Sábado 24 de Agosto de 2019

Movimento Operário

TRABALHADORES/AS DA UNESP SEGUEM EM GREVE

Entrevista com Ana, trabalhadora do campus de Marília

09 Jul 2010 | Os trabalhadores da Unesp deflagraram uma forte greve junto aos trabalhadores da USP e da Unicamp contra a quebra da isonomia salarial entre docentes e funcionários feita pelo Conselho de Reitores das universidades estaduais paulistas (CRUESP). Até o fechamento dessa edição, várias unidades mantém a greve enquanto o reitor da Unesp, Herman Voorwald, publica um ofício circular ameaçando com o corte de salários, seguindo o exemplo do seu irmão da USP, João Grandino Rodas. Entrevistamos Ana, funcionária da UNESP de Marília, para saber como esta a situação da greve na Unesp.   |   comentários

Jornal Palavra Operária: Como se desenvolveu a greve até agora?

Ana: Fomos surpreendidos no começo do ano pelo anúncio do CRUESP que concedia um reajuste de 6% somente aos docentes quebrando a tradicional isonomia entre servidores técnicos e docentes das três universidades estaduais paulistas. Este anúncio saiu como uma provocação pois essa medida aumenta ainda mais a diferença salarial entre funcionários e docentes. Este foi o estopim da greve.

JPO: Houve alguma conquista? Como você avalia a greve até agora?

Ana: Conseguimos avançar na pauta específica, mas no marco da campanha unificada dos funcionários da USP, UNESP e Unicamp, infelizmente não. Imperou a truculência do CRUESP comandada pelos interesses eleitorais de José Serra. As principais ações de truculências ficaram a cargo do Rodas, reitor da USP, que chegou a cortar os salários de muitos grevistas enquanto fazia uma permanente campanha de calúnia e difamação da greve dos trabalhadores e de seu sindicato, o Sintusp. Em segundo, pela presidência do Cruesp, o reitor da Unicamp que se negou a negociar com os trabalhadores. Os reitores da Unesp e Usp se diziam favoráveis a negociação e de conceder um reajuste aos trabalhadores e culpavam o da Unicamp pelo impasse, pura demagogia! Ou esses “magníficos†doutores faltaram as suas aulas de matemática ou realmente queriam nos fazer crer que num conselho com três, impera a vontade de um contra os outros dois? Curiosamente, quando chegou a hora da negociação específica, nem um dos dois concedeu até agora o que se diziam favoráveis ontem. O Herman, numa hipocrisia ainda maior, pois falava contra o corte de pontos do Rodas e agora segue os mesmos passos...

JPO: Já falamos do corte de pontos. Mas você considera que somente a intransigência dos reitores foi determinante para esse resultado? Não há debilidades do movimento?

Ana: Claro que há. Combinada a essa situação com os nossos patrões, dentro do movimento tivemos a ação criminosa da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU) que se colocou contra a ocupação da reitoria da Unicamp, e depois teve que se retratar depois em sua assembléia, mas atuou permanentemente pelo término da greve. E justo na universidade em que residia a presidência do Cruesp. É assim que atua a burocracia sindical ligada aos governistas do PCdoB, muito nos agrada a notícia de que se desenvolve uma oposição a esta camarilha.

JPO: E na Unesp como foi a atuação do Sintunesp até agora?

Ana: A atuação do Sintunesp deixou bastante a desejar, ainda que não possa de forma alguma compará-los aos pelegos do STU. Aqui em Marília tivemos alguns embates com a diretoria do sindicato antes da greve que conseguimos reverter nas assembléias como o rechaço dos trabalhadores a terceirização do restaurante universitário e algumas outras questões. Mas com o começo da greve, a diretoria do sindicato parece ter dado um giro a esquerda, acompanhando o movimento que acontecia na base dos trabalhadores. Até ai, ótimo. No entanto, num momento crucial da greve aqui quando os estudantes se colocaram ativamente ao nosso lado, ocuparam a direção da faculdade contra a terceirização do restaurante, o sindicato capitulou a uma manobra armada pela administração para não aprovar resoluções que aprofundassem a aliança que se desenvolvia com os estudantes e isolar a ocupação.

JPO: E como é essa relação com os estudantes?

Ana: O movimento estudantil da UNESP é bastante peculiar, ele vem se mostrando nos últimos anos o principal aliado dos trabalhadores em suas lutas. Na greve do ano passado, os estudantes daqui foram os primeiros a votar greve estudantil muito antes da entrada da polícia na USP. E nesse ano os estudantes daqui foram um exemplo para o movimento estudantil de todo o país. O Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CACS) construiu uma importante greve no seu curso que foi seguida pela Filosofia e deu um impulso a todos os outros cursos ocorrendo paralisações na Terapia Ocupacional, na Biblioteconomia e Arquivologia, mais de uma semana de paralisação na Pedagogia, culminando na ocupação da administração na assembléia geral dos estudantes, tendo dois eixos a mobilização: apoio a greve dos funcionários e contra a terceirização do restaurante. Nos atos os estudantes sempre marcaram presença, nos ajudaram a trancar o portão da universidade. Infelizmente, uma manobra da administração e a capitulação da diretoria do sindicato, impediu que aprofundássemos essa aliança. Mas os estudantes daqui percebem o que acontece, sabem que há muito assédio moral e que há muitos trabalhadores que apóiam suas ações mais radicalizadas.

JPO: Você acha que se os estudantes dos outros lugares fizessem como os daqui o resultado poderia ser diferente?

Ana: Com certeza! Mas em primeiro lugar responsabilizo as direções sindicais que não constroem uma aliança efetiva com os estudantes. Muitos dirigentes sindicais vêem os estudantes de forma muito utilitarista. Não é assim que eu encaro. Acho que essa aliança tem que ser construída dia a dia e não só na data-base chamando-os para nos apoiar. Mas também faz toda a diferença a existência de entidades estudantis como é o CACS daqui que defende em seu programa a aliança com os trabalhadores, não foi só com a gente, eles também atuaram bastante ativamente em apoio aos professores da rede, indo às suas assembléias, aos seus atos; também não foram indiferentes aos trabalhadores da USP contra os ataques ao seu sindicato. Infelizmente essa não é a realidade das entidades nas outras universidades.

JPO: Você disse que teve conquistas na pauta específica...

Ana: A principal foi uma reestruturação no plano de carreira, equiparamos os salários mais baixos da nossa universidade aos da USP e da Unicamp. Essa é uma reivindicação antiga nossa. Cerca de mil funcionários vão ser beneficiados com essa medida, dando um aumento real de mais de 300 reais em muitos casos, assim o menor salário hoje na universidade que é cerca de R$ 900,00 vai para R$1.200. Ainda não é o salário mínimo do DIEESE, mas já é uma conquista importante. Os outros casos, a reitoria encaminhou um ofício solicitando urgência no término do trabalho da reestruturação da carreira para igualar todos os salários ao da Usp e Unicamp. Houve ainda uma ou outra migalha e propostas de comissões.

JPO: E como fica a questão do corte de pontos?

Ana: Na quinta-feira (08 de julho), a reitoria soltou um comunicado dizendo que a greve suspende o contrato de trabalho e determina o registro de quem permanecer em greve. Para bom entendedor meia palavra basta. A reitoria quer intimidar assim nossa greve, seguindo o mesmo exemplo do Rodas e do Serra em relação aos professores da rede e ao judiciário. Mas isso mostra pra gente que não é só o Rodas que é um reitor-interventor, que o nosso reitor não é diferente, também está ali para ser mero ventrícolo das políticas do governo. Mostra também que não é uma ação só da nossa reitoria, é uma ação coordenada do Estado para restringir o direito de greve. E não é só do Serra e dos tucanos não. Nem o Lula escapa, recentemente ele soltou uma declaração falando que greve é isso mesmo, que tem corte de ponto. Isso mostra que as nossas próximas lutas vão ser muito mais duras que vamos ter que fazer como fizeram os trabalhadores da USP impondo o pagamento dos dias parados.

JPO: E o que você acha que é mais importante para a greve triunfar neste momento?

Ana: É muito importante seguir a aliança que se deu na greve até agora para cercar a greve de solidariedade. Nós, da LER-QI, vamos seguir colocando todas nossas forças para que triunfemos. Chamamos todas as entidades, organizações e correntes a fazerem o mesmo, assim como com a greve dos judiciários que está em curso.

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