Teoria

GRANDE SEMINà RIO DE FORMAÇÃO

Duzentos trabalhadores e estudantes discutem a atualidade da Teoria da Revolução Permanente de Leon Trotski

17 Feb 2014   |   comentários

  • (Curso de Formação em Campinas)

Duzentos trabalhadores e estudantes se reuniram em dois finais de semana de janeiro e fevereiro para retomar a atualidade do legado de Leon Trotski. O tema do seminário de formação era sobre a teoria da revolução permanente, um estudo que visa adentrar no período histórico em que foi forjada esta teoria, os principais embates e experiências da luta de classes que a compõe, para por fim mergulhar em uma das principais experiências da luta de classe desde a crise econômica de 2008, a Primavera à rabe, e discutir a atualidade do pensamento de Trotski àluz dos novos desafios colocados pelo século XXI.

Tratou-se de uma primeira iniciativa, e a partir dela buscaremos ligar os duzentos trabalhadores e estudantes em outras experiências de discussão teórica, grupos de estudo, para chegar a outras centenas de trabalhadores e ativistas reascendendo a discussão sobre o legado de Trotski e sua teoria da revolução permanente.

O seminário foi realizado em três estados do país, em seis grupos com algumas dezenas de trabalhadores de distintas categorias em cada grupo, incluindo setores do funcionalismo público (metroviários, trabalhadores da USP, professores da rede pública, bancários etc.), mas também de trabalhadores de indústria de distintos lugares do país. Entre os estudantes, participarem setores das estaduais paulistas, mas também de federais de Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de secundaristas.
Todo o seminário foi refletido em torno da discussão da teoria da revolução permanente, começando pelas reflexões de Trotski em torno do nascimento da teoria, a partir dos balanços da revolução russa de 1905, mas também refletindo como essa teoria foi avançando em conexão com os processos da luta de classes e no embate de tendências teóricas e políticas durante mais de trinta anos.

Nesse sentido, debatemos também bastante o pensamento de Lenin, suas conclusões estratégicas de 1905 e o avanço em seu pensamento político em 1917, que nos permitem, a partir dos avanços que o próprio Trotski tem no mesmo período, compreender no sentido da estratégia a confluência de Lenin e Trotski que culminou na mais importante experiência dos trabalhadores no século XX, a Revolução de Outubro na Rússia de 1917.
Durante o segundo final de semana do seminário, avançamos em compreender as principais contradições internas da revolução em concatenação com a situação internacional, de modo a compreender como foi se gestando a “teoria†do socialismo em um só país e as bases do termidor stalinista, ou seja, o processo contrarrevolucionário no interior da revolução russa, que levou a consolidação da burocratização e a uma série de contradições internas e derrotas externas dos trabalhadores em âmbito internacional.

Partindo dessas conclusões, pudemos passar por alguns processos decisivos para entender o sentido de “generalização da teoria da revolução permanente†, especialmente a revolução chinesa de 1925-27, concluindo essa discussão com a celebre obra A Revolução Permanente, elaborada nos finais da década de 1920, tendo em visto os principais balanços da situação internacional, especialmente a revolução chinesa.
Por fim, nos distintos grupos abordou-se alguns processos da segunda metade do século XX, passando pela revolução chinesa de 1949, a revolução cubana de 1959 e algumas discussões sobre a América do Sul, como os golpes no Brasil e 1964 e Chile em 1973, entre outros, para entender as rupturas e fissuras e os fios de continuidade com o pensamento de Trotski nesse período, e adentrar a Primavera à rabe, refletindo as determinações dos processos revolucionários em seu conjunto e, sobretudo, algumas discussões teóricas e estratégicas em processos como o do Egito, Líbia e Síria, que nos levou a tirar conclusões críticas acerca das organizações de influência teórica e política no etapismo stalinista (que chegam a levar a defesa de ditadores), mas também a deformações do pensamento de Trotski em organizações que reivindicam o trotskismo, como a reivindicação de supostas “revoluções democráticas triunfantes†na primavera árabe, especialmente em correntes de origem no pensamento de Nahuel Moreno, importante dirigente do centrismo trotskista na Argentina.

Desse modo, consideramos que demos um importante passo em reconstituir as bases teóricas do trotskismo, em curso que tinham o desafio apaixonante de juntar trabalhadores e estudantes (com forte intercambio que permitiu grande protagonismo dos trabalhadores), como parte de - num momento em que vemos uma grande falência da esquerda nos processos da luta de classes e uma verdadeira renegação das teses fundamentais do pensamento de Leon Trotski - forjar as bases de uma esquerda realmente revolucionária no Brasil, orientada estrategicamente na perspectiva da revolução internacional dos trabalhadores.

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(Curso de Formação em Campinas)

Depoimentos de participantes do seminário:

"O curso foi um grande exemplo de formação onde os trabalhadores e estudantes puderam juntos se formarem e ficarem mais fortes para encarar o capitalismo e suas mazelas".

Júlio, de Minas Gerais, operário industrial.

"O curso foi uma importante ferramenta para minha formação e ajuda a nos preparar para os espaços que podem se abrir para a nossa construção na região!".

Guimarães, de Minas Gerais, operário industrial

“O curso de formação da LER-QI foi excelente,me clarificou as ideias de como o capitalismo é incapaz de cumprir as demandas de nossa sociedade e que através da construção de uma consciência crítica politizada e especialmente da militância,que alcançaremos meios para fazer a revolução socialista em nossa sociedade,para acabar com a desigualdade e miséria que o sistema capitalista instituiuâ€

Regina, estudante de filosofia da UFMG

"Foi um curso que permitiu ter uma clareza das concepções socialistas a partir de uma perspectiva revolucionária. Foi muito importante e muito instrutivo para nossa formação e para as batalhas que enfrentamos no dia a dia."

Clarissa, estudante da PUC-MG

"Coisa rara o curso de formação política promovido pela LERQI. Num momento em que cretinos de toda espécie procuram rebaixar os fundamentos da filosofia política do marxismo, esta organização demonstra coragem intelectual ao defender e analisar o papel político revolucionário da classe operária hoje. É esta mesma coragem que coloca em evidência a teoria da Revolução permanente, de Leon Trotski. Pouco estudada entre nós, até mesmo por aqueles que intitulam-se trotskistas, a Revolução permanente foi apresentada no curso em toda sua veracidade histórica. O embasamento teórico nos textos de Trotski permitiu, a reconstituição histórica de diferentes experiências políticas do século passado: dos bastidores da Revolução de 1905( e consequentemente a formação da linha mestra soviética) até os erros políticos da Revolução chinesa de 1949 e da Revolução cubana de 1959.
Este foi um curso que deve ser tomado como modelo para a esquerda brasileira: dentro de um clima de descontração que não diminuiu a seriedade e o rigor teórico, os participantes puderam expressar suas opiniões e suas análises políticas.
Se dentro da esquerda brasileira uma espécie de menchevismo tardio parece contaminar as praticas políticas de alguns e a superficialidade teórica promover a confusão ideológica de outros, este curso foi extremamente útil para que jovens militantes despertem suas atenções para as obras de Lenin e Trotski."

Afonso, de Campinas, da Revista Lanterna de Arte e cultura

"Ter participado do curso de formação da LER-QI que como foco teve a TRP [teoria da revolução permanente] do Trotsky me trouxe além de uma base teórica, fortaleceu uma visão de um futuro a partir de uma perspectiva revolucionária, que com certeza contribuiu com peso na perspectiva que eu jovem estudante do ensino público quero exercer na sociedade que vivo, a modificando com a perspectiva que temos como herança ganha"

Bárbara, estudante secundarista da rede pública de Campinas

“Ainda que o curso não foi finalizado ele está sendo um excelente espaço para me aproximar mais das ideias do trotskismo, No meu caso a relação com a ler-qi foi durante as manifestações em junho e o ritmo agitado em que a cidade se manteve depois disso impediram de ter discussões mais acalmadas e também voltadas àrevolução russa e a TRP. Também para analisar diferentes experiências históricas de processos revolucionários e mais importante, nos entrega ferramentas teóricas para compreender os processos atualmente em curso no Brasil e como podemos ter um papel mais ativo e efetivo nas lutas do 2014â€

Juan, Rio de Janeiro, pós-graduando na UFF

“O curso sobre a teoria da revolução permanente foi muito importante para relembrar e dar a devida importância para o fato de que só a ditadura do proletariado pode dar resposta às demandas da população, mesmo as democráticas, e que mesmo nos países atrasados com a maioria da população camponesa, o sujeito da revolução só pode ser o proletariado, em aliança com o campesinato. O curso foi muito bom e abrangenteâ€

Natália, estudante secundarista na região do ABC

"O curso me apresentou informações que eu não conhecia e construiu discussões que me instigaram e que me despertaram uma vontade de conhecer mais sobre a história e as possibilidades de revoluções. Pude começar a construir uma reflexão sobre os contextos em que aconteceu a revolução russa (o que dá base para pensar os contextos mais propícios para uma revolução), os erros e superações das concepções, como é fundamental e determinante para a ação uma avaliação correta sobre a conjuntura em que germina a revolução.
Pra mim umas das contribuições mais importantes, senão a mais importante, que instiga todas as outras buscas e investidas, foi a desmistificação da revolução como sendo algo inacessível, inalcançável, uma utopia ultrapassada, pensamento que é conveniente àclasse dominante e que desmobiliza uma construção cotidiana por uma sociedade sem classes."

GP - Metroviária

"O curso da Revolução Permanente cumpriu para mim dois objetivos que se destacaram. O primeiro foi o de analisar a Revolução Russa para além de um objetivo simplesmente teórico como um meio de enriquecermos nossa cultura sobre o assunto, tratando o evento como um relicário do passado. Pelo contrário, o curso mostrou como as questões que envolvem o tema se atualizam e remetem a uma compreensão imediata da relação entre burguesia e classe operária, bem como do funcionamento do capitalismo enquanto sistema hegemônico. O segundo ponto é o que diz respeito a formação de uma militância revolucionária. Para mim, analisar a Revolução evidenciou como não existem simplesmente "garantias" de que esta triunfe; o percurso revolucionário é cheio de "acidentes" e contratempos, onde cada passo adotado que não esteja de acordo com a política correta pode ser o elemento que determine o seu triunfo ou o seu fracasso.
Isto mostra como é fundamental a atuação de uma direção revolucionária que construa a estratégia correta que prepare a classe operária para estes momentos de crise e de potencial revolucionário".

Fernando Salles, Metroviário

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