Domingo 16 de Junho de 2019

Nacional

Em nome da autonomia sindical esconde-se o oportunismo

05 May 2006   |   comentários

A experiência concreta de trabalhadores, sindicatos e organizações com o governo Lula e a CUT tem feito ressurgir debates fundamentais sobre a atuação dos revolucionários nos sindicatos. Durante estas últimas décadas os reformistas da CUT moldaram a consciência de milhões de trabalhadores, levando a que as concepções burguesas, anti-marxistas, do sindicalismo imperassem entre as mentes e corações de honestos lutadores que hoje rompem com esta direção conciliadora e traidora. Infelizmente, durante todo esse período as correntes que se consideram marxistas e revolucionárias se deixaram levar pela tormenta oportunista do sindicalismo, fazendo com que as tradições marxistas revolucionárias para os sindicatos se tornassem extremamente minoritárias e quase inexistentes. Agora, quando milhares de delegados se encontrarão no Conat para decidir sobre qual o programa e a estratégia que esta vanguarda tomará em suas mãos para armar-se como uma nova direção capaz de aproveitar um próximo ascenso e não deixar escapar mais uma oportunidade para a luta revolucionária da classe trabalhadora, temas centrais como “autonomia†e “independência†sindical voltam àtona. Como não podia ser de outra maneira, as idéias que hegemonizam são as do sindicalismo oportunista. Neste artigo pretendemos aportar algo para que as concepções marxistas revolucionárias comecem a ser retomadas em contraponto àherança oportunista-sindicalista da história do movimento operário das últimas décadas.

A independência da classe trabalhadora perante a burguesia, seu Estado e suas instituições tem um conteúdo político, ou seja, uma ação política ativa ordenada por programa, táticas e organizações na defesa intransigente dos interesses dos trabalhadores e em combate aos interesses da burguesia, seu regime e seu Estado. Ao ver a independência de classe da CUT pelo prisma formal, as correntes de esquerda se negavam a ver o conteúdo conciliador da estratégia reformista da central, a verdadeira essência da dependência dela com o estado e a patronal. Com a eleição de Lula houve o salto, pois a forma veio a tona por seu conteúdo. A conciliação de classes, o atrelamento ao governo, os cargos em ministérios e órgãos do aparato estatal passaram ao primeiro plano, desmascarando o verdadeiro caráter da direção da CUT enquanto uma burocracia que busca, a partir de seu papel político nas organizações de massas, resolver seu problemas social, isto é, “ajeitar sua vida†, e para isso não vacila em passar de armas e bagagens para o lado da burguesia.

Não são poucas as correntes de esquerda que fazem da “autonomia e independência†sindical uma verdadeira panacéia, um remédio que eliminaria todos os males. Na realidade, por trás encontramos concepções sindicalistas, anti-marxistas, que escondem o caráter oportunista de inúmeros sindicalistas e diversas correntes políticas que reproduzem esta ideologia burguesa e, assim, desvirtuam a consciência política da vanguarda e dos trabalhadores da necessidade imperiosa de atuar nos sindicatos garantindo aos partidos políticos o direito de ganhar influência nos sindicatos e entre os trabalhadores, com o único critério que é saber em nome de que programa e com quais táticas estes partidos lutam.

A experiência tem demonstrado que o fetiche da “independência e autonomia sindical†é um manto com o qual os oportunistas de todo tipo se escondem para manter sua liderança nos sindicatos, evitando que mesmo a vanguarda possa controlá-los. “Está claro que quaisquer que sejam as condições da consigna abstrata de independência [sindical] nunca surgirá das massas. A burocracia sindical é outra coisa. Não apenas tem ciúmes da burocracia partidária como tende a se tornar independente também do controle da vanguarda do proletariado. A consigna de independência é, pelos próprios fundamentos, uma consigna burocrática e não de classe†e não há como negar que “os que, em princípio, contrapõem autonomia sindical àdireção do Partido Comunista estão contrapondo ’ queiram ou não ’ o setor proletário mais atrasado àvanguarda da classe operária, a luta pelas conquistas imediatas àluta pela completa libertação dos trabalhadores, o reformismo ao comunismo, o oportunismo ao marxismo revolucionário.â€

O cachimbo deixa a boca torta: o PSTU se deixou levar pela oportunismo

Hoje, quando se realiza o Conat (Congresso Nacional de Trabalhadores, da Conlutas), nos deparamos com as propostas apresentadas por dirigentes e sindicalistas do PSTU para os princípios e o estatuto da Conlutas. Queremos debatê-las porque nos parece que este partido, que como nós reivindica o trotskismo, renega as tradições marxistas revolucionárias na questão sindical. Em nossa opinião, isso ocorre porque a direção do PSTU tem um histórico de ecletismo teórico, assimilando posições reformistas e consolidando-as em sua prática política nestas duas décadas de atuação nos sindicatos e na CUT.

Como primeiro princípio, sobre a “independência de classe†, pode-se ler a frase de Marx em que afirma que “a libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores†e que a Conlutas deve “pautar-se pela mais completa independência política, financeira e administrativa em relação àburguesia, aos governos e ao Estado†.

O sindicalismo ’ reformistas, anarco-sindicalistas ’ historicamente contrabandeou as posições marxistas para esconder seu caráter oportunista e sua capitulação àideologia burguesa que enxerga a classe operária como objeto, ao contrário dos marxistas que compreendem a classe como sujeito.

Marx nunca quis, com essa frase, afirmar que a classe trabalhadora seja um fim em si mesmo, que por conta própria poderia chegar às conclusões históricas, estratégicas e programáticas. Para Marx, “a libertação dos trabalhadores†só poderá se efetivar quando estes se elevarem como sujeito político ’ classe em luta contra a classe inimiga. E para este objetivo estratégico não bastam os sindicatos e demais organizações, é imperiosa a construção de um partido distinto dos demais, um partido comunista. A história tratou de comprovar as idéias marxistas. Os grandiosos sindicatos, cooperativas e associações culturais alemães, que reuniam milhões de trabalhadores no início do século passado, de nada serviram para a luta revolucionária em todas as crises revolucionárias. E o partido socialista, por ser um partido oportunista e não revolucionário, não teve final mais digno. Aqui na América Latina, os gloriosos cordões industriais no Chile (em 1972) ou a COB em 1952 na Bolívia, deixaram tradições e ensinamentos que devemos tomar, porém não foram suficientes para aproveitar a situação revolucionária destes países. Nessas e em outras oportunidades a classe operária, apesar do seu heroísmo e firmeza, pagou caro por não ter conseguido construir partidos revolucionários que aproveitassem os ascensos e as crises revolucionárias.

Trotsky nos dá uma brilhante explicação contra a ideologia burguesa de classe-objeto que os oportunistas seguem para negar a necessidade de um partido revolucionário ou mesmo de qualquer direção política para a classe operária. Ele diz que “se o proletariado como classe [objeto] fosse capaz de compreender imediatamente sua tarefa histórica não seriam necessários nem o partido nem os sindicatos. A revolução teria nascido simultaneamente com o proletariado.†Ao contrário das idéias sindicalistas e reformistas, continua Trotsky, “o processo mediante o qual o proletariado compreende sua missão histórica é longo e penoso, e está marcado por contradições internas†. Esse processo penoso e longo exigirá prolongadas lutas, duras provas, muitas vacilações e uma ampla experiência concreta ’ onde os operários julgarão as propostas e ações dos partidos ’ na qual a vanguarda dos trabalhadores chegará àcompreensão de sua missão histórica ’ a revolução operária e socialista. Porque “é somente através de sua minoria com consciência de classe que a classe operária se converte em fator histórico†.

No Brasil, diante da experiência dos trabalhadores com o PT e a burocracia sindical, a vanguarda consciente tem como tarefa atuar nos sindicatos de maneira sistemática e profunda para conquistar a confiança dos milhões de trabalhadores e romper os laços que ainda os mantém presos àinfluência dos dirigentes sindicais reformistas e oportunistas. Isto só pode ser feito se esta vanguarda superar as concepções sindicalistas-oportunistas, atuando nos sindicatos para expulsar a burocracia sindical e construir um verdadeiro partido revolucionário que siga os exemplos deixados pelo Partido Bolchevique com sua atuação revolucionária nos sindicatos e nos sovietes, pavimentando o caminho para a libertação do proletariado como obra do próprio proletariado.

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