Cultura

Estética e a Revolução cultural permanente

07 Feb 2015   |   comentários

O conceito de Revolução permanente enquanto aspecto central do trotskismo, está longe de restringir-se aos âmbitos político e militar. Tais dimensões não se separam de uma radical transformação do modo de vida, em especial das formas de percepção da classe operária. A questão estética surge na Revolução permanente não enquanto filha bastarda ou ferramenta submetida aos interesses políticos imediatos de uma (...)

Sob o impacto do debate estético que tomei parte junto a alguns preciosos camaradas, escrevia eu há cerca de um ano : “O conceito de Revolução permanente enquanto aspecto central do trotskismo, está longe de restringir-se aos âmbitos político e militar. Tais dimensões não se separam de uma radical transformação do modo de vida, em especial das formas de percepção da classe operária. A questão estética surge na Revolução permanente não enquanto filha bastarda ou ferramenta submetida aos interesses políticos imediatos de uma burocracia. Na visão trotskista a arte é, pelas suas próprias leis, um fator decisivo na consolidação das mudanças culturais que expressam mundialmente a luta de classes “. O fato de ainda pensar da mesma maneira e portanto sustentar uma posição política definida no campo da arte, não se deve a um mero capricho intelectual, mas a uma evidência histórica que obriga todo e qualquer autor de esquerda, a ser um trabalhador da cultura.

Os trabalhadores revolucionários da cultura, que não admitem privilégios e concessões com a burguesia, estão empenhados num importante combate contra a cultura dominante e as deformações políticas/culturais da esquerda nacionalista.Se um esteta comprometido com a ordem capitalista não se questiona sobre o caráter irremediavelmente político da experiência artística, um burocrata orientado pela esquerda nacionalista, tende a minimizar os efeitos estéticos mais transgressores para conformar a arte numa mera condição “ folclórica “. Neste sentido, quem pensa e produz arte sem cochilar na estrada da História, sabe que a própria criação artística exprime um profundo desejo de ruptura com os limites geográficos, econômicos e culturais. Seu lugar não é entre os parasitas mas dentro do proletariado.

Gostaria de iniciar minha pequena colaboração com este veículo verdadeiramente revolucionário(e é importante que tenhamos uma compreensão exata do termo revolucionário, atuando assim sobre o debate enraizado na irrefutável existência da luta de classes) com algumas questões estéticas, que podem contribuir decisivamente para a construção de um processo político emancipador. Tais questões, que colocam em foco as relações históricas entre arte e Revolução permanente, encontram-se lamentavelmente subordinadas (nacionalmente e internacionalmente) a militantes e organizações de esquerda que concebem a criação artística apenas enquanto espécie de parêntesis da luta política. Cientes de que a produção artística não é um mero detalhe superestrutural, afinal ela age diretamente sobre a percepção humana e portanto sobre os acontecimentos políticos, devemos resgatar suas implicações revolucionárias numa perspectiva que a difere do tratamento dado pela esquerda nacionalista.

O isolamento político e econômico de processos revolucionários nacionalistas que encontraram seus modelos históricos em acontecimentos como a Revolução chinesa de 1949 e a Revolução cubana de 1959, não tardou em comprometer a criação de uma cultura revolucionária. Tanto no caso chinês quanto no cubano, nota-se a edificação de Estados operários deformados. O que constatamos é que perante burocracias autoritárias, o trabalho artístico é sufocado tanto pelas limitações do nacionalismo quanto pelo controle policialesco. Distante da adaptação stalinista campesina intitulada maoísmo, a China dos nossos dias vive em decorrência destes erros políticos históricos, uma realidade esquizofrênica em que o Partido Comunista Chinês governa um país movido por relações capitalistas de produção. Sob o ponto de vista cultural, mudou-se muito pouco em relação aos anos do maoísmo: artistas chineses como Ai Weiwei vivem sendo vigiados pelas autoridades, enquanto que a teoria estética de líderes como Xi Jinping , acena na direção do realismo socialista. Paralelamente, a opinião pública internacional orientada pelo liberalismo, deita e rola esculhambando estes resquícios da guerra fria. Cuba ,que recentemente subordinou-se a um acordo com os EUA, também exprime no plano da cultura os erros do chamado socialismo real: o caso da repressão envolvendo a artista Tânia Bruguera no final do ano passado, só confirma a exemplo da China, a existência de uma burocracia inspirada no stalinismo e atualmente encurralada pela pressão capitalista internacional.

Algum leitor que reivindica o “ marxismo-leninismo “, poderia fazer crer que pretendo expor de modo sectário a defesa de uma suposta “ arte trotskista “. Isto não apenas soaria ridículo mas altamente paradoxal, já que no terreno da arte Trotski nunca defendeu um único modelo estético, mas uma compreensão marxista da arte que a respeita em sua lógica interna: deste modo a dimensão cultural da Revolução permanente, não advoga por uma imaginária “ Estética marxista “, como sonham lukacsianos e zdanovistas(estes últimos vivem escondidos no armário). O trotskismo almeja a arte revolucionária em sua verdade plural e em sua histórica exigência por independência. Deste modo o artista revolucionário não cumpre burocraticamente a execução de uma receita de bolo, mas plasma segundo suas exigências interiores, formas artísticas nascidas em uma realidade cultural particular. Ao mesmo tempo, tal procedimento criador não se furta em assimilar influências estéticas estrangeiras na elaboração de uma arte que é o correlato cultural do permanentismo: é o permanente estado de revolta contra a ordem estabelecida, que impede o equilíbrio social, a estabilidade dos costumes, revelando artisticamente(seja através da denúncia social, seja através da transgressão dos valores instituídos pela burguesia) a necessidade de superação histórica da sociedade capitalista. Cabe salientar que o artista revolucionário não é necessariamente trotskista, sendo que entre artistas anarquistas e adeptos de outras correntes anticapitalistas, encontramos exemplos fecundos de contestação social.

A luta política revolucionária(que inicia-se nacionalmente, projeta-se internacionalmente e finalmente em escala mundial) faz com que o proletariado necessite de uma orientação cultural compatível com o internacionalismo. É preciso vislumbrar dentro das inúmeras correntes artísticas, que inclusive divergem no plano estético mas optam politicamente pela classe operária, a existência de um movimento desigual e combinado: os diferentes componentes nacionais e internacionais complementam-se neste movimento que constrói formas de oposição artística. Perante o horizonte oco das escolas filosóficas intituladas “ pós modernas “, que não conseguem mais esconder sua missão reacionária, a crítica marxista precisa se impor no terreno estético não para erigir um modelo artístico invariável, mas para revolver todo o terreno e influenciar o pensamento político dos artistas.

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