Internacional

As vidas dos negros importam: noite histórica em Nova Iorque

15 Dec 2014   |   comentários

No sábado milhares tomaram as ruas em Nova Iorque exigindo justiça aos negros vítimas da brutalidade da polícia. O Washington Post fala em 25mil presentes, enquanto isto os organizadores da manifestação falam em 50mil. Estes milhares foram acompanhados por outros milhares em várias cidades em todos os EUA – como Oakland e São Francisco na Califórnia, Chicago, Austin, no Texas, em Washington entre várias (...)

A concentração da manifestação foi no tradicional parque da Praça Washington. A maioria dos presentes veio em grupos de amigos – jovens e velhos, negros, brancos, latinos, asiáticos, com e sem deficiências físicas. Havia alguns grupos organizados como o ISO, Socialist Action e sindicatos, incluindo a central sindical AFL-CIO. A manifestação era liderada por familiares dos mortos pela polícia. Os familiares seguram uma faixa “Black lives matter†(Vidas negras, importam). Outro grupo próximo àcabeceira do ato carregava fotos que quando juntas formavam os olhos de Eric Garner.

Diferente de manifestações anteriores a concentração de policiais era bem menor. Mesmo com os helicópteros voando acima da manifestação esta presença policial contrastou fortemente com a repressão ao movimento Occupy Wall Street. Ao contrário daquele momento quando a policia fez diversas prisões, desta vez não houve detenções confirmadas. Mesmo assim havia receio por parte dos manifestantes, a última manifestação havia sido reprimida ali com canhões sonoros, e muitos portavam protetores auriculares.

Na longa manifestação, que chegou a durar quatro horas e meia em seu trajeto oficial, mas que terminado este trajeto, mesmo assim milhares ainda seguiram em manifestação e chegaram a bloquear a ponte Brooklyn e só foi terminar a uma hora da manhã, houve adesões de pessoas que estavam bebendo na rua no tradicional dia de bebedeiras natalinas, o Santa Con. Fantasiados de papais noéis os participantes desta festividade aderiam a manifestação entrando na mesma com seus punhos erguidos. Pessoas procuravam cartazes para tirar fotos. Gritos nas manifestações ecoavam as reivindicações de justiça, de indiciamento e prisão dos policiais, e alguns destes gritos se dirigiam a toda àpolicia. Por exemplo, um deles era “como se soletra racista? NYPD†. [NYPD é a sigla em inglês para a polícia de Nova Iorque – nota do tradutor].

Apesar da manifestação atravessar vários bairros ricos, como a cara região do Noho, não se viu animosidade contra a manifestação, como ocorreu em outras cidades. Ao atravessar este bairro, com suas caras lojas decoradas para o Natal, mais uma contradição do capitalismo ficava patente. Enquanto havia gente para comprar em lojas caras, os negros pobres mortos pela polícia não poderiam. E, uma parcela dos negros que ocupavam as ruas naquele sábado, também nunca poderiam estar naquelas lojas.

Um elemento que subjaz as manifestações contra a violência policia é a crescente disparidade nos salários e rendimentos dos negros e brancos. Esta diferença cresceu desde a recessão em 2008. Enquanto o rendimento médio de uma família negra é de 13mil dólares, em uma casa de brancos é de 141mil dólares. Este elemento não deixou de estar presente na entrevista que a esposa de Eric Garner deu logo após o não indiciamento do policial. Ela respondeu que “não perdoo o policial, e que enquanto ele continua trabalhando, continua passando o natal com a família, continua tendo um contracheque, tendo o que dar para as crianças. Já meu marido está enterrado a seis pés e eu me virando para dar o que comer para as crianças.â€

Uma grande indignação que precisa ser organizada

Esta manifestação mostrou como uma parcela da população já está dizendo basta as injustiças em que vivemos, e ve as ruas como a maneira de expressar sua raiva deste “sistema†. A massividade desta manifestação mostra um salto na consciência de raça em um país que em 2008 com a eleição de Barack Obama tinha declarado o “fim das fronteiras raciais†. Não havia um cartaz em apoio a Obama em toda esta manifestação, pelo contrário, muitos o criticavam, e criticavam seu programa de colocar câmaras nos corpos dos policias como resposta a estas manifestações.
Porém ao mesmo tempo que esta manifestação mostra esta força ela também mostra um limite, uma falta de plano para se desenvolver. Um menino de cerca de 13 anos criticava em um restaurante popular esta situação, ele dizia, “fomos para rua por Kimani, Trayvon, agora, e aí?†. A polícia não deixará de matar negros por causa destes protestos ou porque terá câmeras como sugeriu Obama.

Então por onde esta indignação pode se desenvolver? Poderia ela ser levada a fazer experiência e desenvolver um plano que questione a democracia burguesa americana e as forças policiais que a protegem?

Uma grande manifestação massiva que não gera mudanças, conquistas de verdade, pode gerar apatia, individualismo, desmoralização. É o papel de um partido político revolucionários e dos trabalhadores conectar os pontos isolados: mostrar aos manifestantes que faz falta um plano para unir-se com os trabalhadores para derrotar tanto a polícia como o capitalismo. Um partido como este buscaria articular o slogan “Black lives matter†com demandas concretas que coloque o governo contra a parede para atender a demandas mais urgentes da população negra: unir e articular “black lives matter†com a reivindicação de demandas mínimas que mostrem que a vida dos negros importa, como o salário mínimo de 15 dólares, e moradia pública de qualidade. Há evidentes demonstrações cotidianas como para o Estado e para o capitalismo as vidas dos negros não importam – não só frente aos assassinatos policiais – mas na má qualidade da moradia pública, no baixo salário mínimo, na horrível educação pública, etc.

As manifestações já são um grande avanço na consciência de centenas de milhares de americanos, mas para manter este movimento e momento é necessária uma esquerda organizada e revolucionária de verdade. Esta esquerda deveria mobilizar as pessoas a partir dos locais de trabalho e estudo, pois a energia pode se dissipar, e nós continuamos dia a dia em nossos trabalhos e escolas. É justamente nestas estruturas permanentes de nosso cotidiano que podemos fazer uma imensa campanha para lutar por demandas que mostrem que realmente as vidas dos negros importam.

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