Questão negra

LUTA NEGRA

Entrevista com Erica Huggins: do legado dos Panteras Negras às necessidades atuais de organização do movimento negro e dos trabalhadores

25 Sep 2013   |   comentários

Todos os lugares por onde Erica Huggins passou esta foi buscada por centenas de jovens negros. Jamais pensei que o Partido dos Panteras Negras Pela Autodefesa pudessem ser uma referência tão disseminada.

Para entrevistar Erica Huggins me encaminho para São Bernardo do Campo. Para chegar lá, pego o busão da EMTU, caríssimo e de péssima qualidade. São uma hora e meia no aperto. Me ocorre um primeiro insight: para além de 3 homens, todos os usuários são negros. Todos pagam R$3,70 para se locomover entre São Paulo e ABC. Vejo esses trabalhadores entrarem no busão em todas as partes da cidade. Muitas mulheres negras vêm em grupos, parecem ser terceirizadas. Carregam em sacolinhas seus uniformes. Outras entram de pontos em frente a casarões da Zona Sul. Domésticas?

Cruzamos Taboão. Lojistas, faxineiras, professoras. Boa parte negras. Me lembro das marchas de Junho, de como foram fortemente questionados a qualidade e o valor do transporte público. O Brasil acordou, mas não todo ele. Milhões assistiram pela televisão os jovens que saíram às ruas, estes que se esqueceram de dizer: os negros são os mais atingidos pelo péssimo transporte, os mais explorados pelos impostos, pela corrupção, pelo roubo capitalista do dia-a-dia. Passamos pela Ford, Mercedez. Muitos operários subiram de lá. Eles montam carros valiosíssimos, dezenas todos os dias, mas são tão roubados pelo dono da fábrica que não conseguem comprá-los.

Cruzamos a ponte. Pelo menos metade eram negros. Não sei se estava muito influenciada pela leitura de Ferrez [1], mas o motorista disparava pela favela. Cada parada era de 5 segundos. Pedestre pisou com um só pé, o busão sai rasgando. Também não pega ninguém. Será que o medo do motorista é um medo real ou ele e as orientações da empresa estão por demais influenciadas pela repetição global em fotos e manchetes dos negros como violentos, assassinos, psicopatas? Nessas favelas desceram faxineiras, lojistas, operários da Ford e da Mercedez.

Chego na Methodista. Apesar das ruas serem lotadas de barraquinhas com trabalhadores negros, quando se cruza a catraca, a cor é branca. Dois jovens negros. Pergunto:

- Cêis estudam aqui?

- Sim, Sociais.

- Da hora. Teu prédio é esse aqui?

- Não, eu faço àdistância.

Embasbaquei.

- E porque cê tá aqui?

- Vim ver a mina dos Panteras.

Embasbaquei mais ainda. Todos os lugares por onde Erica Huggins passou esta foi buscada por centenas de jovens negros. Jamais pensei que o Partido dos Panteras Negras Pela Autodefesa [2] pudessem ser uma referência tão disseminada. Imaginem marchas de Junho com combate ao racismo? Será que esses jovens apareceriam? Imagine se nelas reivindicarmos o que houve de mais fantástico dessa que foi uma das mais importantes experiências políticas dos negros no último século?

Conversando com Erica, percebi várias dessas potências vivas. A reivindicação da existência do Partido, com seu conteúdo de Tribuna do Povo, ou seja, de espaço para denunciar e exigir os direitos dos mais pobres e oprimidos; a força de uma luta não só contra a violência policial, mas contra todas as violências advindas do racismo: a falta de escolas, o encarceramento em massa, a perseguição religiosa, a ditadura de beleza branca. Alguns aspectos mostram o quanto da política do passado se desenvolveu para posições que nós, trotskistas, não compartilhamos: a defesa do partido eleitoral, a defesa de Barack Obama que junto dela trás a ilusão e a confiança no Estado Burguês, sem perspectiva de classe ou da necessidade da Revolução Socialista [3]. Tais posições não impedem que aprendamos com a história de Erica, que apesar de toda a perseguição consciente do Estado Norte Americano, segue sua militância e a denúncia do racismo e do capitalismo.

Jornal Palavra Operária: Como os Panteras Negras chegaram ànecessidade de que fizessem parte de uma batalha de classe e não apenas um movimento negro?

Erica Huggins: Essa é uma ótima pergunta. Nós sabíamos que a escravidão não era apenas pegar gente de uma raça diferente e escraviza-la. Era um grande negócio, uma máquina de dinheiro. Foi esta a economia que trouxe os negros para os EUA e que construiu as fundações do país. Nós sempre soubemos que as pessoas não eram pobres porque queriam. A pobreza é o resultado de usar pessoas e seus recursos sem deixar a elas benefícios do seu trabalho. A existência dos pobres e da classe trabalhadora, de uma classe média e dos ricos, é intencional. Bobby Seale e Huey Newton que começaram o Partido sabiam que raça e classe andam juntas. E depois nós percebemos que raça, classe e gênero andam juntos. É por isso que nós fundamos uma organização que não era só sobre os negros, mas sobre todos os pobres com os negros.

JPO: Qual era a necessidade em ser um Partido ao invés de um Movimento?

EH: Nós fizemos um partido político em meio a uma sociedade em que existiam dois: o Republicano e o Democrata. Em um determinado momento colocamos pessoas para concorrer a cargos eleitorais. Era uma maneira de mostrar para o povo que todos podem se apoderar e controlar a política nacional. Daí vinha nosso slogan “Todo poder ao povo†. Num determinado momento, colocamos Eldridge Cleaver para presidente, Huey Newton para Congressista. Depois colocamos Bobby Seale para prefeito de Oakland, cidade da Califórnia onde o Partido foi fundado, e Rap Brown para o Conselho Municipal. Não era para ganharmos, isso era para as pessoas verem que é possível. Nós fizemos muitas coisas que eram para mostrar uma ideia. Assim como quando fizemos a marcha em Sacramento – Califórnia – com armas descarregadas para mostrar que tínhamos o direito de carregar armas para nossa autodefesa. Não era por drama, ainda que a mídia de massas tenha dramatizado. Era para educar as pessoas de que você não precisa estar sempre por baixo, com uma bota sobre o seu pescoço. Podemos nos autodeterminar, decidir nossos destinos.

JPO: No momento da existência do Partido Panteras Negras, surgiam muitas organizações operárias e movimentos sindicais, alguns exclusivamente de negros. Qual era a relação dos Panteras com esses setores?

EH: Era muito forte! Por curiosidade, um dos líderes dos Panteras Negras se tornou um líder sindical de um sindicato próximo ao que seria o de Portuários que vocês tem aqui. Muito operários negros entravam em lutas e conheciam os Panteras Negras e passavam a fazer parte do Partido. Nós tínhamos todo o tipo de coalizões. Tínhamos uma forte relação também com os outros movimentos por direitos humanos, como os movimentos de mulheres e os de homossexuais, e não só nos EUA, mas até no Brasil.

JPO: Sabemos aqui do Brasil que muitos Panteras ainda estão presos. Qual é a situação deles e quais as iniciativas em relação a esse problema?

EH: Hoje temos 31 militantes ainda presos. Fazemos muitas campanhas, coleta de fundos para defesa e etc. Não só para eles, porque são muitos também presos devido a outras mobilizações, do passado e atuais. Alguns que lutaram pelo direito das mulheres, dos homossexuais. Organizamos campanhas unificadas pela libertação de todos.

[1Escritor negro brasileiro, que usa como temática a realidade das periferias, da violência policial, do tráfico de drogas. Me refiro a conto presente no livro “Ninguém é inocente em SPâ€

[2Para ver a “Plataforma de 10 pontos†, a carta programática do Partido, acesse: http://www.ler-qi.org/Plataforma-de-10-pontos.

[3Por mais que os Panteras negras nunca defenderam a estratégia e o programa da Revolução Socialista, eram bastante influenciados por ideias revolucionárias como subproduto do choque entre seus métodos radicais e o reacionarismo da sociedade norte-americana.

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