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Debate com Luciana Genro, passado o primeiro turno das eleições

06 Oct 2014 | Não temos nenhum “fenômeno†da esquerda nessas eleições. As candidaturas presidenciais da esquerda ficaram com votações muito reduzidas (seja do PSOL, PSTU, PCO ou PCB). No entanto, caberia indagarmos: Luciana Genro representava uma alternativa da esquerda para o Brasil?   |   comentários

Não temos nenhum “fenômeno†da esquerda nessas eleições. As candidaturas presidenciais da esquerda ficaram com votações muito reduzidas (seja do PSOL, PSTU, PCO ou PCB). No entanto, caberia indagarmos: Luciana Genro representava uma alternativa da esquerda para o Brasil?

Chegado o fim do primeiro turno das eleições no Brasil, começamos a refletir com resultados das votações em mãos. Para que vem acompanhando as votações mais em geral, o que marcou essa reta final foi o declínio de Marina Silva (PSB) nos últimos dois dias e a ascensão de Aécio Neves (PSDB), que foi junto a Dilma Rousseff (PT) para o segundo turno das eleições presidências. À esquerda dos candidatos dominantes, houve uma grande expectativa interna no Brasil e também aos que acompanhavam as eleições em outros países se haveria uma expressão eleitoral dos anseios de junho de 2013, quando das massivas mobilizações nas ruas.

O que já está fora de dúvidas é que no Brasil não temos nenhum “fenômeno†da esquerda 1: as candidaturas presidenciais ficaram com votações muito reduzidas (seja do PSOL, PSTU, PCO ou PCB). No entanto, entre essas candidaturas relativamente se sobressaiu o nome de Luciana Genro, candidata do PSOL nas eleições, com 1,55% dos votos (que ainda que não marque um fenômeno, ficou em quarto lugar). Frente a essa votação, caberia indagarmos: Luciana Genro representava uma alternativa da esquerda para o Brasil? Apontou-se um caminho para trilharmos para além das eleições?

Por que Luciana Genro se tornou conhecida?

O crescimento do PSOL (aproximadamente 0,6%) na última semana, embora (relativamente) pequeno em números absolutos, expressou-se com alguma força em setores da juventude, sobretudo nas universidades. Mesmo num setor dos trabalhadores em nível nacional, ainda que não necessariamente votando, Luciana se fez conhecida e ganhou alguma simpatia. Em certo sentido, ficou bastante marcado nos debates com Luciana sua defesa das liberdades democráticas para os LGBTs e contra a homofobia, entre outros temas.

Esse crescimento teve como motor os “enfrentamentos†que teve Luciana: primeiro contra Aécio Neves em um dos debates, depois numa polêmica com o reacionário candidato Levy Fidelix (PRTB – que teve uma postura abertamente homofóbica em uma das discussões) e finalmente com discussões contra “a Globo e os poderosos†no último debate. Ou seja, frente ao regime democrático brasileiro, que vem tendo influência cada vez maior de setores conservadores da Igreja, de ruralistas, empreiteiras etc., a reivindicação de direitos democráticos elementares deu rápida projeção para Luciana Genro e, em relação aos demais candidatos, a fez aparecer como candidatura da esquerda.

Mas qual a estratégia por trás do discurso de Luciana Genro?

Partindo de considerar muito importante esses debates, é preciso notar uma contradição: o candidato Eduardo Jorge, do Partido Verde (um partido aliado aos dominantes na política nacional), foi o primeiro a defender de modo enfático nos debates a legalização do aborto e das drogas. E encontraram um amplo espaço, com bastante protagonismo desde o primeiro debate; ou seja, desgraçadamente não foi heroísmo de nenhuma candidatura da esquerda esse debate no início, mas um debate democrático elementar e necessário, que até o PV pode fazer.

Luciana Genro começou muito apagada, discutindo de modo abstrato contra o “capital financeiro†, e depois ajustou seu discurso frente a imensa base que existe no país para uma defesa àesquerda em questões como essa. Nesse sentido, de certa forma Luciana Genro se "adaptou" aos anseios de uma vanguarda da juventude que esperava uma postura mais firme da esquerda.

No entanto a estratégia do PSOL para se fazer uma alternativa (para além das eleições) se mostra muito débil também nesse ponto. A luta pelas questões LGBTs e demais questões democráticas não se fizeram em base a uma militância ativa, nos locais de trabalho e universidades, mas baseou-se nos debates eleitorais, uma campanha “midiática†(o que é importante para a denúncia, mas deve ter como iniciativa abrir uma amplíssima campanha contra a violência homofóbica no país e demais questões). Trata-se que o caminho que busca seguir Luciana Genro, como candidata do PSOL, é o da ilusão na democracia dos ricos, com uma estratégia reformista de buscar modificações por dentro desse regime (semeando ilusões de reformas parlamentares e utopias de se acabar com determinadas formas estruturais de opressão dentro do capitalismo).

Não por acaso o “discurso†de Luciana Genro vem conjunto a uma enorme contradição: a campanha dessa candidata foi financiada por um grande monopólio de supermercados, o grupo Safari. E essa fórmula de se fazer uma campanha junto a setores empresárias foi um dos principais “venenos†na trajetória da esquerda brasileira, e em suas contradições mais expressivas, fez o “antigo PT†retirar todos esses elementos do seu programa, como a questão do aborto, legalização das drogas, matrimonio igualitário, crimininalização da homofobia etc., em troca de fazer alianças para chegar ao poder.

Ou seja, fazer campanhas financiados por empresários é a fórmula "certa" para no futuro rifar essas discussões em troca de alianças para obter mais cargos, deputados e acessar esse regime democrático degradado (é o que já vemos no Amapá, com o "governo do PSOL" - vitrine de como atua esse partido - reprimindo greves, se aliando a partidos como o PSB de Marina e seguindo a Lei de responsabilidade fiscal - pagando dívidas para os banqueiros com dinheiro da população).

Não queremos apenas um discurso no momento das eleições, queremos uma resposta política para acabar no dia-a-dia, nos locais de trabalho e estudo, nas fábricas e em todos os lados, onde não estão os holofotes eleitorais, com a violência homofóbica, o machismo e o racismo (e todas as demandas dos trabalhadores), que devem vir acompanhados (além dos debates eleitorais), de campanhas ativas na base, disputando a consciência dos trabalhadores e a juventude. É verdade que frente a "lama política", o gesto de Luciana já parece bastante. Mas nós podemos e devemos "sonhar" um pouco mais, com uma grande resposta política a esses problemas, e não com a velha estratégia petista de mudanças com os empresários (já vimos onde termina na história essa proposta).

Uma candidata da classe trabalhadora, das jornadas de junho?

Além do financiamento empresarial da campanha de Luciana Genro, outro sintoma é importante para analisarmos essa candidatura: a estratégia para conseguir as demandas democráticas estava completamente desvinculada de dois fenômenos políticos fundamentais no país, a saber, as jornadas de junho de 2013 e a maior onda de greves operárias dos últimos 20 anos, em maio de 2014.

Todo o protagonismo dos jovens em 2013 que saíram as ruas pedindo um melhor transporte público e questionando também a educação e saúde poderia ser uma imensa base de Luciana Genro para mostrar "quem poderia de fato fazer essa mudança". Ademais, a greve dos Garis do Rio de Janeiro, que emocionou distintos setores dos trabalhadores, as greves de rodoviários nacionais e do metrô de São Paulo e, finalmente, a vitória dos trabalhadores da USP nas Estaduais Paulistas, parece não contaminar nem um pouco os ânimos de Luciana Genro.

A esquerda de modo geral parte de que as eleições são um terreno dos dominantes. O fundador do socialismo cientifico, Karl Marx, disse certa vez que o único direito dos trabalhadores nas eleições burguesas é o "de escolher, de quatro em quatro anos, quem serão os seus futuros opressores". Passadas as eleições, voltamos as dificuldades, sem televisões para fazer campanha, sem noticiais nos grandes jornais, sem os holofotes: as eleições legitimam a dominação dos empresários e banqueiros. Justamente por isso uma candidatura de esquerda tem de aproveitar esse momento para denunciar toda a ilusão dos trabalhadores nesse regime político, e em qualquer solução que possa vir das mãos dos poderosos.

A única forma consequente de se fazer isso seria utilizar as eleições para fazer uma grande vitrine das lutas operárias e da denúncia dessa democracia degradada (e a partir daí relacionar com a violência LGBT, por exemplo), para mostrar que apenas os trabalhadores organizados em suas lutas, em fortes campanhas democráticas, poderão dar um basta na exploração que sofrem e também nas formas de opressão. Para avançar nesse sentido seria necessário não "candidatos midiáticos", mas ligados organicamente as bases de trabalhadores, com campanhas ativas, que fizessem desse momento uma expressão efetiva de suas lutas e de sua ação política, uma coisa que num partido como o PSOL e com a sua política, Luciana Genro não poderia chegar nem perto de fazer.

Para esse sentido, é preciso notar que Luciana Genro passou longe de ser uma candidatura dos trabalhadores, e sem uma estratégia de esquerda clara nas questões de liberdades democráticas (que diferisse da de Eduardo Jorge, por exemplo) para apontar uma solução real para a exploração dos trabalhadores e as formas de opressão.

A todos os que votaram contra a homofobia, o machismo, o racismo, que consideramos um gesto positivo nas eleições, convidamos a abrir o debate conosco de uma nova alternativa política (um partido revolucionário) que possa dar uma resposta radical, com uma política e uma estratégia contra as opressões e as formas de exploração capitalistas, tendo as trabalhadoras e trabalhadores como sujeito dessa transformação e apontando a perspectiva de uma revolução social no país, para darmos uma resposta "na raiz" da mazelas sociais desse sistema.

1- Com exceção do Rio de Janeiro, onde o PSOL alcançou bons resultados a serem analisados em outro artigo.

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