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E se a água terminar nas Universidades?

06 Feb 2015 | Mesmo com Alckmin tentando esconder, passada as eleições, dia a dia novas noticias sobre a situação calamitosa de falta d’água aparecem nos jornais. Essa semana as Universidades Estaduais Paulistas anunciaram a possível suspensão das aulas por conta da crise hídrica.   |   comentários

Mesmo com Alckmin tentando esconder, passada as eleições, dia a dia novas noticias sobre a situação calamitosa de falta d’água aparecem nos jornais. Essa semana as Universidades Estaduais Paulistas anunciaram a possível suspensão das aulas por conta da crise hídrica.

Além do fato de milhares de estudantes terem que atrasar os seus cursos, e da própria paralisação da produção acadêmica, o fato mais escandaloso a se tratar de um espaço de produção de conhecimento, é a completa subserviência das gestões da USP, UNESP e UNICAMP aos se curvarem frente ao ataque do governo, e não usarem da sua estrutura e pesquisas para pensar saídas e soluções para o problema.

A suposta apatia das reitorias Universitárias tem seu fundamento na ligação íntima dos altos cargos da Universidade com o governo do estado. Enquanto o reitorado propõe fóruns fechados para pensar o problema, o governo já ataca a população ameaçando medidas como rodízio de cinco dias sem água e dois com, multa de mil reais àqueles que desperdiçarem água, esconde o gastos das grandes empresas querendo jogar todo o ônus da crise sobre os trabalhadores e a juventude.

Várias hipóteses estão sendo levantadas, como usar a água da chuva via instalação de cisternas, usar o aqüífero Guarani, ou começar a captar água da represa Billings. À frente delas estão professores e pesquisadores das Universidades. A possibilidade de usar da represa Billings, com sua água poluída com bactérias, metal pesado e vários produtos químicos, é aventada pelos geógrafo chefe do Departamento de recursos hídricos da Unicamp, Antônio Carlos Zuffo, como vemos em sua entrevista para o site Último Segundo: Para amenizar "o clima de guerra", ele sugere o abastecimento temporário com a água da represa Billings, hoje poluída após décadas recebendo esgoto dos rios Pinheiros e Tietê. "O governo poderia fazer uma desinfecção e colocar água bruta na rede. Eu preferia receber em casa uma água assim para dar descarga e até lavar roupa. É um abastecimento precário, mas pelo menos não ficaríamos totalmente sem água", diz ele. Desinfetada, a água bruta chegaria aos lares com cor amarelada e forte cheiro, portanto, “não potávelâ€
Essa possibilidade não vai só para a descarga ou a para lavar a casa, mas leva consigo uma série de riscos a população se o governo começar a disponibilizar água suja e contaminada. Podendo instaurar uma situação de doenças e contaminação pelo consumo inadequado dessa água.

A segunda hipótese sobre o aqüífero Guarani, muito já se disse sobre esse reservatório que poderia sustentar a humanidade por mais de cem anos. Contudo alem do custo de transportar a água da região oeste do estado, onde o reservatório se localiza, para a capital, ainda não se sabe ao certo se esse reservatório tem a capacidade de suportar uma vazão continua. Começar a retirar água do Guarani de maneira insustentável pode gerar outro cataclismo no sentido não só da falta de chuvas, mas de secar e/ou poluir os mananciais da região sudeste. Outro professor da USP alerta para o risco “A gente precisa ter a recarga no aquífero para que ele continue dando água. Se a gente tiver em longo prazo a certeza de que a chuva vai continuar caindo e o aquífero recarregado, uma vazão de 1 metro cúbico por segundo é uma vazão segura†. Mas como ter essa certeza frente as mudanças do código florestal do Governo Dilma, que permitem maior desmatamento da mata ciliar, assim como a extensão das plantações de cana e da agropecuária que sugam a água, respaldadas pela nova ministra da agricultura, Kátia Abreu, grande protetora dos latifundiários.

Ou seja, enquanto os pesquisadores da Universidade vem pensando como “resolver†o problema da água por meios paliativos (que curiosamente não tocam nos lucros das empresas enquanto – nem se questiona a exportação de água pela Sabesp) que continuam destruindo o meio ambiente, temos que nos perguntar: qual o sentido das Universidades? Um espaço de conhecimento deve servir a população, como restabelecer a água restaurando as matas ciliares para resgatar os mananciais, como limpar os rios, como desenvolver a agricultura de forma saudável sem destruir as matas, e a difusão de um pensamento crítico que se oponha àprivatização deste bem da humanidade. Uma série de questões que são parte orgânica para pensar a crise que vivemos, já que não se trata só de um problema climático, mas sim anos e anos de uma administração estatal voltada para o lucro, para a manutenção dos grandes latifundiários (mais de 70% da água brasileira consumível é voltada ao agronegócio), e das grandes empresas poluidoras (que consomem 22% da água).

A Universidade até agora serviu para produzir conhecimento para esse projeto, contudo nessa crise vemos uma encruzilhada no seu projeto, ou seja, continuará pensando alternativas para manter o lucro, salvar a fama do governos PSDBistas enquanto destroem e aprofundam a crise ambiental, ou se a Universidade vai usar do seu conhecimento para desenvolver medidas anticrises de preservação ambiental, de limpeza da água, controle de pragas, se seu hospital vai aumentar o numero de funcionários e estrutura para atender a casos de virose, pragas e desidratação.

A presença de intelectuais na Unicamp e nas estaduais paulistas que defendam como sua a demanda de toda a população para que não haja desabastecimento para as populações periféricas, e que reflita saídas de emergência para a crise hídrica em meio àcrítica científica dos modos como a água é administrada pelo estado, é de vital importância. Essa disputa dentro da Universidade, para que projeto ela vai se voltar, esse ano deve ser ainda mais latente frente a situação extrema da população.

O conhecimento não pode ficar atado a interesses do governo, é urgente que se divulgue e pesquise a real situação dos reservatórios, bem como as escolas e Universidade que são espaços de convívio das comunidades não podem ser fechadas, essa também é uma forma de desarticular a luta dos estudantes e da população contra a barbárie da falta d’água. Os estudantes podem organizar comitês de base para responder ao problema da água, disputar o conhecimento da universidade contra a reitoria, para que toda o investimento seja voltado a população, tornando-se bastiões junto as escolas de defesa do acesso a água.

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