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DIRETO DE MADRI: segundo dia de "marcha negra" dos mineiros do Estado Espanhol sua luta comove Madri e o Estado arma a repressão

11 Jul 2012   |   comentários

Hoje, 11 de Júlio de 2012, 500 mineiros de Astúrias, Leon, Valencia, Aragon e Castilla-La Mancha pararam o coração financeiro da capital do Estado Espanhol. Este grande ato, começou na realidade ontem, quando a cidade viu surgir no horizonte centenas de pequenas luzes que vinham acompanhadas de uma cantoria entoada a plenos pulmões: "morreram muitos mineiros, vê lá, vê lá companheiro vê lá, vê lá como venho eu. Trago a camisa vermelha, com o sangue de uma camarada, vê lá companheiro vê lá, vê lá, como venho eu". Milhares e milhares de madrilenhos, muitos jovens, crianças, trabalhadores, idosos receberam as luzes amarelas no Arco da Vitoria, em Mancloa, com um gigantesco coral de vozes: Madri obreira, apóia os mineiros! Libertos da claustrofobia cotidiana do trabalho quente e úmido em baixo da terra desfilaram a céu aberto em Madri derrubando a cidade toda em lágrimas, um momento épico. Todos se davam fortes abraços, lançavam beijos e saudações de agradecimento para a população que os recebiam com carinho, uma solidariedade de classe que nunca havia visto em minha vida. Saíram de suas províncias para se encontrar em Madri, mas não vieram sozinhos, trouxeram consigo o exemplo de luta para um país em desespero, afogado pela austeridade.

A marcha de hoje selou esse importante passo dado pelos bravos mineiros. Não bastava ficar isolados em suas províncias sem vir tocar no coração da besta. Sabendo o terreno onde pisavam, se refizeram de todo o cansaço de uma longa jornada; a beleza e emoção do dia anterior se refizeram mais intensos, hoje os abraços eram mais fortes, lágrimas sobrando em olhos alegres, cantos incessantes e foguetórios dignos de "dinamitas" de 1934. O corredor imenso que se formou atrás dos mineiros se constituía de uma imensidão de pessoas orgulhosas de marcharem ombro a ombro com seus heróis. Esses sabiam que precisavam conquistar aliados, e a imensa receptividade e solidariedade já mostram sua grande potencialidade.

Não é novidade para ninguém que o Estado Espanhol está afogado em meio ao turbilhão econômico internacional. Possuem uma dívida pública impagável equivalente a 95% de seu PIB e um a cada quatro espanhóis está desempregado. Este cenário de desespero para população trabalhadora é cada vez mais agravado pelos sucessivos cortes de orçamento com as tesouradas de Rajoy. Não se fala mais nada por toda Madri, em cada capa de jornal ou em cada roda de conversa, as incertezas sobre o futuro são colocadas àexaustão de infinitas análises.

E justamente hoje com os mineiros as ruas lutando para salvar seus empregos e suas vidas, o governo da salvação nacional dos banqueiros anunciou que arrancaria ainda mais sangue dos trabalhadores, com o presidente, em rede nacional, anunciando no Congresso sua fidelidade incondicional a Bruxelas e aos principais bancos europeus através de seu novo pacote de medidas econômicas. Rajoy, aplaudido pela sua bancada parasitária, com a ousadia de afirmar que são medidas "dolorosas, mas necessárias" implementou um ataque histórico a juventude e classe trabalhadora espanhola. Nada menos que as 32 condições exigidas por Bruxelas para garantir os resgates de seu sistema financeiro. Sem qualquer pudor, ou manobra para mascarar sua brutalidade, disse com todas as palavras que vai privatizar todo o setor estatal, aumentar o regime de trabalho, colocar fim a conquistas trabalhistas, aumentar o imposto sob os artigos de consumo e demitir os setores "desnecessários" do funcionalismo público. Por trás de seu nojento balbucio parecia ser possível ouvir as gargalhadas de Merkel e dos principais monopólios do mundo se deleitando pelos novos espaços conquistados para seus capitais.

Porém, há uma pequena luz amarela que pode alterar esses planos da Troika. Já se anunciaram ao mundo com 45 dias de uma duríssima greve, "estos son, aqui estan, los que sacan el carbon!". Com uma imensa criatividade e combatividade estão se enfrentando com a polícia e o governo para não perder a única coisa que os resta, seu emprego. Rajoy já anunciou que cortara 63% do repasse ao setor do carvão, o que resultara evidentemente em máximas demissões. Compreender que somente com o controle da produção em suas mãos é que se pode garantir seus empregos, suas vidas, ainda não se apresenta como uma política consciente desse belíssimo processo, não por culpa de desses mineiros lutadores evidentemente, mas da burocracia da UGT e CCOO que querem salvar antes os capitalistas, para depois pensar nos operários. À medida que a situação se polarize, quando os capitalistas começarem a sentir o solo sob seus pés ceder, esta burocracia será engolida por esses que já avisaram que vieram para vencer e não tentar remediar o inconciliável.

Foguetes, barricadas e agora a "Marcha Negra" tomando a capital são uma pequena demonstração da intima poesia desses mineiros. Mas não são simplesmente esses arsenais que fazem a burguesia espanhola se aterrorizar com eles, mas o fato de que esses mineiros estão se tornando o símbolo e referencia operaria da batalha contra os planos de ajuste. A presença máxima da juventude do 15-M nesses dois dias de marchas, olhando a luta dos mineiros como um exemplo a ser seguido e, além disso, reconhecendo um aliado fundamental para travar suas batalhas, faz sem dúvida a burguesia espanhola se cagar. Se essa experiência se aprofunda e se generaliza, aí não há mais o que fazer, a ação dos trabalhadores e a juventude que anseia pelo futuro colocarão esse equilíbrio capitalista dos bancos e dos monopólios em xeque.
Justamente para evitar essa lição fundamental, o governo se negou a negociar e armou até os dentes seu aparato repressivo para liquidar seu pesadelo. Milhares de policias em seus grandes carros despejaram bombas e tiros sob os lutadores que avançavam até o Ministério do Trabalho. A resposta também foi enérgica, bombas, pedras e bandeiras jorravam como cachoeira em cima dos "assassinos", como chamam aqui a policia herdeira de Franco. O sinal já foi dado e os mineiros deixaram sua mensagem, se a situação não se resolve então é guerra, ou como cantavam: "lá próxima visita será com dinamita".

Há pouco falavam que a classe operária tinha deixado de existir, que essa época de revoluções havia passado, que a historia já havia alcançado seu cume. Mas os punhos cerrados se mantêm com firmeza, sua luta inspira milhares. As lágrimas se converteram em bombas e se lançaram contra polícia, os abraços agora são escudos de proteção, os cânticos de guerra. Mineiros, obrigado por iluminarem o caminho da luta.

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