Internacional

REPRESSÃO, PERSEGUIÇÃO, ENCARCERAMENTO E CONDENAÇÃO À MORTE

Egito: assim avança a "revolução democrática"?

03 May 2014   |   comentários

Novamente um tribunal no Egito condena à morte centenas de militantes da Irmandade Muçulmana pelo suposto assassinato de um policial em agosto de 2013, que sucedeu no mesmo dia em que o governo cívico-militar ordenava a repressão aos acampamentos muçulmanos que pediam a restituição de Morsi na presidência.

Novamente um tribunal no Egito condena àmorte centenas de militantes da Irmandade Muçulmana pelo suposto assassinato de um policial em agosto de 2013, que sucedeu no mesmo dia em que o governo cívico-militar ordenava a repressão aos acampamentos muçulmanos que pediam a restituição de Morsi na presidência. Esta nova escandalosa condenação se dá no marco do plano contrarrevolucionário que vem aplicando o governo cívico militar que assumiu depois do golpe que terminou com o governo Morsi, que se encontrava em xeque pelas mobilizações populares (como explicamos na nota publicada, “É preciso uma política revolucionária para o Egito†).

Ao mesmo tempo que se conhecia esta nova condenação, um tribunal do Cairo ilegalizava o Movimento 6 de Abril e impunha o fechamento de suas sedes sob a acusação de “atentar contra a integridade do país†. Esta campanha contrarrevolucionária de perseguição e criminalização do protesto se estende por todo o Egito, e em Port Said foram encarcerados três dirigentes sindicais por haver encabeçado uma greve. Assim se cumpre a ordem do novo primeiro ministro Mehleb, que havia anunciado em seu discurso de posse que havia que terminar com as greves e protestos de rua.

Seguramente ante estes acontecimentos não é difícil coincidir que, no Egito, o golpe que derrubou Morsi abriu caminho a uma feroz contrarrevolução que busca derrotar e varrer das ruas a experiência aberta pela primavera árabe. O que resulta realmente uma tarefa complicada é seguir afirmando, como faz a LIT-QI, que estamos longe de um golpe contrarrevolucionário: “Em primeiro lugar porque a revolução continua, com novos fatos que assim o demonstram... Em segundo lugar, ante esta realidade, a política central do regime militar para derrotar a revolução não é o enfrentamento aberto, físico†.

Não há pior cego do que aquele que não quer ver

A LIT-QI parece haver chegado ao cúmulo da negação da realidade para defender sua teoria de que no Egito houve uma “revolução democrática†triunfante, que continua com altos e baixos. Em uma nota escrita há pouco mais de um mês, Ronald Leon se dedica a explicar a esquerda que “Em toda revolução atua inevitavelmente a contrarrevolução. Mas no caso do Egito, a contrarrevolução ainda se move no marco de uma revolução poderosa em pleno desenvolvimento†. Ante a evidente repressão contra a Irmandade Muçulmana, as organizações política opositoras ao governo ou ao movimento operário, a LIT-QI responde que “É verdade que o aparato de segurança segue reprimindo, mas o caráter da repressão não é generalizado, mas seletivo†. Uma posição aberrante para uma organização que se diz de esquerda e pretende “esconder debaixo do tapete†o massacre de mais de 1000 seguidores da Irmandade Muçulmana, mortos pela repressão, e os mais de 16000 detidos por razões políticas desde julho de 2013 até hoje. Os marxistas revolucionários não só repudiamos estes acontecimentos, mas rechaçamos todo tipo de repressão, perseguição e ilegalização exercida pelo governo cívico militar, mesmo a levada adiante contra os seguidores do neoliberal Morsi. Foi justamente a via livre para reprimir esta organização o que robusteceu o governo cívico militar para avançar numa perseguição generalizada contra qualquer opositor ao regime.

Recordemos que a poucos dias antes de produzir-se o golpe e começar a repressão contra a Irmandade Muçulmana a LIT-QI dizia que “Bastaria prisões massivas ou, como mínimo, de toda a sua cúpula. Tampouco seria necessário declarar um estado de emergência nem um toque de retirada, pois seria suficiente ilegalizar a Irmandade Muçulmana†, e depois pedia que não se concedesse “nenhum direito democrático nem de expressão para a Irmandade e seus líderes políticos enquanto se mobilizem pelo retorno de Morsi†. Os militares não só fizeram isso, mas aprovaram uma lei antiprotesto, com seus tribunais ilegalizam e encarceram opositores, desenvolvem um golpe contrarrevolucionário que reprime “seletivamente†todos os que se mobilizam contra o governo sob o discurso de estar perseguindo terroristas cuidadosamente “selecionados†. Não é hora dos companheiros da LIT-QI reverem suas posições vergonhosas? Ou seguirão negando-se a enxergar a realidade? Não basta um rechaço àescandalosa condenação àmorte contra a Irmandade Muçulmana enquanto se repete que a repressão é simplesmente “seletiva†.

A LIT-QI faz ouvido surdo a todo debate contra suas vergonhosas posições em prol de defender uma suposta “revolução democrática†. Os anos de convulsões e lutas de massas no mundo árabe e no Egito mostram o quão equivocado é afirmar a existência de uma “revolução democrática†que modifique o regime político sem que o poder passe das mãos da burguesia para as mãos da classe operária e dos oprimidos.

Artigos relacionados: Internacional









  • Não há comentários para este artigo