Nacional

Contra a corrupção é preciso uma resposta da classe trabalhadora

20 Mar 2015   |   comentários

Há um questionamento generalizado em todas as classes ao governo do PT e à corrupção. FOTO: Sindicato de Trabalhadores da USP - SINTUSP

No ônibus distante do centro de BH conversavam trabalhadores - maioria de serviços precarizados - sobre os atos de domingo. Na conversa se expressaram pontos de vista muito diversos entre si, como sempre tende a ser em uma conversa política, e não se chegou também a uma saída que fosse uma resposta política definitiva. Tudo ficou "no ar", depois que de repente todos pararam de falar e ficaram pensativos; até o súbito som de "tccsshhau" do freio a ar e das portas do veículo sendo abertas.

Enquanto conversavam: "A coisa mais importante para se acabar no país é a corrupção", diz um deles. Todos concordam. Inflação, perda de condições para o seguro desemprego, saúde, educação, transporte; a conversa segue. "Como os políticos vão pensar em nós se ganham mais de 4 mil reais só de auxílio moradia? Enquanto o salário todo de um professor não é nem 1500 reais..." questiona um trabalhador. "Pois é, vão tirar a Dilma e vão por outro que vai fazer as mesmas coisas". "Estas manifestações não vão dar em nada, a gente vai votar em quem depois?". "O problema é que os que foram protestar nesse domingo não estão pensando nesses problemas todos, saúde, transporte, educação, salário... eles estão pensando só neles porque andam de carro e querem algumas melhoras, mas pensando só neles mesmos, não nesses problemas importantes".

A longa transcrição acima ilustra questões para a caracterização da situação nacional após os atos do domingo.

Há um questionamento generalizado em todas as classes ao governo do PT, ao mar de corrupção que está metido (junto de todos os outros principais partidos do regime) e àsituação econômica do país. As classes médias sairam às ruas para manifestar esse descontentamento. Colocaram como eixo principal o "fim da corrupção".

O problema da corrupção está totalmente ligado aos privilégios econômicos e políticos dos empresários e seus representantes no regime de poder, a "democracia dos ricos" em que vivemos. Então esta pauta e os atos acabaram por chamar a atenção de setores massivos da classe trabalhadora e do povo pobre. Por isso a expectativa sobre o ato foi grande nos grupos de "whatsapp" e nas conversas nos locais de trabalho meses e dias antes dos atos. E as expectativas "pós atos" aumentou ainda mais.

Agora, para os que lutamos do lado dos trabalhadores, a questão é a seguinte: todo problema político exige uma "forma" de solução. A corrupção é um problema sentido por todos. Mas a "forma" de respondê-la não é uma só. Quanto aos atos de domingo, ocorreram de uma "forma" que fortalece a oposição burguesa de direita dentro do próprio congresso. Destacadamento o PSDB de Aécio Neves, que também são corruptos até os ossos.

Isso não acontece porque há um apoio político massivo da classe média a este partido e seus políticos. Não é isso, como mostram muitas pesquisas e como ficou claro a partir do momento em que estes partidos não puderem aparecer abertamente nas próprias marchas. Mas sim porque o fortalecimento destes é inevitável se a luta contra a corrupção se der desligada dos interesses sociais, dos trabalhadores e da maioria do povo.

Nesse sentido, é evidente que as direções destes atos (e por isso se fazem tão "ocultas", tentando fazer parecer um movimento espontâneo) não se colocaram em primeiro lugar desde este ponto de vista. Por exemplo, não questionam o ajuste fiscal e a união de todos os partidos dos ricos contra os interesses dos trabalhadores - interesses sempre ligados ao transporte, àsaúde, àeducação, àredução da pobreza e ao fim da opressão.

Se a "feição" de uma luta contra a corrupção for a da "sombra" dos partidos dos ricos, como foi a dos atos de domingo, então sofrerão os trabalhadores as consequências.

Por exemplo, a proposta de uma "reforma política" pode ganhar mais força neste cenário. Alguns meios de imprensa burgueses (Folha de S. Paulo, Rede Globo) estão chamando a união dos principais partidos do regime em uma espécie de "governo de coalizão" entre os partidos PT, PSDB, PMDB, PP etc. Os objetivos? Garantir o ajuste fiscal (ataque aos trabalhadores) para "salvar" da crise econômica a atual democracia dos ricos. Segundo esta lógica, a reforma política do governo seria nada mais que uma forma de "negociar", entre os próprios partidos corruptos, quem ganharia mais com esses ataques.

Ainda que há muitas contradições para isso - dentre elas a de que uma "coalização" estaria ainda mediada pela possibilidade de aparecerem mais denúncias na operação Lava Jato, que gera instabilidade política -, se se concretiza, esta seria uma situação nada confortável aos trabalhadores.

É preciso fazer "pesar" a política dos trabalhadores

Sem uma certa participação da classe trabalhadora (que é a imensa maioria da população) mesmo o regime democrático dos ricos em que vivemos hoje não pode existir.

A corrupção e todos os absurdos do poder público estão assentados principalmente sobre a exploração de toda uma classe. O poder econômico é a principal sustentação dos corruptos. Por outro lado, a miséria econômica, a necessidade de sobreviver, são os principais motivos de sujeição dos explorados. Por isso, muitos trabalhadores podem enxergam na luta contra a corrupção uma "feição" diferente desta vista nos atos de domingo. Uma que mostre que é preciso tomar a luta contra a corrupção desde uma perspectiva que responda também aos principais problemas sociais do país.

Por isso, após domingo ganha ainda mais importância e concretude entre os trabalhadores a palavra de ordem:

"Que todo político ou funcionário de alto escalão ganhe o mesmo que uma professora da rede estadual!

Que seus cargos sejam revogáveis a qualquer momento!"

A grande espectativa prévia dos trabalhadores a uma marcha contra a corrupção pode parecer para muitos um "desvio" de trabalhadores pouco conscientes. No entanto, mesmo os aspectos mais superficiais de um organismo estão ligados aos seus conteúdos mais profundos. A grande atenção dada pelos trabalhadores a temas como a "corrupção" - que é "consequência" da a exploração que sofrem os trabalhadores, e não "causa" - possibilita por parte destes um "estudo de caso" sobre a relação entre a luta política por mais democracia e a luta pela emancipação da exploração econômica. Muitos que divulgaram e apoiaram as marchas o fizeram para "experimentar" a democracia.

No entanto, todos os caminhos dados pelos ricos não poderão fazer acabar a corrupção, tampouco "aperfeiçoar" a democracia de fato.

Por isso a conclusão necessária, e que ainda está "no ar", mas certamente não na consciência da maioria dos trabalhadores, é de que só pode haver fim da corrupção e verdadeira democracia por um governo dos trabalhadores junto de todo o povo.

Está na hora de fazer pesar a política dos trabalhadores e o Esquerda Diário é uma iniciativa que pretende ajudar nesse sentido.

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