São Paulo

Entrevista com Fábio Roberto, o motorista que levou um caminhão-pipa ao bairro Jardim Novo Pantanal

31 Oct 2014 | O site Palavra Operária entrevistou por telefone o motorista Fábio Roberto Santos que estampou manchetes de vários jornais esta semana por ter “fugido†do trabalho para levar um caminhão-pipa para o bairro Jardim Novo Pantanal, na Zona Sul de São Paulo, que estava há 4 dias sem água.   |   comentários

O site Palavra Operária entrevistou por telefone o motorista Fábio Roberto Santos que estampou manchetes de vários jornais esta semana por ter “fugido†do trabalho para levar um caminhão-pipa para o bairro Jardim Novo Pantanal, na Zona Sul de São Paulo, que estava há 4 dias sem água.

Palavra Operária: Fábio, vimos em todos os jornais a repercussão de sua atitude . O que te motivou?

A falta de água já durava 4 dias. Na minha casa eu poderia simplesmente pegar galões e encher pra minha família no porta malas do carro. Mas a ideia era justamente pra dar água pra mais algumas pessoas. Sempre tem muita criança na rua e participamos bastante da vida delas. O que me motivou foi isso e então decidi trazer o caminhão e acabou aparecendo muita gente. Moro neste bairro há 20 anos. Sempre que fica quente falta água, mas é uma questão de 12 horas, não passa disso. Nos últimos meses até demorou pra faltar água aqui, mas na sexta-feira começou a faltar água. Domingo foi dia das crianças e fizemos uma brincadeira, temos um amigo que banca do próprio bolso vários brinquedos, é um dia muito movimentado. Esperávamos que voltasse a água no domingo ànoite, mas não voltou, e depois na segunda-feira nada. Voltei do trabalho na segunda ànoite e nada de água. A situação estava bem difícil. As pessoas comprando água de galão sem ter dinheiro, tirando dinheiro de outras despesas pra poder comprar água. Falei pra minha mãe: “se ate amanha não voltar, vou dar jeito de trazer água†.

Palavra Operária: E como aconteceu tudo?

Não avisei muita gente, comentei com dois vizinhos. Na manhã da terça quando eu cheguei pra trabalhar eu acelerei procedimentos de trabalho e fui até a estação de bombeamento. Enchi um caminhão, não avisei a empresa e toquei o caminhão pra comunidade. Cheguei, acenei e confirmei que era água, antes de estacionar já tinha 15 pessoas, quando terminei a manobra pra poder abrir a vazão da água já tinha 50 pessoas. Organizamos uma fila pra organizar todos e distribuímos, durou mais de 3 horas essa distribuição. 800 pessoas levaram água pra casa. Fiquei mais de três horas fora da empresa e voltei pra estação de bombeamento para repor a água, pagando do meu bolso o que eu havia levado pra comunidade. Quando cheguei na empresa contei a verdade e mostrei as notas do pagamento que eu fiz. Se eu avisasse a empresa antes o mais provável era que não deixassem. E mesmo que deixassem o mais provável era que me liberassem em outro dia e em outra hora, mas as pessoas precisavam da água imediatamente, não dava pra esperar.

Palavra Operária: Você acha que os trabalhadores podem se organizar, como você fez, para enfrentar a crise da água em São Paulo?

Sem dúvida, todos nós somos trabalhadores e também a sociedade tem muita coisa pra fazer. Acho que organizar no sentido de consumir água da maneira racional. Orientar as empresas onde a gente trabalha economizando água, no bairro que a gente mora, reciclar lixo. As pessoas não fazem relação da crise da água com a reciclagem do lixo, mas tem muito a ver. A crise tá muito feia e organizando com certeza não vai resolver o problema de uma vez, mas no mínimo vai dar uma aliviada na crise da água.

Palavra Operária: Muita gente tem falado que o problema da água são as chuvas, mas sabemos que a sede de lucro dos empresários também é grande. Você acha que seria possível tornar a Sabesp e todas empresas de água como estatais, e que sejam controladas pelos trabalhadores e usuários?

Às vezes tenho pé atrás com estatizar principalmente por causa do governo, mas em particular a Sabesp que é um serviço básico eu acredito que ela deveria ser uma empresa estatal. Obter lucro na bolsa de Nova Iorque pelo consumo de água em São Paulo está totalmente fora do contexto. O valor cobrado tem que ser pra manter o serviço mínimo, pra poder existir. Soube que o sistema Cantareira é o mais utilizado porque é o que tem a água mais limpa, e portanto é o que precisa de menos recursos e que, ao mesmo tempo, é o que gera mais lucros. Foi isso que me fez mudar de ideia e achar que a Sabesp teria que ser estatizada, não pode dar lucro, e os trabalhadores tem que fiscalizar tudo.

Palavra Operária: Você também relatou para a imprensa que teve uma forte depressão e após ler grandes pensadores “conheceu o sofrimento do mundo†. Qual recado você gostaria de dar para trabalhadores de todo o país e do mundo?

O recado que eu dou é que acima de tudo a gente tem que ter muita fé – independente da crença de cada um - e um país forte só se dá através da mão dos trabalhadores. Eu mesmo só pude me reerguer tendo bastante fé, acreditando que eu conseguiria me levantar, fazer o bem, melhorar o ambiente onde eu trabalho. Um trabalho com qualidade que você possa ter tempo pra sua família é muito importante, não podemos ser escravos do trabalho.

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