Cultura

Cinquenta tons de cinza: o desejo permitido

19 Feb 2015   |   comentários

Estreiou com grande sucesso o filme baseado no livro Cinquenta tons de cinza, um boom editorial que percorreu o mundo. Libertação sexual ou uma embalagem apresentável dos desejos feminimos?

Cinquenta tons de cinza se transformou em uma máquina de faturar: livros, filme, roupas íntimas e jogos eróticos, pacotes de hotel e um infinidade de produtos. Os sex shops de Nova Iorque viram suas vendas crescer em 40% desde o lançamento do livro, especialmente a venda de bolas chinesas (utilizadas na história) que disparou em 500%, junto com chicotes e algemas.

A primeira explosão do romance em 2011 gerou críticas de todo tipo: moralistas, positivas, negativas, a favor da exploração do erotismo feminino ou contra as práticas de sadomasoquismo e bondage (ou combinações variadas). Por exemplo, nos Estados Unidos, o Centro Nacional contra a Exploração Sexual impulsiona o boicote do filme por considerar que legitima a violência contra as mulheres; em outros países se impulsionam boicotes semelhantes. Houve várias críticas sobre o tratamento do BDSM, por confundir práticas sexuais com abuso.

Também houve algumas críticas feministas que assinalaram que a história celebra a passividade feminina em uma sociedade permeada por abusos, violência e onde existe uma linha pouco visível entre relações sexuais consentidas e forçadas (em particular nos Estados Unidos, as organizações de mulheres e organismos de Direitos Humanos denunciam o crescimento de estupros nos campus universitários).

Mas em geral, inclusive as críticas feministas mais conservadoras, assinalam um dos grandes limites desta literatura erótica “libertadora†: não questiona um só estereótipo do amor romântico e da sexualidade. Os protagonistas são brancos, jovens e heterossexuais, mantém uma relação monogâmica e Grey é bem sucedido e milionário. Com estes estereótipos, não apenas se fala das relações mais também se diz quem é “desejável†.

Existe uma ideia que percorre os meios de comunicação que diz que com Cinquenta tons... a sexualidade feminina “saiu do closet†. No entanto, muitas visões críticas se perguntam, com razão, se se trata de libertar o erotismo feminino ou simplesmente é uma embalagem apresentável para os desejos das mulheres (e um grande negócio), com a condição de que não se desvie demasiadamente do modelo patriarcal. E de alguma forma é assim, já que em nenhum momento esses moldes são desafiados. Anastasia e Christian são jovens e bonitos (ou seja, brancos, heterossexuais, de classe media/alta), tem um sexo ardente, se apaixonam e, ao final, (spoiler?) se casam e têm filhos.

A própria autora definiu seu livro como “mommy porn†(pornografia para mamães, novela romântica com sexo), ainda que tenha atravessado diversos grupos etários, sociais e de todo tipo. E é certo que as mulheres não começaram a ler literatura erótica com este livro, mas nenhum livro havia se tornado best-seller, mas sim eram livros lidos de forma “clandestina†. Cinquenta tons... se transformou em um livro aceitável, se lê nos metrôs, nos ônibus, se comenta entre amigas e companheiras de trabalho.

Mas as mulheres sempre discutiram sua sexualidade, a exploração e refletiram sobre ela. Essa discussão sempre existiu, mas sempre foi um tabu para o patriarcado, já que a negação da sexualidade feminina, sua inexistência por fora dos fins reprodutivos, é um de seus pilares. Somado a isso, a monogamia (a “derrota histórica do sexo feminino†, nas palavras de Engels), e o trabalho doméstico excluíram as mulheres do mundo dos prazeres reservado apenas para os homens.

Diferente do movimento de libertação sexual das décadas de 1960 e 1970, não existe hoje nenhum questionamento àmoral (burguesa) que decide qual sexualidade é aceitável e qual não, tampouco àsociedade (capitalista) na qual ocorrem as relações sexuais e interpessoais. Esse não questionamento facilita que qualquer “abertura†seja digerida pela moral reinante (burguesa) e ressignificada pelas ideias da classe dominante (capitalista).

Assim, todo o sexo explícito de Cinquenta tons..., o erotismo, os orgasmos e o bondage, ficam contidos em uma história que não escapa aos limites aceitáveis para a sexualidade heteronormativa (com algumas licenças, porque é 2015, claro). E, como assinalam as sociólogas Cristina Pujol e Meritxell Esquirol, ainda que “o relato se focaliza no prazer sexual da protagonista feminina, intervêm diferenças de gênero e de distinção social: Grey modela Anastasia segundo o olhar dominante, hiperssexualizando-a pelo desejo, sofisticando-a e conferindo-lhe glamour†(La Vanguardia), em outras palavras, convertendo-a simples e plenamente em um objeto de prazer. Nada mais distante da libertação sexual.

A escritora espanhola Almudena Grandes disse em uma oportunidade que o boom de Cinquenta tons... tinha mais a ver com um fenômeno de consumo (um mercado feito sob medida para as primeiras consumidoras de ficção: as mulheres) que com o “impulso emancipador†que teve a literatura erótica escrita por mulheres na década de 1980. Romances como As Idades de Lulú (Almudena Grandes) ou a poesia da nicaraguense Gioconda Belli pouco tem a ver com os chicotes e algemas de Cinquenta tons... mas são testemunhas claras do andar da revolução sexual.

Nessa literatura erótica, as mulheres são sujeitos da sexualidade, a própria experiência colocava em questão seu lugar “natural†como reprodutoras da vida, a monogamia, a heterossexualidade compulsória e inclusive o amor romântico, dando lugar a relações baseadas no respeito mútuo e no prazer.

O boom atual deixou de lado esses questionamentos, e reduziu a busca do prazer ao corpo e àexperimentação física. Vale a pena, pelo menos, se perguntar sobre esses limites da “herança†que deixaram os anos de feminismo pós-moderno e performatividade, que também transformaram o corpo em seu último (e quase exclusivo) campo de batalha, durante as décadas de neoliberalismo e restauração conservadora.

Um dos ingredientes da fórmula do sucesso (além do sexo e do romance) de Cinquenta tons... é que qualquer um pode fazê-lo. As donas de casa, as profissionais, as jovens, as velhas, todas podem ser Anastasia. O problema é que Anastasia, no fim das contas, não é mais que outra garota esperando seu príncipe encantado moderno, que foi moldado a seu gosto.

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