Internacional

Geopolítica da crise mundial

18 Nov 2014 | O conflito ucraniano está se transformando em um ponto de inflexão da situação internacional. As contradições econômicas abertas com a crise em 2007/2008 estão alcançando um nível de crispação a nível inter-estatal não vista em várias décadas, caindo por terra todas as teorias mais harmonicistas do capitalismo contemporâneo e mostrando a relevância da teoria do imperialismo para compreender o mundo que está por vir. Neste artigo analisamos os elementos mais teóricos desta crise e em outro nível nos referiremos à rápida evolução da situação geopolítica   |   comentários

A crise atual ainda não tem dado lugar a uma grande transformação geopolítica como em 1929. Segundo Isaac Johsua, a de 1929 foi "uma crise da emergência americana" (enquanto ocorria a emergência da Alemanha no Velho Continente). Efetivamente, o avanço norte-americano havia sido tão rápido que impediu que o Reino Unido tivesse seu antigo papel estabilizador frente as condições econômicas catastróficas, sem que os EUA estivesse em condições de (...)

A crise atual ainda não deu lugar a uma grande transformação geopolítica como em 1929. Segundo Isaac Johsua, a de 1929 foi "uma crise da emergência americana" (enquanto ocorria a emergência da Alemanha no Velho Continente). Efetivamente, o avanço norte-americano havia sido tão rápido que impediu que o Reino Unido tivesse seu antigo papel estabilizador frente as condições econômicas catastróficas, sem que os EUA estivesse em condições de substituir a Inglaterra. Esta dupla incapacidade foi crucial em 1931 frente àcrise bancária alemã e a queda da libra inglesa, contradições que por sua vez vão desembocar na Segunda Guerra Mundial.
Pelo contrário, a crise atual não somente tem gerado uma resposta distinta (como se viu com a intervenção massiva dos estados com a finalidade de sustentar ao sistema financeiro em bancarrota), senão que tem sido o próprio FED, seguido pelo BCE e o BoJ, os que tem impedido que a crise não se torne neste momento em uma grande depressão. Por sua vez, o surpreendente é a debilidade da mudança a nível geopolítico.

Esta solução temporária nesta primeira fase da crise, a qual poderíamos denominar "não catastrofista", tem reforçado uma visão que superdimensiona o papel de liderança norte-americano como gestor imperial coletivo. Segundo os sustentadores desta visão, na segunda metade do século XX, tal gestão (imperial coletiva) substituiu os velhos confrontos interimperialistas (inclusive os bélicos). Contudo, esta concepção dificulta a compreensão dos prováveis próximos capítulos da crise, sobretudo de suas possíveis implicações nas relações interestatais entre as grandes potências capitalistas.

A vitalidade da teoria do imperialismo

Samir Amin foi um dos primeiros autores a utilizar o conceito do "imperialismo coletivo" para retratar uma característica distintiva do imperialismo contemporâneo, segundo sua visão: a gestão coletiva ou nova modalidade de dominação coordenada.

Outros autores, como o economista argentino Claudio Katz, enfatizam a associação internacional dos capitalistas. Ainda que Katz em seu livro Bajo el imperio del capital (2011) afirma que se trata de um processo contraditório e tendencial que não tem criado classes dominantes transnacionais desvinculadas de seus velhos Estados, argumenta que este processo tem transformado significativamente a estrutura competitiva nacional do imperialismo clássico. Para Katz, esta mudança de modalidade dilui o perigo de guerras inter-imperialistas e distancia a possibilidade das mesmas.

Desde outra concepção, Leo Panitch e Sam Gindin em um livro de recente aparição chegam a mesma conclusão, já que eles vem ao EUA como "o garantidor último dos interesses capitalistas globais" (The Making of Global Capitalism: The Political Economy of American Empire, 2012). Em consequência, eles argumentam, as classes dominantes ocidentais estão agora tão integradas sob o Império Norte-americano que já não tem interesses antagônicos e a perspectiva marxistas clássica da rivalidade inter-imperialista tem ficado "fora de moda".

Frente ao ressurgimento destas análises que suprimem as perspectivas mais explosivas do capitalismo, a polêmica entre Kautsky e Lenin, desenvolvida faz justamente quase um século atrás ao calor da Primeira Guerra Mundial, cobra uma maior importância. Quando Kautsky analisou a primeira "onda de mundialização" e tomou como tendência o importante avanço na fusão internacional do capital , previa um debilitamento progressivo das contradições imperialistas que deviam conduzir ao "ultraimperialismo". Neste modelo, a fusão internacional do capital havia avançado tanto que os distintos interesses econômicos entre os proprietários internacionais do capital desaparecem. Em "Der Imperialismus", aparecido como Die Neue Zeit o 11 de setembro de 1914 Kautsky sustenta: "Assim, desde o ponto de vista puramente econômico não é impossível que o capitalismo sobreviva ainda outra fase, a cartelização na política exterior: uma fase do ultraimperialismo, contra a qual devemos, desde já, lutar tão energicamente como o fazemos contra o imperialismo, mas cujos perigos jazem em outra direção, não na corrida armamentista e a ameaça àpaz mundial".

Lênin não negava a possibilidade de uma maior concentração e centralização internacional do capital. Afirmava que a tendência "lógica" ao longo prazo levava ao estabelecimento de um consórcio mundial único. Mas levantava que antes que esta conclusão ’lógica’ se consumasse o capitalismo estouraria como conseqüência da exacerbação de suas contradições internas e da luta revolucionária do proletariado e dos povos oprimidos do mundo.

No prólogo ao livro de Bukharin O imperialismo e a economia mundial Lênin diz: "Não há duvida de que o desenvolvimento marcha em direção a um único truste mundial, que devorará todas as empresas e todos os Estados sem exceção. Contudo, por outro lado, o desenvolvimento caminha em tais circunstâncias, com tal ritmo, com tais contradições, conflitos e comoções - não só econômicas, senão também políticas, nacionais, etc.-, que inexoravelmente, antes que se chegue a um único truste mundial, a união mundial ’ultraimperialista’ - dos capitais financeiros nacionais, será inevitável que estoure o imperialismo e o capitalismo se converta em seu contrário".

Como podemos ver a partir deste prefácio, e em sua obra de conjunto, a chave da política de Lênin era a perspectiva revolucionária que se desprendia de uma análise objetiva das contradições que havia alcançado o desenvolvimento capitalista. Esta última o separava de Kautsky e seu "desejo profundamente reacionário de acalmar as contradições" (segundo suas próprias palavras) de onde derivava suas conclusões profundamente pacifistas.

Em todos os autores citados anteriormente se pode observar uma lógica similar, já que ainda que apontem certas tendências contraditórias do sistema capitalista atual, ao absolutizar de forma abstrata certas tendências, terminam sempre inclinando-se por resolver de maneira pouco dialética as contradições, forçando-as para o lado "bom" e acentuando os aspectos que moderam as contradições. Esquecem que, como sustentava Trotsky, "O capitalismo tem sido incapaz de desenvolver uma só de suas tendências até o final".

Características da hegemonia norte-americana e seu declínio: diferenças com a perda do domínio britânico

Estados Unidos, apesar de seu declínio, segue sendo a potência hegemônica por falta de outra, mantendo-se por hora nesta posição devido àinconsistência de seus oponentes e as debilidades de seus competidores. Contudo, para valorizar em sua justa medida esta afirmação haveria que partir das características históricas da supremacia norte-americana, que são qualitativamente diferentes às da Inglaterra no século XIX e começo do século XX.

Nesta mudança na modalidade das formas de hegemonia é uma conseqüência da nova dimensão da concorrência depois do advento das grandes corporações e cartéis, quer dizer com a chegada do capitalismo monopolista ou da época imperialista.

Ernest Mandel é o que melhor capta este aspecto novo. Em seu livro O significado da Segunda Guerra Mundial, Mandel sustenta que "... o motor da Segunda Guerra Mundial foi a maior necessidade dos Estados capitalistas de dominar a economia de todos os continentes mediante inversões de capital, acordos preferenciais de comércio, regulamentações monetárias e hegemonia política. O objetivo da guerra era não só a subordinação do mundo menos desenvolvido senão também de outros Estados industrializados, fossem inimigos ou aliados, às prioridades de acumulação de capital de uma potência hegemônica". E sem negar as enormes mudanças qualitativas geradas pela última onda de mundialização das últimas décadas, a lógica central da concorrência capitalista, tem sua origem "... na necessidade de conseguir para si mesma (ou negar para outros) a inserção estratégica no mercado mundial pela via da hegemonia sobre uma parte substancial do mundo, como um passo necessário na trajetória para o domínio mundial".

Esta necessidade explica o passo dado pelos EUA de romper de forma decisiva com o isolamento econômico e o desenvolvimento centrado no mercado nacional que é o significado de sua entrada na Segunda Guerra. Todos esses são elementos de base econômica (ou das transformações do capitalismo no século XX, poderíamos dizer) que refutaram as teses do ultraimperialismo de Kautsky.

Ao mesmo tempo estes elementos lhes dão nova significação e validez às instituições de Lênin em sua famosa obra "O Imperialismo, fase superior do capitalismo" sobre a tendência do imperialismo a "anexar, não somente as regiões agrárias, senão também as regiões industriais (Bélgica é cobiçada pela Alemanha, Lorena por França)".

Voltando ao século XXI, estas características constitutivas da supremacia americana são as que põe enormes obstáculos na roda a toda contestação hegemônica. Obstáculos que por outro lado são qualitativamente mais complicados em comparação com os que em seu momento selaram o fim da hegemonia britânica (a dupla emergência norte-americana no mundo e a alemã a nível europeu.

Mas estas dificuldades acrescentadas não surgem de uma mudança das características do imperialismo como o neokautskismo atual sugere, senão da afirmação completa das tendências imperialistas àsupremacia, as que foram levadas ao extremo nas últimas décadas pelas distintas administrações norte-americanas com o objetivo de atrasar (e se possível reverter) sua decadência hegemônica.

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