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ELEIÇÕES RIO 2012

FREIXO: representa uma nova cidade ou uma velha utopia de humanizar o capitalismo?

14 Aug 2012   |   comentários

A mais chamativa candidatura da esquerda antigovernista em todo o país é a de Marcelo Freixo, do PSOL, no Rio de Janeiro (a candidatura de Edmilson do mesmo PSOL em Belém do Pará, conta com o PCdoB como vice), por isto dedicaremos uma maior atenção àmesma. A crítica neste artigo pretende ser um primeiro debate sobre esta candidatura que continuaremos em outra oportunidade.

Em torno da candidatura do deputado estadual, famoso por suas declarações contra as milícias e seu papel na CPI das Milícias que cassou alguns deputados e ainda por seu papel no filme Tropa de Elite 2, diversos artistas tem se agrupado em sua campanha (Chico Buarque, Caetano Veloso, Mano Brown, entre outros). Junto com os artistas uma parte relevante da juventude, sobretudo universitária, tem aderido a sua campanha, sobretudo nas redes sociais. Em torno de sua figura e a partir de seu discurso na televisão e de vídeos na Internet, se concentra uma esperança de uma cidade humanizada (sem remoções, sem espancamento de camelôs e usuários de drogas) e menos corrupta (revisão dos mais flagrantes contratos da dupla Paes-Cabral com as empreiteiras, como a Delta) e mais que nada uma esperança de enfrentar o problema da violência urbana com um foco menos militar.

Todas estas questões e sensibilidades que se expressam em seu programa e aproximam a juventude de sua campanha, mostram em forma mais acabada os traços diferenciados e nacionais das mudanças que estão acontecendo, inicialmente, na juventude, e é também parte do rejuvenescer internacional de reformismos (Syriza na Grécia, Frente de Esquerda na França). São estes fenômenos importantes, mas não são uma alternativa real para a classe trabalhadora e a juventude, distam de ser alternativas anti-capitalistas. Não há, no caso de Freixo, em todo seu extenso programa de governo, um subtópico sequer da necessidade de mobilização dos trabalhadores e da juventude (nem o mesmo aparece dentro de nenhum subtópico de áreas de governo), não há uma crítica àraiz dos problemas – a superexploração capitalista a serviço de uma minoria parasita, como os Eike Batista – mas somente a como tornar tudo mais “humano†e “participativo†.

Frente ao tratamento militar da violência urbana ele propõe UPPs sociais (mantendo as UPPs e acrescentando algo); frente àpolítica de repressão aos camelôs propõe uma Guarda Civil que esteja focada em garantia de direitos (mas os direitos são contraditórios, o camelô tem direito de sobreviver dignamente, o comerciante e o especulador imobiliário têm cem mil argumentos constitucionais de também querer vê-lo longe de sua propriedade...). Critica diversos aspectos elitistas das Olímpiadas, mas não toca na privatização e militarização da cidade que os distintos governos estão criando; critica-se como o projeto de transporte é “rodoviarista†para propor metrô e não propõe nenhum projeto de transportes efetivamente controlado pelos trabalhadores e a população para garantir os interesses de toda a população, da segurança nas operações. Em suma, menciona diversas mazelas que aflingem os trabalhadores, a juventude, e mesmo o conjunto da população no Rio, para propor uma ou outra melhoria tópica que não enfrenta a raiz do problema. Uma tentativa de humanizar o capitalismo que passa ao largo de expor aos trabalhadores e àjuventude a necessidade de se organizar de maneira indepentente das várias frações burguesas para garantir direitos elementares como moradia digna (expropriando imóveis vazios, o que resolveria parte expressiva do déficit habitacional), trabalho seguro e não precário (não há sequer uma linha sobre trabalho em seu programa), educação e saúde para todos etc.

E como não poderia deixar de ser, estas não-menções programáticas só poderiam estar acompanhadas de uma não-menção dos graves problemas que estamos àbeira de enfrentar no Rio. Não parece que daqui a alguns meses estarão em vigor leis de exceção que limitarão a liberdade de expressão e organização para supostamente garantir a segurança na Copa das Confederações, e depois no outro ano para a Copa do Mundo, dois anos depois para as Olimpíadas... que o boom imobiliário de obras para a Copa e Olímpiadas vai acabar fazendo a hoje inflacionada economia do Rio enfrentar uma aguda recessão passados os jogos, desemprego massivo das centenas de milhares de trabalhadores que estão na construção civil.... isto tudo se a crise capitalista mundial não afetar antes esta bolha elitista que está sendo construída apoiada no trabalho precário e inseguro.

Os grandes passos midiáticos e mesmo nas urnas que sua candidatura está dando não estão a serviço de um questionamento profundo do que está acontecendo na cidade, de colocar a classe trabalhadora e a juventude em uma perspectiva independente de distintos grupos patronais (mas sim para humanizá-los). Portanto, ao contrário de contribuir para organizar os trabalhadores e a juventude para enfrentar os grandes desafios que a crise capitalista e mesmos os grandes eventos no Rio colocarão, sua candidatura confunde e não esclarece as perspectivas a adotar, a organização independente a ter.

A candidatura Freixo parece uma grande novidade, mas seu discurso é “velho†, já que a “humanização do capitalismo†, retoma velhas experiências de séculos atrás e que mais recentemente remonta aos anos 2000 (com seus fóruns sociais, autonomismo, reformismo que fez surgir um Foro de São Paulo que hoje representa todos os governos da região). O que a realidade de hoje impõe é completamente diferente deste reformismo, pois depois da crise capitalista histórica aberta em 2007 e a quebra do Lehman Brothers (2008), diante da escancarada recessão europeia e o fim da reativação econômica norte-americana, o que está em “debate†em amplos setores é o próprio capitalismo, abrindo caminhos para o programa, as táticas e a estratégia socialista – anticapitalista e antiimperialista – tudo que não existe na candidatura de Freixo.

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