Nacional

As eleições e a falta de alternativas

05 Oct 2014   |   comentários

Como eco das manifestações, a palavra mudança está em todas as campanhas. Apesar disso, é geral o sentimento de falta de alternativas. As demandas de junho e a grande insatisfação com o sistema político não encontram expressão nestas eleições.

Como eco das manifestações, a palavra mudança está em todas as campanhas. Apesar disso, é geral o sentimento de falta de alternativas. As demandas de junho e a grande insatisfação com o sistema político não encontram expressão nestas eleições.

Nas vésperas da eleição, todos os cenários estão abertos. A disputa está acirrada e tensa entre os três principais postulantes. Tanto Dilma Roussef pode ganhar no primeiro turno, como Aécio Neves do PSDB pode desbancar Marina Silva que surgiu como a grande novidade das eleições, e garantir a segunda vaga em um provável segundo turno. Nas ruas e nos locais de trabalho, no entanto, nenhuma campanha empolga. É com grande ceticismo que se escolhe o menos pior para votar. Marina Silva, que de inicio conseguiu se apresentar como uma alternativa possível perdeu o impulso inicial. Perdeu justamente na medida em que foi somando apoios tradicionais, entre banqueiros e setores da oposição de direita ao lulismo.

Esse sentimento geral de ceticismo com o sistema político é filtrado em alguns dados das pesquisas eleitorais. O mais utilizado é o que indica que mais de 70% dos eleitores querem mudanças no próximo governo. O que intriga os analistas é que mesmo aí, Dilma aparece com 30% das intenções de voto. O sentimento de mudança é amplamente majoritário, mas na falta de alternativas a candidata do PT ainda leva a melhor como a “menos pior†.

Propostas de reforma política, para um regime incapaz de se renovar

A agenda discutida pelos três candidatos, está distante das demandas de junho. Dilma e Aécio trocam acusações sobre corrupção e até Marina entra na roda das denuncias pelo tempo em que foi ministra de Lula. Um jogo de soma zero, mas que reforça a insatisfação com o sistema político. Os temas da reforma política e do transporte foram praticamente esquecidos. Transporte, saúde e educação, quando aparecem é nas promessas de novas obras. Não fosse a retórica de mudança que permeia o discurso de todos os candidatos e as apropriações demagógicas de alguns temas das manifestações, pareceria que as eleições ocorrem em outro país. Não naquele que foi as ruas em 2013.

Depois de tudo, o único setor tradicional que levanta como bandeira central uma agenda de reforma política são os movimentos sociais e sindicais petistas. Mas que não impacta no discurso dos candidatos. Neste mês de setembro foi feito pela CUT e movimentos sociais um plebiscito por uma assembleia constituinte exclusiva para a reforma política. Segundo os organizadores, contou com mais de sete milhões de votos. O argumento central é que com o atual sistema político, dominado por partidos sem ideologia e que se movem por cargos e verbas, é impossível ir além no projeto de mudança que o PT teia iniciado em 2002. Mais do que uma proposta concreta, esse plebiscito funciona como linha auxiliar da campanha pela reeleição de Dilma.

Na pratica, a proposta em pauta mudaria muito pouco do atual regime. O principal ponto levantado pelos sindicatos petistas é o financiamento publico de campanha. Nada que realmente ataque qualquer dos interesses da casta política nem que sirva sequer para uma auto-reforma do atual sistema político.

Por que a esquerda não se constitui como alternativa

O quadro de desanimo se completa com o fato de que nenhum dos partidos àesquerda do PT consegue dar vazão a insatisfação existente. O 1% das intenções de voto que tem a candidata do PSOL Luciana Genro está longe dos 6% que conseguiu Heloísa Helena em 2006. Nenhum dos outros partidos de esquerda que tem candidaturas, PSTU, PCB e PCO, passam de 1% nas pesquisas. Já existe um debate, inciado por um dos principais intelectuais vinculados ao PSTU do por que a esquerda seria mal votada nestas eleições.

Um dos fatores, que esteve presente nas próprias manifestações, é que mesmo a esquerda opositora é identificada com o PT. Sua pratica anti-democratica nos sindicatos e organizações estudantis, seu oportunismo eleitoral, sua incapacidade de transformar as lutas dos trabalhadores e da juventude em grandes causas populares. Tudo isso impede que realmente se apresentem como algo distinto. Já que a esquerda opositora mostra sinais de adaptação àordem mesmo estando na oposição, por que deixar de votar no pragmatismo petista?

É assim, carente de alternativas, que vão às urnas neste domingo a juventude e os trabalhadores que desde junho de 2013 estão protagonizando a maior onda de mobilizações da história recente do país.

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