Terça 25 de Junho de 2019

Movimento Operário

Entrevista: Mazé e Rocha, delegados de base SINTUSP/SP

15 May 2005 | Nessa edição especial do Jornal Palavra Operária, entrevistamos Mazé Cutinhola, uma das Coordenadoras do Conselho de Delegados de Base (CDB) do Sintusp e delegada mandatada em assembléia de base dos funcionários da USP para a Conlutas, e Rocha, também membro do CDB. Os entrevistados defendem o chamado do Encontro dos Trabalhadores da USP realizado em 31 de março e 1º de abril dirigido a todos os sindicatos e trabalhadores que hoje se colocam contra a reforma sindical-trabalhista do governo Lula para a criação de uma FRENTE ÚNICA DE TRABALHADORES.   |   comentários

Jornal Palavra Operária: Qual a atual situação da luta contra a reforma sindical-trabalhista do governo Lula?

Mazé: O projeto de reforma que foi enviado pelo governo ao parlamento é um brutal ataque àclasse trabalhadora. Limita o direito de greve e criminaliza os piquetes. Ataca os sindicatos, destruindo a autonomia sindical ao delegar ao Ministério do Trabalho e àcúpula das centrais o poder de decidir quem “representa†ou não cada categoria, podendo inclusive criar sindicatos paralelos. O que a cúpula das centrais decide passa a prevalecer sobre as assembléias e sindicatos de base, e o negociado pelas centrais passa a prevalecer sobre o legislado, o que na prática significa o início da reforma trabalhista que pretende acabar com direitos como FGTS, férias, 13o salário, licença maternidade etc.

Quando mais de 40% dos dirigentes sindicais da CUT passaram a se colocar contra a reforma, quando a CGT, a CGTB e sindicatos da Força Sindical também mudaram de posição, entramos numa nova fase da luta contra a reforma, bem mais fortalecida. Hoje, estes setores junto com a Conlutas estão conformado uma frente de todos os que se colocam contra a reforma sindical. Foi lançada a “FRENTE NACIONAL CONTRA ESTA REFORMA SINDICAL†, e em São Paulo foi organizado um 1o de Maio unitário de grande parte dos sindicatos e organizações operárias que estão contra a reforma sindical.

A partir de agora é necessário avançar ainda mais na unidade de luta contra a reforma sindical e colocar em movimento o conjunto dos trabalhadores brasileiros para que possamos barrar este ataque.

Jornal Palavra Operária: Qual a diferença entre essa frente que existe hoje e a FRENTE ÚNICA DE TRABALHADORES que os funcionários da USP aprovaram em seu encontro e que propõem a todos os sindicatos e trabalhadores que se colocam contra a reforma?

Mazé: Dentre os vários sindicatos da CUT, da CGT, da CGTB e da Força Sindical que hoje se colocam contra a reforma, os setores que têm maior peso político, como os dirigentes sindicais da Corrente Sindical Classista (PCdoB), das correntes da esquerda do PT e de partidos burgueses como PMDB, PDT e PTB, estão atrelados por mil e um laços ao governo Lula e àpatronal. Esses setores não querem de fato derrubar a reforma sindical. O que eles querem é pressionar o Congresso pela aprovação de uma reforma “light†, que preserve seus interesses de burocratas que estão ameaçados pela reforma. O próprio PCdoB diz que “devemos lutar contra esta reforma, mas para isso não podemos deixar de apoiar o governo†.

Essa frente é um primeiro passo muito importante, mas ela é insuficiente por dois motivos. E primeiro lugar, porque quem toma todas as decisões nela são os sindicalistas em suas reuniões em Brasília enquanto os trabalhadores das bases dos sindicatos nada decidem e nem mesmo são consultados. Para nós do Sintusp, as coisas não podem continuar assim, pois dessa forma a chance de sermos derrotados é muito maior. Outro motivo é que os sindicalistas governistas que dirigem essa frente impõem um plano de lutas restrito a ações no Congresso Nacional e quando muito a marchas em Brasília, sempre com o objetivo de pressionar os parlamentares para a aprovação de sua reforma “light†, enquanto que a nossa proposta é para organizar um verdadeiro plano de lutas, que paralise a produção e, através dos métodos de luta próprios da classe trabalhadora, derrote o conjunto da reforma sindical.

Rocha: Em primeiro lugar, é necessário deixar bem claro que quanto maior for o número de sindicatos que se coloquem contra a reforma sindical, mais fortalecida estará nossa luta. Se os ataque dos capitalistas com a reforma sindical obriga setores governistas e pró-burgueses, por um motivo ou outro a darem alguns tímidos passos na luta contra a reforma sindical, devemos exigir que sejam conseqüentes e tomem as medidas necessárias para organizar a luta, alertando os trabalhadores de todos os limites dessas direções e do caráter circunstancial da nossa unidade com estes setores para combater os ataques da burguesia, pois sabemos que cedo ou tarde eles abandonarão a luta em troca de migalhas e cargos.

Para nós, uma luta conseqüente contra a reforma sindical deve partir de algumas medidas básicas para a organização dos trabalhadores. Devemos exigir que todos os sindicatos que se colocam contra a reforma sindical mobilizem suas bases e coloquem seus trabalhadores como os principais sujeitos que devem decidir os rumos da luta contra a reforma sindical, através de reuniões por local de trabalho, assembléias, comícios nas portas de fábrica, piquetes, greves, ocupações e todos os métodos próprios da classe operária que são os únicos de fato capazes de derrotar a reforma sindical.

Devemos lutar para que, como parte desse processo, seja organizado um Encontro Nacional de todos os sindicatos que se colocam contra a reforma. Um Encontro composto por delegados eleitos nas assembléias em cada local de trabalho, que defendam as propostas aprovadas nas suas assembléias e nas reuniões por local de trabalho.

Devemos exigir essas tarefas de todos os dirigentes que se colocam contra a reforma sindical, e devemos agitar essa exigência na base dos sindicatos dirigidos pelas correntes governistas e oportunistas como única forma de concretizar estas medidas e de desmascarar perante os trabalhadores todos os que se negarem a fazê-lo.

O caráter essencial que marca a FRENTE ÚNICA que defendemos é que ela não pode ser um bloco onde todas as decisões estejam nas mãos de dirigentes sindicais oportunistas, deixando de fora nós que somos os verdadeiros interessados na luta para barrar este ataque. A FRENTE ÚNICA que defendemos está a serviço de mobilizar e unificar as fileiras da classe para impor o peso social dos trabalhadores derrotando os planos do governo e da patronal!

Jornal Palavra Operária: Nos sindicatos que se colocam hoje contra a reforma sindical, o maior peso político é de dirigentes que não estão organizando a luta de maneira conseqüente. Nessa situação, vocês acham que é possível concretizar o chamado do Sintusp?

Mazé: Sim. Mas para isso é urgente que todos os sindicatos que hoje se colocam claramente contra o governo Lula se unifiquem num pólo nacional classista, antigovernista e antiburocrático. Um Pólo que reúna os setores mais conscientes e mais conseqüentes que se colocam em luta contra os ataques do governo. É a partir deste pólo que poderemos defender em todos os sindicatos do país as propostas de organização da luta e denunciar os governistas e oportunistas a cada vacilação e passo atrás que estes dêem e, dessa maneira, lutar pela direção dessa frente que existe hoje, combatendo a política da Corrente Sindical Classista (PCdoB) e dos demais setores governistas e pró-burgueses que irão querer parar a luta na metade do caminho e garantido que seja levada até o fim a luta contra a reforma sindical.

O Sintusp hoje faz parte da Conlutas que é uma ferramenta indispensável para concretizar um pólo como este. Porém infelizmente a política do PSTU de ruptura com a CUT, por um lado, e de acordos de cúpula na “FRENTE NACIONAL CONTRA ESTA REFORMA SINDICAL†por outro, impede que os sindicatos mais combativos do país, que estão reunidos na Conlutas, possam cumprir o papel fundamental que poderiam estar cumprindo. Mais do que nunca é necessário atuar na base dos sindicatos da CUT, para aprofundar a crise que a orientação governista de Marinho e da direção majoritária desta central está provocando. Com uma política que denuncie ponto a ponto esta reforma que ataca os trabalhadores, exigindo medidas concretas para organizar a luta contra a reforma sindical e exigindo a ruptura da CUT e dos seus sindicatos com o governo Lula e com o PT. Assim será possível acelerar a experiência de amplos setores da classe operária com a sua atual direção, retomar os sindicatos das mãos do governo e, a partir dos métodos de luta da nossa classe, como manifestações de massa, greves e piquetes, derrotar o conjunto desta reforma patronal.

Artigos relacionados: Movimento Operário









  • Não há comentários para este artigo