Cultura

Balanço da 31ª Bienal de arte de SP – parte 1

15 Dec 2014   |   comentários

Terminou a 31ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo e o saldo político foi: protestos à verba doada pelo estado de Israel, críticas de igrejas às obras expostas, censura à alguns trabalhos e alguns outros elementos que serão destacados aqui.

Terminou a 31ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo e o saldo político foi: protestos àverba doada pelo estado de Israel, críticas de igrejas às obras expostas, censura a alguns trabalhos e alguns outros elementos que serão destacados aqui.

A exposição Bienal de SP segue sendo uma das mais importantes mostras de arte contemporânea dentro do sistema hegemônico de arte no mundo. Se, por um lado, é uma das portas de entrada para muitos artistas que desejam entrar para o grande jogo capitalista das artes e projetarem-se no mercado da fetichização, por outro serve como brecha a alguns poucos artistas para expor suas críticas e reflexões estéticas, sociais, políticas. Medir tais diferenças a partir de obras individualmente ou mesmo por artistas seria complexo e mereceria uma análise mais profunda.

Entretanto, o que se pode afirmar é que o ponto nevrálgico de ligação entre arte e mercado se dá de maneira explícita logo na entrada da Bienal de SP. Assim como praticamente todas as exposições da atualidade, o que temos na entrada de cada uma delas é a ostentação dos grandes patrocinadores, pequenos patrocinadores, patrocinadores seniors, correalizadores, apoiadores, parceiros, etc. Esta ligação entre arte e mercado é histórica e hoje as grandes bienais de arte têm se demonstrado cada vez mais semelhantes às feiras de arte, ou pelo menos como funil para as feiras.

A espetacularização dos museus também amplifica esse índice, onde cada vez mais vemos museus como shoppings - com lojinhas, livrarias, restaurantes e cafés, com preços nada acessíveis àclasse trabalhadora. Um exemplo emblemático sobre isso é o grande museu do Louvre em Paris, que possui nada menos que uma loja da Apple em suas instalações internas. No caso da Bienal de SP é interessante notar que ela gerencia o Pavilhão da Bienal através de sua fundação, onde também se realiza a São Paulo Fashion Week e a SP-artes, expressões monumentais da ligação entre arte e mercado.

A lógica capitalista de transformar tudo o que o ser humano produz em mercadoria, no caso das artes se intensifica por meio das supervalorizações das obras de arte que possuem valor agregado tanto do artista/marca como das instituições e agenciamentos financeiros que as promovem. Casas de leilões, bancos, empresários, colecionadores, marchands e outros segmentos faturam altas cifras todos os anos com o mercado da arte. Há obras que valem milhões de dólares: tanto de artistas já consagrados, como Jackson Pollock e Francis Bacon que tiveram suas obras vendidas na faixa dos 140 milhões de dólares nos últimos anos, ou mesmo alguns brasileiros, como Vick Muniz, Beatriz Milhazes e Adriana Varejão, que fecham ano a ano alguns tantos milhões. O caso mais curioso na atualidade foi a carcaça de tubarão em decomposição, do artista Damien Hirst, comprada por 12 milhões de dólares por um banqueiro nova-iorquino.

Tais relações econômicas deflagram como o sistema capitalista opera a partir da exploração e dominação de qualquer tipo de produção humana, seja na indústria, com baixos salários e péssimas condições de trabalho, seja nas artes, com lógicas de desvio explícito de dinheiro onde uma pintura pode valer mais de 100 milhões de dólares.

De onde vem esse dinheiro e como isso ocorre? Muitas explicações podem ser feitas a respeito disto. Tomando como exemplo a Bienal de arte de SP, que contou com verba de mais de 20 milhões, tem-se um panorama bem amplo das negociações capitalistas no sistema da arte. Essa verba vem de empresas, órgãos públicos e instituições diversas, apresentando as ligações políticas e econômicas que mantém a população explorada e oprimida: Ministério da Cultura do Governo Federal, Governo do Estado de SP, Banco Itau, Samsung, Gerdau, Instituto Votorantim, Petrobras, AES Eletropaulo [1]. Teve até dinheiro do estado de Israel, e sobre esse financiamento houve protestos e críticas de mais de 50 artistas da Bienal.

Alguns dias antes da abertura da mostra, 55 artistas assinaram uma carta endereçada àBienal na qual questionaram o dinheiro do estado de Israel: “Numa época em que o povo de Gaza volta para os escombros de suas casas, destruídas pelo exército israelense, não sentimos que seja aceitável receber patrocínio cultural israelense. Ao aceitar esse financiamento, o nosso trabalho artístico exibido na exposição é prejudicado e, implicitamente, usado para legitimar agressões e violação do direito internacional e dos direitos humanos em curso em Israel. Rejeitamos a tentativa de Israel de se normalizar dentro do contexto de um grande evento cultural internacional no Brasil†.

A resposta do grupo curatorial foi de apoio ao questionamento dos artistas e confirmaram que “O financiamento, seja ele estatal, corporativo ou privado, molda de maneira fundamental a forma com que o público recebe o trabalho de artistas e curadores†[2]. No entanto, tal concordância não alterou a situação colocada pelos artistas e muito menos colocou em xeque os pilares do jogo capitalista.

Em entrevista àrádio CBN, o cônsul de Israel no Brasil afirmou que é preciso separar política de cultura: “Isso não se trata de política. Esperamos que se encontre uma solução para a participação de todos.†[3]

A solução para o conflito foi elaborada a partir do dialogo entre artistas e Bienal. Segundo os artistas: “Após negociações coletivas, a Fundação Bienal de São Paulo se comprometeu a desassociar claramente o financiamento israelense do financiamento total da exposição. O logo do Consulado de Israel, que havia sido apresentado como patrocinador master do evento, agora será relacionado aos artistas israelenses que receberam aquele apoio financeiro específico. Essa transparência será aplicada a todos os financiamentos nacionais para artistas na Bienal.†[4]

Ou seja, muito simples, o dinheiro enviado pelo estado de Israel foi separado do restante. Oi?! Alguns artistas receberam notas com o carimbo sionista e outros não? Será que algumas notas apresentavam manchas de sangue e outras não? Primeiro, o dinheiro de Israel se manteve na verba final e essa “transparência†não significou nada concretamente e, segundo, não houve nenhum questionamento aos financiamentos advindos da exploração capitalista que também mata todos os dias e estavam lá com seus logotipos ostentados: Itaú, Gerdau, Samsung,... O massacre que aconteceu e acontece há anos na Palestina é fruto da lógica capitalista em sua expressão mais perversa. Não é possível dissociar o estado de Israel dos Estados Unidos assim como não dá pra dissociar os ataques àPalestina do capitalismo.

A lógica de conciliação de classes impera no mundo das artes e normaliza a opressão e exploração capitalistas. Artistas falam da miséria da vida e viram marcas valiosas em galerias, leilões, museus, bienais. É preciso superar essa contradição e lutar por uma arte revolucionária e independente.

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