Sábado 20 de Julho de 2019

Internacional

QUANDO AVANÇA A CONSCIÊNCIA

Conversa com as operárias e operários de Kraft

23 Nov 2009 | No Camping municipal de Neuquén, logo após um dia de intenso debate político, a delegação dos três turnos dos trabalhadores de Kraft fala distendida mas sem ocultar a comoção que lhes tem causado a experiência da viagem. Falam de tudo: do impacto de haver conhecido Zanon, de confraternização, do programa e das resoluções votadas e, entre tudo isso, de como suas vidas estão mudando.   |   comentários

O Gênio de Kraft

São jovens, majoritariamente jovens, e a prova fiel de como a agudização da luta de classes pode fazer avançar a consciência a passos agigantados. Eles parecem compreendê-lo, mas, entretanto ainda não deixam de sair do assombro.
Uma companheira despedida conta entre risos que seus filhos estavam jogando um jogo de Internet que busca a personagens famosos. “E a quem buscavam?... àMamãe!†.
“Não somos famosos, somos os protagonistas desta luta†, conclui sem deixar de sorrir.
De uma luta gigante que já ficará inscrita na história combativa da classe operária Argentina.

Mulheres orgulhosas

A presença da delegação de Kraft ressaltou sobre o resto. Foram sua operárias as que intervieram para que na Plenária estejam representadas as mulheres trabalhadoras. Contam que ao princípio não se atreviam a falar, mas que logo todas queriam fazê-lo. Estão orgulhosas disso e de haver compartilhado esse momento com uma companheira do sindicato ceramista. Nilda é uma nova delegada da Comissão Interna que se compromete a lutar porque os direitos de seus companheiros sejam respeitados. Logo fecha a cara e diz: “estou batalhando para que o primeiro choripan [algo parecido com um pão com lingüiça assada, tradicional na Argentina] seja dado às mulheres†.
Todos rimos.
Outra companheira que falou na Plenária se entusiasma com a idéia de fazer o próximo na zona Norte: “tem que gerar algo grande para que todos os trabalhadores que não tem representantes nem organização a tenham, e aqui o estamos começando a fazer†.

Já não se volta

Para além das anedotas, surpreende a naturalidade com que falam de política. Discutem as posições da esquerda e por momentos se indignam contra quem vêem que “joga para trás†.
Nota-se que estão pensando em perspectiva. “Depois de um conflito assim, em sua cabeça vês as coisas de outra maneira. Como não estar de acordo com coordenar-se e juntar-se com todos os setores anti-burocráticos?†, reflete um trabalhador.
Logo sustenta que “é necessário fazer política dos trabalhadores†. O disse recordando uma anedota: logo depois do desalojo [em Kraft], um trabalhador mais velho voltou a sua casa chorando. “Ele não sabia se era pelo ódio àrepressão ou pela emoção de ter vivido pela primeira vez algo assim em trinta anos de fábrica†.
“Como não fazer política por ele, como não fazê-la por nós mesmos?†, conclui.

Cultivar a paciência

A maioria do grupo não tinha relação entre si antes do conflito e muitos se conheceram aproximando-se aos demitidos. Sentem-se amigos. “Temos que cultivar a paciência†. E essa tolerância a projetam para o resto dos trabalhadores de Kraft. “Adentro da fábrica lhes ensinaram a ser individualistas, eles não têm culpa. Antes havia assembléias burocratizadas, ninguém podia se expressar. Agora temos que ir trabalhando de pouco em pouco para lograr a unidade da fábrica, para que todos digam o que pensam†.
Um trabalhador aclara que a fábrica tampouco voltará a ser a que foi: “antes no restaurante só se falava de futebol. Hoje também se fala de política. Os companheiros vêem que se ganha o Subte é um triunfo para todos e um impulso para seguir nossa luta†. A mesa consente de maneira unânime.
Oscar Coria lhe recorda: “Antes era você o que dizia basta de política!†. Todos voltam a rir.
Logo sério, Oscar aclara que já se vinha de um processo de politização, mas que o conflito o acelerou e sobretudo a experiência que muitos trabalhadores fizeram com a CCC [ligada ao PCR].

O regresso

Voltarão cantando como em todo o trajeto de ida: “escutem-o, escutem-o / em Terrabusi já se votou / ganhou o classismo a p... que o pariu†. E a palavra classismo lhes cai bem. Ela os ganhou, a tem assimilado na experiência de não confiar em nenhum setor patronal, em sua luta contra as correntes burocráticas, na prática da verdadeira democracia sindical ao promover a assembléia como órgão de decisão soberano.
“Dizem que estamos da cabeça...†, cantam. Melhor dito, a cabeça das operárias e operários de Kraft está mudando mais rápido do que eles jamais houvessem acreditado.

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