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Eduardo Campos só virou uma grande novidade depois da sua morte

25 Aug 2014   |   comentários

Com sua morte, Eduardo Campos está tendo mais audiência do que jamais havia tido em vida. Os grandes jornais e canais de televisão o converteram em uma espécie de mito. Era o representante de uma nova geração de políticos que estaria a caminho de renovar a política brasileira.

Com sua morte, Eduardo Campos está tendo mais audiência do que jamais havia tido em vida. Os grandes jornais e canais de televisão o converteram em uma espécie de mito. Era o representante de uma nova geração de políticos que estaria a caminho de renovar a política brasileira. Se acreditarmos no relato da grande imprensa, Eduardo Campos representava uma alternativa moderna e renovada, uma terceira via superadora da polarização entre PT e PSDB. Um olhar mais atento mostra que essa terceira via não traz consigo nenhuma novidade, nem com Campos, nem com a Marina Silva.

Um político jovem para os padrões brasileiros (49 anos), Eduardo Campos não era um novato. A política vem do berço. Seu avô, Miguel Arraes, governou por três vezes o estado de Pernambuco, na última delas junto com o neto. Sua família é parte da elite que governa estado desde antes do golpe militar de 1964. Indo um pouco mais longe, é bem ilustrativo saber que a primeira mulher de Miguel Arraes pertencia a uma tradicional família de latifundiários e proprietários de escravos, que governou Pernambuco nas primeiras décadas do século XIX.

Durante o seu primeiro governo, em 1962, Miguel Arraes se transformou em um dos políticos mais populares do seu tempo. Entre os governadores da base de apoio do governo de João Goulart, era o de retórica mais radical, num estado onde o movimento das ligas camponesas era fortíssimo. A ditadura militar interrompeu o seu governo e todo o processo de organização camponesa e operária que estava em curso.

Em 1990 toda a família política de Arraes e seus correligionários entraram no PSB e passaram ao controle deste partido em Pernambuco. Junto com o avô, já estava lá o neto. Foi ele, Miguel Arraes, com o peso de uma família tradicional do nordeste, que projetou Eduardo Campos na política nacional e no ministério de ciência e tecnologia do governo Lula. Apesar do nome, o PSB é mais um destes partidos apoiados em elites locais que se filiam a pequenas legendas para não se comprometer demais nem com governo nem com situação. Em cada estado, tem as mãos livres para apoiar quem bem entender.

A terceira via de Eduardo Campos (e agora de Marina Silva que herdou a chapa e o programa), não apresenta uma novidade para a política brasileira. A novidade é ver como termina a evolução de uma das alas do velho desenvolvimentismo. Arraes, no seu primeiro governo, falava contra o imperialismo e em defesa da soberania nacional e da reforma agrária, mas não organizou o povo para um combate decisivo contra as elites. Compreensível, já que ele próprio fazia parte das elites. No final da vida, apoiou o governo da reforma da previdência e do mensalão. Um abandono do antigo desenvolvimentismo.

Eduardo Campos deu um passo a mais. Abandonou o barco petista e se apresentou com um programa que corresponde aos setores mais conservadores, como a independência do Banco Central, o que daria ainda mais peso de decisão ao grande capital financeiro. Sua terceira via não passou, como Marina, de uma nova roupagem para o velho programa tucano. Hoje já não se pode falar de desenvolvimentismo, nem velho, nem novo. Todos aceitaram a política econômica da ofensiva neoliberal e a entrega do país, a começar pelo próprio PT. A novidade de Campos é que, ao abandonar o governo petista e se lançar como alternativa de oposição ele foi além, adotou partes do programa neoliberal que nem os tucanos dizem em voz alta. Isso não significa que tenha perdido a veia populista do avô, já que, junto com o programa neoliberal, buscava dar algumas concessões que o tornassem um líder popular, como o passe livre bem limitado que propunha. Uma verdadeira alternativa a “velha política†só pode vir pela própria organização dos trabalhadores e do povo.

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