Gênero e Sexualidade

Feminismo mastigável

06 Feb 2015 | Cresce a tendência das propagandas “feministas†. A luta passou das ruas para as mídias? Avanço ou domesticação?   |   comentários

Cresce a tendência das propagandas “feministas†. A luta passou das ruas para as mídias? Avanço ou domesticação?

Os modestos avanços em matéria de direitos (modestos por causa dos seus alcances e pela sua “evolução†absurdamente lenta) se misturam com as marcas mais cruas da sociedade patriarcal, como os feminicídios e os estupros, cujos índices não caem. Se não fosse trágico, poderíamos dizer que é irônico.

Dentro desse contexto, os meios de comunicação se transformaram em um “campo de batalha†do feminismo do lobby parlamentarista, aquele feminismo que se conforma com “alguns direitos para algumas mulheres, porque é melhor do que nada†. Colocar dessa forma pode soar duro demais, mas ao celebrar pequenas concessões, se deixa de lado, simultaneamente, as demandas urgentes e profundas da maioria da metade do mundo. Só para citar algumas temos como exemplo a super-representação feminina nos empregos precários, nas taxas de pobreza; e a diferença entre a vida e a morte que significa a penalização do aborto.

O reduto desta “batalha cultural†encontrou lugar numa tendência publicitária chamada “fempowement†(em português “empoderamento feminino†). Algumas empresas como a Dove e a Always escolheram essa estratégia para vender seus produtos, já que os estereótipos já não vendem como antes. E ainda que persistam imagens da “dona de casa†e da “mãe dedicada†, as empresas agora devem se dirigir a uma nova geração de mulheres que trabalham fora de casa, que ocupam postos de trabalho importantes, que lideram organizações e que, sobretudo, representam um importantíssimo setor do consumo.

Mas se tantas ideias feministas são visíveis nos meios de comunicação, não podemos dizer que foram superados os prejuízos machistas e as imagens sexistas? Em parte se poderia, mas é impossível separar essas “conquistas†das lutas que as mulheres vem dado durante décadas, e é ingênuo pensar que o capitalismo não se apropria, da sua própria maneira, de parte dessas ideias.

Essa apropriação não é inofensiva ou desinteressada. Se constrói uma imagem de mulher que se diferencia da dona de casa dos anos 50 (presa ao lar e àfamília), mas a mulher da publicidade continua sendo branca, ocidental, heterossexual e com certeza da classe média.

A diferença se dá no fato de que a antiga dona de casa comprava um forno que faria o seu marido feliz, e hoje a mulher moderna dança em um supermercado, enquanto compra o iogurte adequado e canta “no me gusta cobrar menos†(referência a um comercial de iogurte na Argentina). Essa mulher moderna também não é qualquer mulher. Nada tem a ver, por exemplo, com as trabalhadoras precarizadas que são, contraditoriamente, as principais destinatárias dos produtos para o lar, das fraldas e dos alimentos. As imagens de suas vidas continuam sendo invisíveis.

As meninas já não brincam de mãe; agora correm e jogam “como uma garota†(Always), sonham em ser cientistas (Verizon) e já não estão mais condenadas aos brinquedos cor-de-rosa (https://www.youtube.com/watch?v=9RC5A9txqSE&feature=youtu.be) . Essas meninas também não são quaisquer meninas. Não são as meninas que em todo o mundo engrossam as fileiras da pobreza, que terão seus sonhos frustrados porque não chegarão a terminar o ensino fundamental; ou as meninas que passam grandes jornadas cuidando de seus irmãos ou irmãs e realizando os trabalhos domésticos que suas mães trabalhadoras não podem fazer.

As propagandas “feministas†dizem: Ser mulher não é ruim nem inferior, ou ser mulher é muitas coisas. E essa pode ser uma mensagem “valiosa†para milhares de telespectadores, mas não combate a misoginia nem o machismo e é absolutamente insuficiente. O que tem a ver um iogurte com dois séculos de lutas femininas? Pouco e nada. Mas essa “batalha cultural†, esse feminismo de “melhor que nada†justamente acaba por tratar-se de transformar a luta e a crítica numa agenda “razoável†e aceitável para esta sociedade (que antes combatia). Fica o mais longe possível de qualquer rastro radical ou revulsivo daquelas lutas que conquistaram direitos fundamentais.

Não é um resultado lógico nem um destino inevitável. Para o feminismo da primeira onda (começo do século XX) não existia divisão entre os direitos políticos e sociais das mulheres. Isso levou as alas esquerdas do sufragismo a confluir com as lutas das trabalhadoras. Temos vários exemplos: nos Estados Unidos, as sufragistas sustentaram com seus aportes a greve das operárias têxtis de Nova Iorque em 1909; na Inglaterra, a ala radical do sufragismo rechaçou os “direitos para servir†(na Primeira Guerra Mundial) e uniu a sua luta às trabalhadoras; na Argentina, sufragistas como Julieta Lanteria colaboraram diretamente com as gráficas e lavadeiras na primeira década de 1900.

Para o feminismo da segunda onda (décadas de 1960 e 1970), a luta contra o patriarcado se unia de maneira natural ao questionamento do capitalismo, e essa não era uma visão marginal. No entanto, uma grande parte se converteu no feminismo tecnocrata, no ritmo da restauração burguesa e se acomodou nos departamentos e agências governamentais.

À medida em que esses setores abandonavam as ruas, e que a perspectiva anticapitalista (acabar com o capitalismo para conseguir acabar com o patriarcado), as classes dominantes souberam se apropriar dessas ideias e as domesticaram. Assim se trocou a emancipação pela inclusão, a tolerância pela liberdade e a liberdade feminina pelo feminismo “mastigável†.  

A ideia mais perigosa deste feminismo é aceitar o estado atual das coisas, as concessões mínimas e condicionadas, os direitos limitados apenas para algumas mulheres, e acreditar que cedendo de pouco em pouco chegará o momento em que reconhecerão todos os nossos direitos. Não é por sermos estraga prazeres, mas o patriarcado sobrevive há séculos, já se adaptou a várias novas condições e a sociedade capitalista só colaborou em perpetuar o seu domínio. Não é agora, em 2015, que ele vai começar a nos fazer favores.

A luta pelos direitos das mulheres, o combate contra o machismo, a emancipação feminina, nada disso esta fora de moda. O que é verdadeiramente anacrônico é o feminismo que se conforma e se acomoda, o feminismo mastigável.

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