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Sábado 20 de Julho de 2019

Juventude

JUVENTUDE

Contra a escravidão das formas! Sobre a juventude e o "rodeio das gordas", Interunesp-2010

02 Nov 2010   |   comentários

Nas universidades públicas de nosso país, nos deparamos com fatos que expressam a degenerescência na qual está se afundando uma parte da juventude. Nos Jogos universitários inter-campi da Unesp, o Interunesp-2010, um grupo de jovens organizou um “rodeio de gordas†, que consistia em simular uma “conversa†para se aproximar de uma garota gorda e depois montá-la como se fosse um gado, e ganharia a competição aquele que conseguisse “montar†a garota por mais tempo.

Na USP, poucos dias antes, um casal de homossexuais foi agredido verbalmente e espancado em uma festa organizada pela Atlética da Escola de Comunicações e Artes (ECA), única e simplesmente por estarem abraçados. Ambos os casos nos fazem lembrar da “brincadeira†do jornal “O Parasita†, de estudantes da Farmácia da USP, que no semestre passado davam ingresso de graça a uma festa àquele que jogasse fezes em homossexuais.

Nas capas de dezenas de jornais no mundo nessa semana todo estampou-se na última segunda-feira: no Brasil elegeu-se a primeira presidente mulher do país. Dilma Rousseff, depois de um operário metalúrgico, uma mulher! Nos EUA, um negro. Na Bolívia, um indígena. Na Argentina, Cristina... Avanços no combate àdiscriminação, ao preconceito, ao racismo, ao machismo e àhomofobia? A corrida eleitoral por votos, intensificada no segundo turno, mostrou que Dilma está convencida a não dar nenhum passo no sentido de avançar com demandas históricas das mulheres e os direitos dos homossexuais. O segundo turno foi uma disputa entre Serra e Dilma pelo posto de “o candidato mais anti-aborto†.

São diversas as formas de violência contra as mulheres e homossexuais em nossa sociedade, e a barbárie desse "rodeio de gordas" é expressão nefasta da naturalização da violência contra as mulheres, um episódio orquestrado com premeditação pela internet, sem que nenhum dos agressores tenha sido punidos até o momento; assim como nada foi feito para punir os agressores uspianos. É essa juventude adestrada pelos valores conservadores, reacionários, e burgueses, que ateia fogo em índios, que espanca empregadas domésticas, que joga calouros ao afogamento, que agride homossexuais e que monta em mulheres como se fossem gado; que “brinca†com a vida dos setores oprimidos da sociedade e que mata. Essa juventude é o exército reservista da burguesia brasileira, os porta-vozes da reação. Este setor da juventude está reproduzindo, acriticamente, uma moral atrasada que só faz jogar a humanidade cada vez mais no atraso. A atividade humana, e suas opiniões ou desejos, não é natural, mas é histórica e, portanto, reflete o nível de desenvolvimento da sociedade, o quanto esta sociedade, tal como está organizada, permite aos indivíduos a sua livre expressão, o exercício da sexualidade, a reflexão sobre as relações sociais que estabelecem, o questionamento que se traduz em práticas que avancem na liberação humana do preconceito e opressão castradores. Para garantir a estabilidade de uma sociedade que oprime, que explora e escraviza milhares de seres humanos é essencial naturalizar a violência e torná-la cotidiana. É essencial ao projeto da burguesia – de manter a humanidade na miséria e escravidão – disciplinar o espírito humano, embrutecê-lo até a estupidez. Na escravidão, os negros e negras eram tratados como animais; em pleno século XXI, mulheres fora do padrão de beleza imposto socialmente são tratadas como touros. Esse o país “desenvolvido†e da “igualdade†que Dilma vai governar.

A criação de um padrão estético imposto às mulheres e a naturalização de sua imagem enquanto um objeto de consumo e prazer para terceiros também fortalece ações como a do InterUnesp. As indústrias de cerveja, como a Skol, um dos patrocinadores desse evento, explora a imagem da mulher na TV como objeto sexual. A mídia burguesa com suas novelas e programas lavam as mentes da sociedade impregnando valores e padrões que sirvam tão somente para o enriquecimento de empresários, o consumo, o adestramento de acordo com a ideologia burguesa e o adoecimento. O controle da sexualidade e dos corpos imposto no capitalismo é responsável também pela proeminência de novas enfermidades, a anorexia, a bulimia, a depressão.

A imposição por parte da classe dominante de papéis sociais considerados como "normais", "naturais" a homens (macho-alfa, chefe de família e heterossexual) e a mulheres (dona de casa, mãe, esposa submissa, heterossexual) autoriza agressões constantes àqueles que subvertem essa ordem de papéis sociais. Não àtoa, os e as homossexuais são brutalmente perseguidos como doentes, seres pecaminosos e pervertidos ou diretamente criminosos.

Enquanto um terço das famílias é sustentado unicamente por mulheres, nesse último processo eleitoral, a despeito de que as mulheres tiveram visibilidade, a valorização da família nos discursos dos então presidenciáveis teve destaque, com um apelo voltado a uma família monogâmica nuclear burguesa, com pai provedor, “macho†, viril, a mulher submissa, abnegada e altruísta, e crianças que sejam criadas dentro desses valores. O controle da sexualidade e dos corpos foi tema de destaque nas eleições, contra os direitos das mulheres e dos homossexuais. As vítimas desta política: milhões de seres humanos oprimidos, humilhados, reprimidos e explorados todos os dias.

Na Unesp, as reitorias e diretorias locais, em casos de assédios, estupros e agressões, já mostraram que não estão dispostas a romper com a lógica social corrente de opressão às mulheres e aos homossexuais deixando impunes os agressores. Da mesma maneira, Serra/PSDB e Dilma/PT, com o empurrão de Marina Silva e Cia. religiosa, ergueram um altar eleitoral sobre o sangue de milhões de mulheres que realizam abortos clandestinos, enquanto os corruptos e padres e bispos pedófilos gozam de impunidade. Dilma venceu o tucano paulista. Uma mulher, a primeira presidenta do Brasil, que vai governar para os ricos e desferir ataques aos direitos sociais, como já sinalizado que em seu governo irá atacar a previdência social. Hoje milhões de pessoas, jovens e trabalhadores na França vão às ruas para lutar contra a reforma da previdência que inclui a extensão da idade de aposentadoria, nos mostrando que é possível e é preciso lutar em defesa dos nossos direitos.

A juventude francesa deve nos inspirar não somente para lutar contra os ataques futuros, que agravam a condição de exploração dos oprimidos, mas para hoje colocar de pé uma ampla campanha contra a violência para que na Unesp, e em diversas universidades de todo país, todos saibam que na universidade onde a juventude reacionária que fez o rodeio das gordas, estudantes homens e mulheres se organizaram e expulsaram os agressores da Universidade. É preciso desde já, nos colocar intransigentemente contra humilhações e violências aberrantes. A inflexibilidade a casos como estes e uma ação decidida irá nos fortalecer para lutar para combater e transformar pela raiz a opressão das mulheres, para lutar pela revolução socialista e pelo fim da propriedade privada, rumo a verdadeira emancipação da humanidade.

Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, colocamos nossas forças, para junto do Diretório Central dos Estudantes da Unesp, dos Centros Acadêmicos, e de centenas e milhares de estudantes, organizar um grande festival cultural e político, como parte de uma campanha contra o controle do corpo e da sexualidade e contra a violência às mulheres.

Pela expulsão imediata de todos agressores e seus cúmplices! Por comissões de estudantes e trabalhadores de apuração dos casos independentes das reitorias e da polícia!

Por uma ampla campanha contra o controle do corpo e da sexualidade! Basta de violência às mulheres e homossexuais!

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