELA DITADURA REALIZADO NA APEOESP EM 2011, AOS 47 ANOS DO GOLPE MILITAR.

Artigos relacionados: Brasília , Ditadura Militar









  • Não há comentários para este artigo