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DISCUTINDO AS MOBILIZAÇÕES

Debate na Faculdade de Educação da USP: sobre o “pensamento mágico†de Marilena Chauí

21 Jun 2013   |   comentários

É aquela velha história, se algum desavisado ousasse entrar na USP e ir até a Faculdade de Educação, na última terça-feira, encontraria na fala da profa. Marilena Chauí um terreno fértil para a confusão.

Numa mesa que esteve composta também por Bianca (militante do Juntos -MES/PSOL), Carlos Carlos (jornalista da TVT, canal de mídia da CUT), André Ciola, do MPL, além de Diana Assunção, diretora do Sintusp e dirigente da LER-QI, a profa. Marilena, a mais expressiva intelectual petista hoje, resolveu, em meio a todo esse processo, intervir no debate como aquela que está com a visão “para além das esquerdas†, que pensam “pequeno†, não veem as grandes barreiras e grandes lutas que terão de ser enfrentadas nesses tempos.

Marilena Chauí falou de três dos grandes problemas sociais que incendeiam as manifestações atuais: o “inferno urbano†, imerso nas contradições de megalópoles como São Paulo construídas pelo irracionalismo capitalista; a especulação imobiliária e o caos nas questões de moradia no Brasil; o “indecente†e ineficiente transporte coletivo.

Pois bem, segundo a intelectual petista, a grande luta é contra o capital: a chave seria entender que se trata de enfrentar montadoras, empreiteiras e o grande cartel do transporte. Será uma luta dura, que envolve “sangue e mortes†(nas palavras de “quem já viveu isso†).

Uma fala de esquerda? Não, nada há de extraordinário no discurso de Chauí: quando um petista enfatiza a direita, a burguesia, o capital financeiro (e até aqui em geral está tudo muito correto), esconde e quer “preservar†sempre sua posição política institucional. Aqui se desfaz o primeiro “mistério†de seu discurso, porque era tudo para a mobilização não se concentrar contra o governo municipal do PT, de Fernando Haddad, ou seja, entender que a luta é contra o grande capital como se nós, os petistas e o governo estivéssemos num bloco só! Abram o olho, Haddad está dentro dessa máquina burguesa e ainda ontem estava com Geraldo Alckmin no pérfido plano de não reduzir R$0,20 centavos “porque não dava no orçamento†(e nos lucros do cartel).

Mas o discurso de Chauí escondia um “mistério†superior. Começando por supostamente criticar a fluidez do facebook no chamado às manifestações, esses eventos (“passageiros†), “indiferenciados†, “sem controle†(nas palavras dela) acabavam por gerar uma ideia mágica de que após derrubar os R$0,20 centavos, poderia “ousar†ir por mais. Assim, o “pensamento mágico†não entende que a grande luta dura contra o capital é mais difícil do que imagina.

Marilena Chauí, dentro do pensamento que “fala da dura luta contra o capital†mas ainda ontem se calava frente a Haddad dizer que é impossível abaixar R$0,20 centavos no preço da passagem, nos fez lembrar aquela linda frase de maio de 1968: “sejamos realistas, exijamos o impossível†(ela não cabe no pensamento de Chauí, que às vezes parece propor justamente o oposto: “sejamos utópicos, aceitemos o que está dado†).

Voltando ao “mistério chave†, e aqui reside o principal, ela fez questão de dizer que não bastam essas manifestações em Osasco, Guaianazes, zona leste, “aqui e ali†, é preciso se organizar. Está ótimo, Marilena, mas deixe todos nós vibrarmos com a população da Zona Leste, tão arrasada no governo do PSDB e de seu partido, sair às ruas e desbravar as palavras de ordem engasgadas em toda a década de 2000. Evidentemente é preciso se organizar, é preciso construir um partido revolucionário que ultrapasse os limites impostos pela degeneração do PT, mas esse partido deve se construir em conexão com a auto-organização dos trabalhadores e da juventude.

Por fim, Marilena Chauí falou bastante sobre a manipulação da mídia. Nós também não semeamos nenhuma ilusão no jornalismo burguês e estamos contra qualquer tentativa de transformar o movimento num “grande nacionalismo†que se volte contra os partidos de esquerda. Achamos que faz parte sim da ideologia neoliberal. Mas o mais chocante foi Chauí querer misturar tudo isso no termo “massas†. Ontem nós (a esquerda organizada e classista) combatíamos todo tipo de autonomismo que quisesse dizer que as classes acabaram, que a classe trabalhadora não é mais sujeito, que não se precisa mais de partidos e sindicatos (e mantemos esse combate). Mas, Chauí, seu horror ao termo “massa†nesse momento não se refere àideologia neoliberal, mas sim ao fato de milhões de jovens estarem nas ruas aniquilando um dos pilares do lulismo: a estabilidade social burguesa, o controle da classe trabalhadora e da juventude!

Como terminou dizendo Diana Assunção no mesmo debate, é hora de dar nome aos bois e denunciar que essa fúria das “massas†(num primeiro momento da classe média, mas da juventude trabalhadora que já começa a ganhar cena nos combates) contra a burguesia e o capital mas também contra os governos que, nos termos de Marx, fazem parte do “comitê de negócios comuns da burguesia†, como os do PT, aliado dos mais corruptos e reacionários do parlamento brasileiro. Como afirmou a companheira Diana, toda a tese de Chauí sobre o reacionarismo da classe média, termina servindo para ocultar o verdadeiro antagonismo de classe, que é entre os trabalhadores e a grande burguesia (que está com o governo). A professora, com sua tese, sequer se coloca de fato a favor das manifestações, e suas propostas para dialogar com a juventude, como a de apoiar a “reforma política†por meio da “Constituinte específica†proposta por Dilma, nada mais são do que a velha agenda do PT, agora requentada; não passam de tentativas de mudanças cosméticas, a serviço de restaurar a ordem, e nada têm a ver com os anseios profundos da juventude, das mulheres, do povo negro, da classe trabalhadora, anseios que não podem se cumprir sem escancarar aqueles antagonismos e encarar o combate frontal contra esse sistema de exploração e opressão.

É preciso terminar dizendo, a todos os intelectuais da ordem, inclusive e em primeiro lugar aos petistas: vão ter que continuar se horrorizando com os atos “aqui e ali†, na Zona leste de São Paulo e em todo o Brasil, com as “massas†nas ruas. É, professora Marilena, parece que vai ficar cada vez mais claro que o verdadeiro “pensamento mágico†, é achar que será possível mudar de fato a vida da juventude e todos os oprimidos, por dentro desse sistema de miséria. E então a força das ideias revolucionárias e materialistas de Karl Marx, que dizia que “tudo que é estável e sólido desmancha no ar†, podem ganhar corpo no novo país que irá emergir das atuais manifestações, deixando a burguesia e seus partidos, intelectuais petistas incluídos… àespera de uma “solução mágica†.


Última parte da intervenção de Diana Assunção.

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