Internacional

SOBRE A VERGONHOSA POSIÇÃO DA LIT-QI NO EGITO

Egito: golpe contrarrevolucionário, repressão e o desmoronamento teórico da LIT-QI

16 May 2014   |   comentários

Em uma recente declaração sobre a situação no Egito, o Secretariado Internacional da LIT-QI tenta responder, em alguma medida, as críticas a suas vergonhosas posições, críticas que iniciamos desde a FT-QI.

Em uma recente declaração sobre a situação no Egito, o Secretariado Internacional da LIT-QI tenta responder, em alguma medida, as críticas a suas vergonhosas posições, críticas que iniciamos desde a FT-QI. Novamente, tratam de defender sua posição de que no Egito houve uma revolução democrática triunfante, e que a queda do ex-presidente Morsi foi produto da ação revolucionária das massas e não mediante um golpe do Exército e seus sócios civis, que abriu o caminho a uma ofensiva contrarrevolucionária por parte do novo governo.

Ao que parece, já não basta àLIT-QI dizer que “É verdade que o aparato de segurança segue reprimindo, mas o caráter da repressão não é generalizado, mas seletivo†, para explicar os massacres contra os acampamentos da Irmandade Muçulmana, os mais de 16.000 detidos por razões políticas, as leis antimanifestação, as escandalosas sentenças de morte em massa, e a perseguição a movimentos políticos e sociais por parte do governo. A LIT-QI, a fim de manter em pé sua teoria da revolução democrática, agora deslizam para posições sobre o estado, a repressão e a luta de classes que os afastam do marxismo revolucionário.

Os tempos da política, ou: é tempo de uma política revolucionária

Em sua nova declaração, a LIT-QI insiste em que “A repressão às mobilizações da Irmandade Muçulmana tinha uma justificativa no momento imediato àqueda de Morsi, quando existia uma possibilidade de que as mobilizações da Irmandade Muçulmana pudessem conseguir o retorno do governo de Morsi e impor um já derrotado pela mobilização revolucionária das massas.†Isto não seria novidade na triste posição da LIT, se algumas linhas abaixo não lêssemos que, “Por outro lado, estamos contra a repressão atual àIrmandade Muçulmana, porque essa é a legitimação do regime para o ataque contra o conjunto do movimento de massas.†Então, com o que ficamos? A repressão realizada em ambos os casos pelo Exército legitima o ataque ao conjunto das massas ou está justificada?

Para explicar esta incrível posição (e de passagem, seguir justificando suas vergonhosas vacilações) a LIT-QI nos apresenta uma novidade (dentro da deriva desta corrente): “A defesa das liberdades democráticas nunca é um princípio para os marxistas. É sempre uma questão relativa, subordinada àluta de classes. Para localizar nossa posição devemos responder às questões: liberdades democráticas para quem? Liberdades democráticas para que? Em outras palavras: repressão para quem, repressão para o quê?†. Ou seja, para a LIT-QI, não havia problemas em reprimir e massacrar as mobilizações da Irmandade Muçulmana (“para quem?†) já que isto defendia a revolução vitoriosa (“para quê?†). Mas toda esta argumentação com tom “esquerdista†que tenta justificar sua vergonhosa posição ante a repressão é totalmente confusa e omite um gigantesco detalhe: não se trata aqui de um governo operário enfrentando a reação armada contra a revolução, como tiveram de enfrentar os bolcheviques àcabeça dos soviets na Rússia de 1917 contra a reação armada interna de Koltchak, Denikin e Yudenich. É o Exército, o pilar do estado capitalista egípcio, aquele que leva adiante a repressão!

Como diz a LIT-QI, nossa posição contra a repressão por parte do Exército não se trata de uma questão de princípios abstrata. Os marxistas revolucionários não só repudiamos estes acontecimentos, mas rechaçamos todo tipo de repressão, perseguição e ilegalização exercida pelo governo cívico militar, já que isto fortalece os inimigos da classe operária. Nisto, seguimos a tradição do marxismo revolucionário. Para mencionar alguns exemplos, tomemos Trotsky, que diante do apoio por parte do Partido Comunista e da socialdemocracia às medidas do governo holandês contra os fascistas, dizia, “Por isto, a consigna pela dissolução e desarmamento das bandas fascistas através do estado (o voto por esta espécie de medidas) é absolutamente reacionária (os socialdemocratas clamam: ‘O estado deve atuar!’). Isto equivaleria a fazer um chicote com o couro do proletariado, que os árbitros bonapartistas talvez utilizassem para acariciar suavemente algum traseiro fascista. Mas nossa responsabilidade e dever incontornável é proteger o couro da classe operária, não entregar o chicote ao fascismo†. E em outro texto adverte que “Tanto a experiência histórica como teórica provam que qualquer restrição da democracia na sociedade burguesa é, em última instância, invariavelmente dirigida contra o proletariado, assim como qualquer imposto que se imponha recai sobre os ombros da classe operária. A democracia burguesa é útil para o proletariado apenas quando lhe abre o caminho para o desenvolvimento da luta de classes. Consequentemente, qualquer ‘dirigente’ da classe operária que arma o governo burguês com meios especiais para controlar a opinião pública em geral e a imprensa em particular é, precisamente, um traidor. Em última análise, a acentuação da luta de classes obrigará as burguesias de qualquer tipo a chegar a um acordo entre elas mesmas; aprovarão então leis especiais, toda espécie de medidas restritivas e toda classe de censuras ‘democráticas’ contra os trabalhadores. Quem ainda não tenha compreendido isto deve sair das fileiras da classe operária†.

A posição da LIT-QI, justificando a repressão contra a Irmandade Muçulmana por parte do Exército egípcio se encontra muito próxima àdos partidos liberais e afastada 180º da posição sustentada por Trotsky. Assim, passam de falar sobre a “revolução democrática†a dedicar-se a buscar (e inventar) argumentos para justificar sua vergonhosa reivindicação da brutal repressão por parte do Exército a todo um setor da população.

A falta de consciência das massas ou as desastrosas posições da LIT-QI

Os autores da declaração voltam a tratar de dar lições àesquerda que nega que no Egito haja havido uma revolução democrática triunfante, e que por isto não conseguiu compreender o quão complicado e contraditório é o processo. Dizem-nos que “As massas egípcias, deste modo, não saem derrotadas com a queda de Morsi. Saem vitoriosas, mas com uma enorme confusão em sua consciência. Consideram as Forças Armadas, o centro do poder burguês e seu maior inimigo, como um aliado que ajudou a derrubar Mubarak e Morsi. A crise da direção revolucionária e a inexistência de uma alternativa própria dos trabalhadores têm conseqüências terríveis na realidade egípcia.†Que a falta de direção revolucionária tem “conseqüências terríveis†não é uma descoberta; o que teríamos de nos perguntar é se a LIT-QI opina que sua posição justificando a repressão àIrmandade Muçulmana por parte do Exército terá contribuído para construir uma “alternativa própria dos trabalhadores†. Claramente, o curso de posições da LIT-QI, primeiro cobrindo com um suposto mandato popular o golpe contrarrevolucionário dos militares contra Morsi e depois justificando a repressão do Exército, aproxima-os mais às posições sustentadas por movimentos como o TAMAROD (movimento juvenil que começou juntando assinaturas contra Morsi e terminou justificando a repressão, e com um setor apoiando o chefe do Exército Al-Sisi em sua campanha eleitoral) que a uma verdadeira política revolucionária, capaz de luta por jogar abaixo o regime político e conseguir que o poder passe das mãos da burguesia para as mãos da classe operária e dos oprimidos, única forma de dar resposta às demandas profundas da Primavera à rabe.

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