Gênero e Sexualidade

Dia da visibilidade trans: não nos calamos, gritamos!

30 Jan 2015   |   comentários

Reflexão de Virgínia Guitzel, militante da Ler-qi, da Agrupação Pão e Rosas e integrante da equipe editorial do Palavra Operária, sobre o Dia Internacional da Visibilidade Trans

Meu nome é Virgínia Guitzel, faço hoje 22 anos no dia internacional da visibilidade trans. Me reconheço como travesti há três anos, desde o 1 de maio de 2012 quando marchei com o Pão e Rosas e minha consciência política e identitária se fundiram: quem sou, que mundo vivo, o que luto para construir - diariamente.

Hoje faço tratamento psicológico como medida obrigatória para poder construir meu corpo. Minha psicóloga me perguntou como me via daqui 20 anos. Não soube responder, quando pensei em escrever sobre a visibilidade trans, pensei novamente nisso. Em meio a tantos obstáculos e vulnerabilidade, há como sonhar com algo tão longe?

Nossa expectativa de vida segue de 35 anos em toda a América latina. Daqui 20 anos já teria superado essa expectativa, mas será que sobreviverei àprostituição compulsória? Sobreviverei àmutilação, agressões e abusos sexuais? Terei já construído meu corpo num país que segue me diagnosticando como doente mental, e que realiza apenas 12 processos cirúrgicos de “readequação†sexual por ano? Terei finalmente entrado na universidade?

Hoje é um dia que mostramos todo nosso orgulho por sermos quem somos, mesmo sendo chamadas de invertidas, de anormais, de pervertidas, pederastas e tantas outras nomenclaturas que não vou proclamar, é quando batemos no peito para dizer não somos pessoas padronizadas, não somos cisgêneras, não somos a ordem comum cultural e hegemônica, somos homens trans e mulheres transexuais. Somos também travestis, e também podemos não ser nem homens e nem mulheres, mas gêneros não binários, não definidos, e inclusive não permanentes.

Não posso prever então se serei mais uma numa estatística crescente de mortes pela transfobia. Só há incertezas se olharmos pro mundo sem acreditar que é possível transformá-lo. É por isso que minha identidade se fortalece com a certeza que tenho do potencial revolucionário que tem a classe que tudo produz, que já em tantos processos de luta se demonstrou, como quando os operários da Madygraft (ex Donnelley) na Argentina se organizam para defender uma trabalhadora trans¹, ou quando participei da luta dos “quarteirizados†do Metrô, quando os trabalhadores me defenderam da tentativa da burocracia de usar a transfobia para nos separar e não nos deixar apoiar a luta².

Tenho certeza que não existirá revolução que emancipe verdadeiramente o conjunto da humanidade sem que as identidades sejam livres e nossos corpos e mentes liberados das amostras da ideologia burguesa.

Viva o orgulho trans!

Viva a luta revolucionária contra todas as opressões!

Viva a aliança entre oprimidos e explorados!

[1] http://www.ler-qi.org/Virginia-Guitzel-fala-sobre-a-defesa-da-trabalhadora-trans-em-fabrica-ocupada-por-trabalhadores-na-Argentina-Madigraf-Donnelley-transexual

[2] Relato publicado no livro "A Precarização tem Rosto de Mulher" de Diana Assunção (edições Iskra, 2013)

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