Internacional

XII CONGRESSO DO PTS

Fragmentos da intervenção de Emílio Albamonte levando a saudação da direção do PTS àConferência de Organização da Juventude

21 Dec 2011   |   comentários

Companheiros, queria aproveitar esta saudação para falar de tradição revolucionária. A palavra tradição vem do latin trader, que significa entrega. E o que os revolucionários das velhas gerações entregam as novas? O legado revolucionário, isto é, uma teoria, uma estratégia, alguns costumes forjados na própria luta que ajudam aos novos companheiros e mais em geral, os trabalhadores e as classes oprimidas, para estes não recomeçarem sempre do zero.

Como vocês definiram nos documentos de vossa conferência, não estamos frente a uma crise a mais do sistema capitalista. A mesma tem proporções históricas e não só os marxistas, mas os próprios analistas burgueses só encontram um ponto de comparação na crise dos `30. Isto é, a época da revolução e guerra civil espanhola, do ascenso do fascismo e do stalinismo, crises que culminaram na horrenda carnificina da segunda guerra mundial.

Falemos então da crise dos anos 30. Como esta é uma conferência de juventude, vou falar através das reflexões de artistas e pensadores que deixaram imagens que permitem compreender a gravidade daquela situação.

O grande escritor e critico cultural marxista Walter Benjamin escreveu nas suas “Teses sobre a filosofia da história†: “Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso†.
O mesmo autor define em outra parte que “toda história da civilização é ao mesmo tempo uma história de barbárie†.

Apresentando como um aforismo a forma profundamente contraditória e bárbara que tomou o progresso nas sociedades de classes, também afirma que “nada corrompeu tanto os operários alemães como a opinião de que estavam nadando com a corrente†. Com frases como esta, reafirma a dialética colocada por Rosa Luxemburgo: “socialismo ou barbárie†e tirando duras lições das profundas derrotas do proletariado alemão que, apesar de ter construído os sindicatos e o partido mais poderoso do movimento internacional, viu a todas suas organizações e seus principais dirigentes cooptados pela burguesia, o que os conduziu aos desastres de duas guerras mundiais e ao fascismo.
Benjamin, judeu alemão, fugiu da França, onde tinha-se refugiado em 1940 e se suicidou em uma pousada na fronteira espanhola, quando lhe negaram o visto para fugir aos Estados Unidos, onde seus amigos de idéias haviam conseguido refúgio.

Em 1933 saiu uma novela que quase de imediato consagrou seu autor como um dos mais importantes escritores franceses do século XX. O autor se chamava F. Céline e o livro “Viajem ao fim da noite†. Nele, Céline, que era médico e tinha sido voluntário na primeira guerra mundial, obtendo a medalha de honra militar, contava de forma o caráter da primeira batalha imperialista. “Digo aos infelizes fodidos da vida, vencidos, desolados, sempre encharcados de suor, advirto-os, quando os grandes deste mundo começam a amá-lo é por que vão transformá-los em carne de canhão†.

Pouco depois de o livro ser lançado, Leon Trotsky estava por chegar a França em sua longa peregrinação, que seu biógrafo I. Deutscher chamou “O mundo sem visto†. Escreveu um crítica intitulada “Poincaré e Céline†onde disse “Viagem ao fim da noite, novela de pessimismo, ditada mais pelo espanto perante a vida, e o tédio que ela ocasiona do que pela rebelião. Uma rebelião ativa segue unida àesperança. No livro de Céline não há esperança...na música do livro há dissonâncias significativas. Rejeitando não só o real mas também o que poderia substituí-lo o artista mantêm a ordem existente. Neste sentido, querendo ou não, Céline é aliado de Poincaré (Poincaré era o presidente da França imperialista e um dos responsáveis pela guerra). Mas ao descobrir o engano sugere a necessidade de um futuro mais harmonioso. Embora acredite que nada de bom virá do homem, a intensidade de seu pessimismo traz em si o antídoto†.

Trotsky, que ressalta permanentemente a enorme qualidade literária da novela, conclui, no entanto, com uma previsão assustadora: “Céline já não escreverá outro livro onde brilhe tanto a aversão àmentira e a desconfiança da verdade. Esta dissonância tem de ser resolver. Ou o artista se aventura na escuridão ou verá a aurora†.

Digo, “previsão assustadora†porque Trotsky na última frase prevê uma das possíveis alternativas do grande escritor: efetivamente Céline não se tornou revolucionário, parafraseando Trotsky “se acostumou a escuridão†e se transformou, alguns anos depois, em um colaborador dos nazistas na França ocupada.

Leon Trotsky, que não era só um homem de pensamento mas também um homem de ação, descreveu com características não menos sombrias a situação que se vivia, mas a ligou, fazendo uma análise materialista histórica, a crise de direção do proletariado. Na realidade, em um tom completamente distinto ao luminoso “um fantasma roda o mundo†do Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels, depois de um século de lutas, de enorme triunfos como a revolução russa e de grandes derrotas como o ascenso do stalinismo, o fascismo e as guerras mundiais, Trotsky começa o Programa de Transição com uma frase lapidar, mas não pessimista: “a crise da humanidade se resume a crise de sua direção revolucionária†. Digo não pessimista pois neste programa se sintetiza a continuidade do pensamento clássico marxista e a estratégia para enfrentar a crise de direção e triunfar.
No entanto, a história foi muito mais complicada do que previu brilhantemente o próprio Trotsky.

O imperialismo não saiu impune da guerra, de fato perdeu o domínio de um terço da economia mundial e explodiram revolução na Europa (França, Italia, Grecia, etc) que os stalinistas e social-democratas que dirigiam o movimento operário ajudaram a freiar e derrotar. Também surgiram revoluções triunfantes no mundo semi-colonial (China, Coréia, Vietnã) mas dirigidas por direções stalinistas ou pequeno burguesas inimigas declaradas da auto-organização das massas e da revolução socialista internacional.

Na “Ordem de Yalta†onde as potências imperialista e o stalinismo dividiam o mundo em zonas de influência, significava, simultaneamente, o crescimento de uma competição econômica, política e militar entre dois sistemas. Os Estados operários degenerados ou deformados burocraticamente, que dirigia o stalinismo, apesar de algumas conquistas parciais nas primeiras décadas, demonstraram que a previsão de Trotsky, de que o socialismo em um só país era uma utopia, era totalmente correta. Ou se avançava ao socialismo internacional (liquidando a casta burocrática) ou a restauração do capitalismo seria um fato inevitável como previa “A revolução traída†. No começo dos `90 e depois de décadas de repressões aos movimentos na Europa oriental (Polônia, Checoslováquia, Hungria, etc) e na própria URSS, o stalinismo afundou vergonhosamente arrastando o capitalismo aos Estados que dirigia. O Partido Comunista Chinês se transformou no promotor da volta do capitalismo selvagem que ajudou a baixar os salários da classe operária mundial, transformando-se em um fator adicional de desmoralização. Sendo um componente essencial da ofensiva neoliberal e da época da restauração que se iniciou no começo dos `80.

O movimento trotskista saiu enormemente debilitado da guerra pela repressão prévia, sem a figura de Trotsky e em mundo dividido entre imperialistas e stalinistas. Não pode resistir a pressão e se dividiu em múltiplas correntes que oscilaram entre a reforma e a revolução (centristas). Nós, desde o PTS e a FT, há duas décadas, ao mesmo tempo que tentamos nos fundir com a classe trabalhadora, tentamos fazer crítica precisas aos grandes erros e desvios da corrente da qual viemos e das outras que formam o movimento trotskista internacional. Não fizemos com um afã destrutivo, pelo contrário, temos buscado também aqueles acertos que puderam ser um ponto de apoio para a reconstrução do marxismo revolucionário. A isto chamamos “fios de continuidade†.

Voltando ao princípio da minha intervenção, o legado que queremos transmitir neste momento onde renasce uma crise história do capitalismo não é só do marxismo clássico mas também o legado das críticas detalhadas dos erros e a busca por fios de continuidade. Convido as companheiros de nossa juventude a estudar cuidadosamente este legado para elaborar uma estratégia superior: Isto é, o que Leon Trotsky chamava de “arte de vencer†.

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