Questão negra

Ferguson: piquetes, a questão da raça e classe

02 Dec 2014   |   comentários

Nos Estados Unidos, se vivem dias conturbados. Desde o assassinato do jovem negro Mike Brown em agosto deste ano, protestos, piquetes e motins entraram no cenário norteamericano. Mas não é a primeira vez que isso acontece.

Nos Estados Unidos, se vivem dias conturbados. Desde o assassinato do jovem negro Mike Brown em agosto deste ano, protestos, piquetes e motins entraram no cenário norteamericano. Mas não é a primeira vez que isso acontece.

Entre as várias discussões que levantou o caso de Mike Brown, uma foi o tipo de protesto realizado. Enquanto muitos figurões da política dos EUA clamavam por manifestações pacificas - entre eles Barack Obama, reverendo Al Sharpton - em Ferguson os manifestantes incendiavam lojas e carros policiais resistindo a repressão da polícia e da Guarda Nacional.

O conselho desta aristocracia negra, integrada e corrompida pelas estruturas de poder, chamava àcalma e ao protesto pacífico. Disse Eric Holder, Procurador Geral dos EUA: "Quando progredimos neste país, o fizemos por meios pacíficos". Bem, talvez a verdade seja o exato oposto.

Como mostra Ned Resnikoff da Al Jazzeera, tumultos e piquetes foram um elemento-chave na conquista dos direitos civis nos EUA. Na década de 60, o movimento negro começou aderindo àresistência pacífica, mas frente a violência institucional e policial, rapidamente evoluiu para um movimento de resistência. A essa resistência se devem muitos dos direitos formais conquistados para os afroamericanos.

"Hoje ànoite, devo dizer que o motim é a linguagem dos que não foram ouvidos", disse Martin Luther King, em 1968, pouco antes de ser morto por haver-se tornado uma ameaça. Mais tarde, o Partido dos Panteras Negras se constituiria como uma organização político-militar que abertamente se confrontava com as forças da ordem. Esta organização seria, mais tarde, infiltrada pelo FBI e destruída a fogo e sangue.

Outro exemplo é o progresso em direitos dos homossexuais, amplamente ignorados e pisoteados até a corajosa revolta que aconteceu no Stonewall Inn, em Nova York, onde uma multidão enfurecida se levantou para pôr um fim aos abusos da polícia homofóbica. A cada ano se comemora no 28 de junho esta corajosa resistência na Marcha do Orgulho Gay.

E se formos mais para trás na história americana, os direitos mais básicos dos trabalhadores foram alcançados graças às conquistas das ruas: a rebelião da Praça Haymarket na luta para a jornada de 8 horas, a batalha da Montanha Blair pela sindicalização dos mineiros.

Mas o que o caso Ferguson escancara sobre todas as coisas é a manutenção da segregação racial na sociedade americana. Os números falam por si. A população carcerária dos Estados Unidos é composta por 37% de indivíduos afro-americanos, enquanto estes consistem em apenas 12,6% da população geral. Após 50 anos de suposta integração, a segregação espacial é hoje profundamente demarcada. As famílias negras vivem em bairros de população predominantemente negra. A integração não foi além da esperança e a sociedade pós-racial foi pura ilusão. A cada 28 horas um afro-americano é morto por um policial ou um segurança privado, alegando "legítima defesa".

Além disso, os obstáculos inerentes ao sistema para punir e/ou condenar policiais ou outras forças pioram as coisas. Sim, o caso Darren Wilson é escandaloso pois necessitava-se apenas de uma "suspeita razoável" para imputar uma acusação de assassinato. As ações que buscam imputar em casos como esse o fazem 99,9% das vezes nos EUA. É evidente a cumplicidade do promotor McCulloch.

Mas isso não surpreende. Os promotores trabalham diariamente em colaboração com a polícia para reunir informações para os seus casos. Denunciar um deles iria quebrar esta aliança. Por outro lado, uma pesquisa da Gallup mostra que os brancos são muito mais propensos a confiar na polícia do que os negros. Um júri com maioria branca, como no caso de Michael Brown, tendencia fortemente o campo de disputa.
Diante desta realidade de um sistema judicial na medida da população branca, a frase de Martin Luther King volta a ressoar com força, e toma corpo na ação direta dos tumultos e piquetes por Michael Brown. Mas seria um erro tomar a questão racial isoladamente.

A divisão racial não pode ser analisada apenas como um problema moral, de modo ahistórico. Embora existam preconceitos, e já existiam de várias formas ao longo da história, a segregação dos negros (especialmente os EUA, mas também em muitos outros países) tem desempenhado um papel específico: dividir a classe trabalhadora. A insurreição, que ameaçava a viabilidade do desenvolvimento capitalista em meados do século XIX, impôs essa necessidade. As leis racistas selaram esta discriminação por décadas, primeiro através da escravidão, e mais tarde com a implementação de direitos diferenciados.

Hoje em dia, passado os dias em que você poderia ser abertamente racista, a discriminação racial persiste, ainda que não sobre o papel. Uma aristocracia negra, composto por indivíduos que alcançaram progressos na escala social e entraram nos mais altos escalões do poder, se pretende negar esta divisão. No campo acadêmico, há muitas vozes que têm proclamado o fim do racismo e os inconvenientes de continuar falando sobre "raça". Hoje está claro que o racismo ainda existe.

Mas compreender isto em uma chave moral, como se fosse apenas um preconceito abominável, tem conseqüências desastrosas na hora do combate. Compreender a discriminação étnica/racial em todas as suas formas como um mecanismo para dividir e enfraquecer a classe trabalhadora abre o caminho para fazer a batalha contra o inimigo certo, o inimigo de classe.

Existe muito mais em comum entre dois trabalhadores do Walmart, um branco e um negro, que este mesmo trabalhador negro com o Reverendo Al Sharpton e história de enriquecimento e evasão fiscal. O mesmo se aplica com os latinos, principal força de trabalho precarizado no mercado dos EUA. Não é por acaso que floresçam e se multipliquem as ONGs que defendem estas minorias, para amarrá-los por trás do programa de conciliação de classe do Partido Democrata. Uma luta contra os abusos da polícia, pelo direito àsindicalização, por melhores salários, pode ser conduzido por todos esses atores em uma frente única. Trata-se de unir todas essas minorias, e transformá-las em maioria.

Neste contexto, não se pode passar despercebido um fato deste último "Black Friday". Os manifestantes indomáveis de Ferguson, se juntaram ao protesto às portas do Walmart, se somando àconsigna contra a brutalidade policial. Também convergiram em algumas cidades ativistas do FightForFifteen, que vêm protagonizando um dos processos mais progressistas nacionalmente.

Talvez algo esteja mudando no epicentro do capitalismo mundial.

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