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Atilio Borón e a miséria do "voto útil" em Dilma

25 Oct 2014   |   comentários

Polêmica com o artigo em que o intelectual argentino Atilio Brón defende o voto útil em Dilma como "mal menor" frente ao PSDB.

Em um recente e extenso artigo publicado no blog Desmentindo os Reacionários, Atilio Borón, busca "demonstrar o grave erro em que se incorreria", diante do concorrido segundo turno eleitoral no Brasil, se optar pelo voto nulo ou em branco ao invés do voto em Dilma. Alarmado pelo empate técnico entre a candidatura do PT e seu concorrente do PSDB, Borón tenta colocar argumentos que buscam ganhar algum voto, em base a comparações históricas ridículas e uma tentativa de fazer digerível (ao não poder o embelezar pela esquerda) o voto em Dilma.

Borón inicia seu artigo desenvolvendo longamente como a política ultraesquerdista dos Partidos Comunistas nos anos 1930 na Alemanha desarmou um enfrentamento ao ascenso do nazismo. Essa extensa apresentação serve para advertir às organizações da esquerda sobre as consequências que poderia trazer a abstenção e não optar pelo voto em Dilma diante de um possível triunfo de Aécio Neves nas eleições. Então, será que Aécio é um Hitler encoberto? É obvio "que Aécio não é Hitler" diz a nota.

Então, no Brasil, estão abertamente em disputa as forças da revolução e contrarrevolução como na Alemanha? "Por suposto" que não é isso, nos diz o autor. O único motivo pelo qual se utiliza esta grosseira comparação histórica entre a Alemanha revolucionária dos anos 30 e o segundo turno eleitoral brasileiro é para dar um verniz de reflexão estratégica contra um suposto "ultraesquerdismo". Não é casual que utilize Marx, Lenin, Trotsky ou Gramsci buscando "autoridade", já que os argumentos que Borón utiliza para apoiar o voto em Dilma "afundam em água", como o Titanic.

O principal argumento do cientista político argentino se reduz a que o triunfo de Aécio Neves significa a volta da "versão dura do neoliberalismo". Para evitar isso, seria necessário votar no PT ainda tendo em conta "que na sua triste involução passou de ser uma organização política moderadamente progressista a um típico ’partido da ordem’, ao qual o adjetivo de ’reformista’ fica grande", segundo Borón. Baseado sobre esse pilar, Borón repete os argumentos que buscam mostrar Dilma como o "mal menor" e a única forma de evitar o avanço de uma direita que, com o triunfo no Brasil, avançaria sobre o continente.

O autor rebusca os argumentos para evitar dizer claramente no artigo que são as políticas levadas adiante pelo PT, ou como gosta de dizer Borón, a transformação do mesmo no "partido da ordem", que acentuaram a crise do lulismo e fortaleceram a ameaça de uma direita renovada. Muito menos toma nota das Jornadas de Junho de 2013 que mostraram a crise de representatividade, ou como as dificuldades eleitorais de Dilma mostram a deterioração das bases econômicas que melhoraram as condições de vida dos brasileiros nos últimos anos; o choque entre as aspirações geradas pelo lulismo e os limites impostos pelos problemas estruturais do país.

Isto não é uma particularidade do Brasil, é parte do declínio e fim dos ciclos dos governos pós-neoliberais. Isto é possível de se ver na Argentina, onde também aparece uma direita "renovada" que procura e promete manter o mais sentido dos planos dos governos atuais. Este avanço das forças de direita surge diante do próprio giro àdireita dos "governos progressistas" e, como demonstraram os debates entre Dilma e Aécio, seus programas não diferem substancialmente.

Dar conta abertamente deste processo equivale a reconhecer que o PT no governo não só foi se "moderando", senão que se transformou no que garantidor dos grandes negócios capitalistas e o que, frente a deterioração das condições econômicas do gigante Latino-americano, se prepara para aplicar o ajuste, não sem enfrentar resistência. Estes elementos emergiram na campanha eleitoral: os escândalos de corrupção na Petrobrás, a crise dos indicadores econômicos e o anúncio do ingresso em uma "recessão técnica". Além do aumento da conflitividade operária no pós-Junho de 2013.

Reconhecer o giro a direita que vem realizando o PT no governo equivaleria jogar pelos ares os "conselhos políticos" dados por Borón de "aproveitar os quatro anos restantes para reorganizar o campo popular desorganizado, desmoralizado e desmobilizado pelas políticas do PT. E submeter o segundo governo de Dilma a uma crítica implacável, a empurrando-o ’desde baixo’..."

O "voto útil" ou o "menos mal", longe de permitir "reorganizar o campo popular" não pode mais que gerar expectativas em um PT que já não se pode recriar, e que é parte fundamental de um regime político que foi sacudido e questionado nas ruas durante as Jornadas de Junho. Levaria a desarmar a experiência que os trabalhadores e os jovens começaram (para além das urnas onde a visão de Borón não parece chegar) nas ruas desde Junho até hoje.

Contrariamente às conclusões de Atilio Borón, para enfrentar o avanço da direita, o que se trata é de fortalecer a organização e disposição de luta dos trabalhadores e da juventude. Construindo uma alternativa política dos trabalhadores que retome o caminho das Jornadas de Junho e das greves recentes. Assim, as conclusões de Lênin, Trotsky ou Gramsci que Borón gosta de utilizar, não serão meros acessórios para embelezar ao PT e "sua deplorável capitulação frente às classes dominantes do Brasil, sua incapacidade para compreender a gravidade da ameaça imperialista que floresce sobre seu país - o mais rodeado de bases militares norteamericanas de toda a América Latina! - e o abandono de seu programa original", como o mesmo tem que reconhecer.

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