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CRÔNICA

Eles podem até dormir bem, mas não sonham

17 Mar 2015   |   comentários

Debate organizado pelo D.A. do Instituto de Geociências da UFMG, dia 11 de março, para o qual foram convidadas Flavia Vale, pelo Pão e Rosas e Maria da Consolação (Consola) pelo PSOL , na UFMG, sobre mulher, gênero e trabalho.

Num debate organizado pelo Diretório Acadêmico do Instituto de Geociências da UFMG, dia 11 de março, para o qual foram convidadas eu pelo Pão e Rosas e Maria da Consolação (Consola) pelo PSOL , na UFMG, sobre mulher, gênero e trabalho, uma trabalhadora terceirizada dava um jeito de participar, entre limpar o chão de uma e outra sala. O tema no momento era sobre dupla jornada de trabalho.

Ela então já estava sentada na roda, também descansando por ter que subir e descer escadas para participar da conversa o máximo que podia. Ela disse: "eu aprendi uma coisa semana passada: com dor a gente não dorme direito. E a gente tem que ver como passa a dor". E dizia isso apontando suas pernas, seus quadris, sua nuca e sua cabeça.

Com dor as mulheres não dormem. A dor de subir e descer escadas com o lixo do prédio. Há uma semana ela passou a usar o elevador do prédio, que antes não podia, tendo que subir e descer escadas. Com dor a gente não dorme. Em casa ainda iria preparar a comida da família.

Com dor a gente não dorme. E iria acordar de madrugada para arrumar a casa antes de sair para o trabalho. Com dor a gente não dorme. A dor que vem da energia perdida no trabalho. A dor de cabeça por tantas tarefas que a sociedade diz ser apenas de responsabilidade das mulheres.

A dor... Essa dor no espírito de ter nossas vidas e a de nossos companheiros usurpadas pelos capitalistas. A dor de ter nosso corpo violado nas idas ao trabalho de madrugada. Essa dor... Que não passa quando dormimos, apenas ameniza. E se colocamos o dedo na ferida sentimos a dor de outras mulheres. E vemos que nossa dor não é solitária, mas coletiva.

Um revolucionário, Trotsky, dizia que era preciso ver o mundo pelos olhos das mulheres. E para as mulheres, que já alteraram o curso dos acontecimentos quando indomáveis pelo patriarcado e capitalismo, a dor foi transformada em revolta social e até revoluções. E isso gerou pesadelo nos capitalistas. Eles até podem dormir bem. Mas não sonham.

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