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EGITO

Egito: um debate estratégico para a juventude

06 Sep 2013   |   comentários

A juventude brasileira, que simplesmente pôs fim ao ciclo de uma década de “passividade petista†no Brasil protagonizando mobilizações históricas em junho, corretamente volta seus olhos aos processos de massas que os antecederam, como agora no Egito.

A juventude brasileira, que simplesmente pôs fim ao ciclo de uma década de “passividade petista†no Brasil protagonizando mobilizações históricas em junho, corretamente volta seus olhos aos processos de massas que os antecederam, como agora no Egito. Debates importantes surgiram nos fóruns públicos de jovens sobre a “primavera árabe†desde 2011, que inspirou a saída às ruas da juventude “indignada†no Estado Espanhol e na Grécia, e despertou a politização daqueles que pela primeira vez entenderam que seu destino estava de alguma forma ligada ao destino do mundo.

Depois do golpe militar de 3 de julho que derrubou o governo Morsi, dos selvagens massacres, em que se calculam cerca de 1.000 mortos, na desocupação dos acampamentos de militantes da Irmandade Muçulmana (IM), somado àimposição do “estado de emergência†no país, a perseguição dos jovens trabalhadores e estudantes de esquerda que se mobilizam nas escolas e universidades, e àdetenção de dirigentes sindicais e operários da metalúrgica Suez Steel, mostram o quanto este governo tenta recompor a estabilidade da junta militar sobre o cadáver da primavera árabe. Isto porque o governo anterior, de Morsi, que manteve de pé todo o aparato repressivo da ditadura de Mubarak, que se arrogou poderes plenos, continuou a militarização das fábricas e universidades e tentou aplicar um plano neoliberal para remover os subsídios aos produtos de consumo básicos da população, não cumpriu o mandato do imperialismo de frear o processo revolucionário no Egito. Atingido em menos de um ano por 5844 greves, teve de retroceder dos ajustes econômicos frente mobilizações massivas nas ruas, e para que não caísse pela força da juventude com os trabalhadores, foi deposto com antecedência pelos generais.

Sem qualquer ilusão sobre o papel reacionário deste governo islâmico pupilo dos Estados Unidos e do Estado de Israel, deve ser uma reflexão marcante para nossa juventude este golpe preventivo do Exército – dono da economia egípcia e quer “ordem†em suas fábricas – que usurpou politicamente os frutos das mobilizações dos jovens egípcios, para que a queda de Morsi não significasse ao mesmo tempo um questionamento ao conjunto do regime militar. O discurso de “luta contra o terrorismo†e a necessidade de garantir a “segurança nacional†que levanta o governo militar para reprimir a Irmandade Muçulmana, é o mesmo utilizado contra as organizações operárias, e não deixa dúvidas sobre este governo profundamente reacionário que se aproveita do rechaço das massas egípcias ao governo islâmico para avançar num plano contrarrevolucionário mais amplo, que atinge todos os trabalhadores e os jovens egípcios.

Duas conclusões se impõem: 1) a brutal repressão contra os acampamentos da Irmandade Muçulmana foram, como declarou o Governo militar, uma tentativa de “terminar com uma situação anárquica no país†(nesta terminologia ambígua, refere-se muito antes ao processo revolucionário no Egito do que àIrmandade); 2) este golpe, junto com o estabelecimento do estado de sítio, constituem um precedente para atacar qualquer setor linha de frente que saia a lutar por suas reivindicações ou se enfrente politicamente com o Exército (como mostrou a greve metalúrgica em Suez).

Assim é que a incursão sangrenta do Exército aos acampamentos da Irmandade Muçulmana, em nome da restauração da ordem, e uma mensagem preventiva e disciplinadora frente a qualquer emergência de descontentamento. E o país não está destituído de auxílio internacional para tanto: após as tímidas manifestações de retirada de ajuda financeira em função dos massacres por parte dos EUA (maior financiador do exército egípcio, com 1.5 bilhão de dólares anuais) e da União Europeia (que investe 5 bilhões de euros no país), as reacionárias petromonarquias do Golfo, opositoras da Irmandade Muçulmana (como a Arábia Saudita, os Emirados à rabes Unidos e o Kuwait, agentes utilizados pelo imperialismo para frear a primavera árabe, como o exército saudita no Bahrein) anunciaram ajuda irrestrita ao Egito: 12 bilhões de dólares em empréstimos e garantias de envio gratuito de combustível (Arabia Saudita e Kuwait a entregaram o valor respectivo de 2 bilhões e 1 bilhão de dólares em petróleo e produtos energéticos, combinado a sete cargueiros de diesel e derivados do petróleo, no valor de 225 milhões de dólares pelos Emirados à rabes). Esse auxílio estende as margens de manobra dos generais egípcios, aplaca a profunda crise energética nacional e permite avançar em planos contingenciais que criem condições para congelar provisoriamente os protestos da imensa camada pobre da população egípcia (40% da população vive com dois dólares diários, numa taxa de 13.2% de desemprego e inflação alta), como o da construção de 100.000 moradias populares e 450.000 postos de trabalho na construção, orçando um crescimento de 3,5% do PIB para o final de 2014.

Levando em consideração apenas estes dados objetivos da situação, é possível aventar a hipótese de um período mais estendido de transição sob as mãos do Exército ate ao final de 2013 (ainda sem considerar as imposições da luta de classes), que não seriam obrigados a aplicar imediatamente os planos de ajuste do FMI (retirada dos subsídios aos produtos básicos) para receber 5 bilhões de dólares sob condições, uma vez conquistado três vezes mais gratuitamente. Diminui a pressão aos EUA, que pode demagogicamente “colocar em segundo plano†sua ajuda permanente ao Egito, que não foi interrompida. E possibilita àcúpula militar, que militariza as fábricas no complexo do Delta do Nilo, a continuar a dissociar a reorganização econômica da classe trabalhadora egípcia (em novos sindicatos independentes) de sua reorganização política e combate ao conjunto do regime, já as milhares de greves em um período tão curto não resultaram na cristalização de novos agrupamentos politicamente independentes dos trabalhadores.

As experiências de junho nos ensinaram a não subordinar nossas forças a saídas do regime!

No Brasil, soubemos enxergar a atividade do governo Dilma para tentar tirar das ruas a imensa energia desatada por nossas demandas profundamente sociais, ao que deu o nome de “reforma política†. Dilma e o PT trataram de agitar concessões mediante a imposição do fim das manifestações, num momento em que não paravam de crescer; apesar das tentativas, e todos os partidos da ordem, estão se revelando incapazes de responder a essas demandas. Ainda que numa escala totalmente diferente (não estamos num processo revolucionário como no Egito) o golpe dos generais vem no mesmo momento do maior ascenso grevista na história do Egito, para arregimentar as movimentações dos trabalhadores e disciplinar tudo o que se opõe ao regime militar. O fato de que a juventude não quer, corretamente, a volta de Morsi ao poder, não pode ser confundido com apoiarmos a repressão das forças armadas do estado capitalista, cujo objetivo é liquidar o processo!

Assim opina o PSTU, organização cuja juventude compõe a atual gestão de importantes entidades estudantis no país, como aqui no Centro Acadêmico de Ciências Humanas da Unicamp. Diminuindo o caráter contrarrevolucionário do que resultou da queda de Morsi, argumenta que, apesar desta contradição, “a queda de Morsi se configura como uma grande conquista das massas e um novo golpe ao regime, que perdeu seu segundo governo em dois anos e meio a partir da mobilização popular [1]†. Que “grande conquista†é essa, que culminou nos piores massacres da história do país, e no retorno dos militares ao governo? Inda que dificulte os próximos passos da elite dominante no país (que precisa instalar um governo eleito para ter legitimidade de avançar nas contrarreformas em todos os aspectos sociais), o governo islâmico era “um agente possível†da contrarrevolução, e sua queda provou que o poder continua nas mãos dos militares, os acordos com os EUA e o Estado terrorista de Israel continuam de pé, os “estupros disciplinadores†seguem atacando nossas companheiras egípcias, e os tribunais militares continuam sentenciando e torturando a população. Se o poder não passa aos trabalhadores, a juventude seguirá sendo usurpada pelo próximo governo fantoche! Não é a primeira, nem a segunda ou terceira vez que o PSTU chama de “grande conquista das massas†a queda de um governo que deixa de pé o poder dos generais e dos EUA no país (com a queda de Mubarak foi assim).

Além: a confusão do PSTU vai ao ponto de praticamente opinarem sobre uma repressão que “não fosse tão desproporcional†àIrmandade Muçulmana! “Bastaria prisões massivas ou, como mínimo, de toda a sua cúpula. Tampouco seria necessário declarar um estado de emergência (de sítio), nem um toque de recolher, pois seria suficiente ilegalizar a Irmandade†. Reivindicam que não se conceda “nenhum direito democrático nem de expressão para a Irmandade e seus líderes políticos enquanto se mobilizem pelo retorno de Morsi†!! A mesma ideia, repetidamente ecoada pelo PSTU, de que uma “revolução democrática†– que modificasse o regime mantendo o poder nas mãos da burguesia, sem atender às demandas estruturais das massas egípcias, como a reforma agrária e a quebra de opressão imperialista, o que somente os trabalhadores seriam capazes de fazer – deu origem a inúmeras vacilações na política, nenhuma comparada a esta rendição: conselhos “democráticos†àrepressão estatal.

Nossa aliança estratégica não deve se subordinar aos planos dos patrões: deve derrubar seu Estado!

O revolucionário russo Trotsky, que tanto saudava a juventude em sua capacidade de adquirir conhecimento e experiência e ao mesmo tempo não dissipar o espírito lutador, advertia quanto àrestrição de liberdades pela mão dos capitalistas: “Tanto a experiência histórica como teórica provam que qualquer restrição da democracia na sociedade burguesa é, em última análise, invariavelmente dirigida contra o proletariado, assim como qualquer imposto que se crie pesa sobre os ombros da classe operária.†Essa verdade mantém toda a vigência quanto àrepressão militar aos islâmicos no Egito. Assim como não confiamos em Morsi, tampouco depositamos nossas energias especulando com os militares e liberais um “tipo mais aceitável e proporcional†de repressão. Não temos qualquer responsabilidade pelo Exército, a não ser pela sua derrubada revolucionária. Isso não vem de esforços conjuntos com quaisquer setores liberais da burguesia egípcia, mas vem da unidade da juventude com os metalúrgicos e portuários de Suez, de Port Said, Ismailia, com os têxteis de Al-Mahalla, do Cairo e demais trabalhadores, de forma independente do governo e do imperialismo.

Em que teoria da revolução deve se referenciar a juventude mundial? Nua teoria como a “teoria da revolução democrática†da LIT-QI, que dilui o conteúdo das tarefas democráticas da revolução a uma modificação de regime sem modificação de poder de classe, confundindo os avanços do imperialismo em bloquear a dinâmica revolucionária dos processos com “os maiores triunfos das massas†(como já antes no Egito e na Líbia, e agora na Síria também, pedindo “armamentos†aos imperialistas que subordinam estes setores a sua disciplina militar); ou a teoria da revolução permanente, que atribui ao sujeito revolucionário de nossa época, o proletariado, a capacidade de ser a força hegemônica dos anseios das massas oprimidas, e das tarefas democráticas da revolução, capazes de expulsar o imperialismo da região, como base para expropriar a burguesia aliada dos EUA e de Israel e impulsionar o avanço internacional da revolução?

Resgatando o marco estratégico do legado de Trotsky e da teoria da revolução permanente para as condições da primavera árabe, reafirmamos que o aspecto “democrático†da revolução nunca se refere a uma etapa ou semietapa que se conclui por fora da tomada do poder pelos trabalhadores e seu governo operário, mas sim a tarefas estruturais que, ao ser a burguesia árabe totalmente incapaz de levá-las a cabo na medida em que apóia sua dominação nacional no “estado inconcluso†destas tarefas, só podem ser realizadas pelos trabalhadores organizados como classe dirigente: “Para os países de desenvolvimento burguês atrasado e, em particular, para os países coloniais e semicoloniais, a teoria da revolução permanente significa que a resolução íntegra e efetiva das suas tarefas democráticas e de libertação nacional somente pode ser concebida por meio a ditadura do proletariado, que se coloca àcabeça da nação oprimida e, primeiro de tudo, das suas massas camponesas. [...] A ditadura do proletariado, que sobe o poder como força dirigente da revolução democrática, se encontra muito rápida e inevitavelmente colocada perante tarefas que a forçarão a fazer incursões profundas no direito de propriedade burguês. No decurso de seu desenvolvimento, a revolução democrática transforma-se diretamente em revolução socialista e torna-se assim uma revolução permanente. [2]â€

A utopia de que modificações no regime que não envolvam a tomada do poder pelos trabalhadores possam satisfazer quaisquer tarefas estruturais e as demandas profundas das massas, não é nada mais que isso, uma utopia atirada no lixo da história várias vezes no processo egípcio. Temos de aprender com o Egito para sabermos atuar no Brasil, pois nossa classe é internacional! Não há outra forma de satisfazer as demandas profundas das massas e resolver integral e efetivamente as tarefas nacionais e democráticas que não a tomada do poder pelos trabalhadores, àfrente da aliança operária, camponesa e popular.

As entidades estudantis como o CACH-Unicamp, junto com DCEs e outros centros estudantis, devemos partir da denúncia intransigente aos massacres do Exército, convocar a juventude “de junho†no Brasil para fortes manifestações em apoio ao processo revolucionário no Egito, exigindo o cessamento imediato do estado de emergência, a liberdade de todos os detidos e o fim da perseguição contra quaisquer organizações políticas, religiosas e sindicais, inclusive a Irmandade Muçulmana, em quem não depositamos confiança alguma.

[2Trotsky, “O que é a revolução permanente? (teses)†, http://www.ler-qi.org/O-que-e-a-revolucao-permanente.

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