Debates

Arte e internacionalismo

21 Feb 2015   |   comentários

A própria confusão existente entre a contribuição dos componentes contraculturais assumidos, em parte, por militantes trotskistas nos anos setenta e os esquemas comerciais da indústria fonográfica, mostra que a memória do trotskismo em seu âmbito cultural deve ser não apenas debatida, mas difundida.

A contribuição do trotskismo no plano da teoria estética é tão desconhecida dentro da esquerda brasileira, que não podemos descansar o verbo um minuto sequer na construção de uma orientação artística que supere de vez todo ranço nacionalista. Recentemente tentaram me dar um tiro com um revolver de espoleta; destes que a gente descola nos bazares do nacionalismo. Mas mesmo quando existem confusões ideológicas, sempre agradeço a oportunidade do debate; e diga-se de passagem que o debate cultural é um tanto rarefeito nos ambientes de boa parte da esquerda.

É engraçadíssimo como os conceito de dialética, idealismo e anacronismo viram um malabarismo desastroso entre aqueles que estabelecem fronteiras nacionais na política e na arte. Mas, pra não dizer que não falei das flores, vamos a uma lição básica de ninguém menos que Marx e Engels. Certa feita, os pais do socialismo científico escreveram lá pelos idos de 1847: “em lugar do antigo isolamento das províncias e das nações bastando-as a si próprias, desenvolvem-se relações universais, uma interdependência universal das nações. E o que é verdadeiro quanto àprodução material, o é também no tocante às produções do espírito. As obras intelectuais de uma nação tornaram-se comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se dia a dia mais impossíveis; e da multiplicidade de literaturas nacionais e locais nasce uma literatura universal".

Será que Marx e Engels eram idealistas (rs) a ponto de fazerem pouco caso das fronteiras nacionais no âmbito da literatura? Os autores comunistas apenas constataram um fato histórico: a internacionalização é um processo irreversível na dinâmica social dos povos. É bem verdade que o imperialismo é uma questão que não pode ser minimizada na análise dos fenômenos culturais. Mas compreender as formas de dominação ideológica presentes na arte que expressa o poder econômico e político dos países capitalistas ricos, não contradiz o fato dos acontecimentos artísticos e literários de um país influenciar outros países; e inclusive em momentos históricos posteriores. Devemos ressaltar aqui a capacidade do marxismo em estabelecer a releitura histórica nas mais diversas áreas do conhecimento. Foi esta mesma capacidade que permitiu, por exemplo, Lenin e Trotski, os cabeças da Revolução russa de 1917, assimilarem a influência de acontecimentos políticos do passado, como a Revolução francesa de 1789. Buscar um sentido histórico para situações culturais que flagram a polarização entre o nacionalismo e o internacionalismo e se desdobram no tempo e no espaço assumindo novos significados, não incorre em anacronismo, mas na constatação objetiva de que fatos passados subsistem e influenciam um novo contexto histórico.

Mário Pedrosa, um dos poucos críticos de arte que sacou as implicações internacionalistas da arte moderna, foi certeiro quando afirmou que a modernidade artística nasceu com a expansão do imperialismo: o interesse pelos objetos “exóticos" de povos tribais saqueados pelas potências imperialistas e expostos em cidades como Paris, possibilitou uma profunda operação estética. Profanando os pilares da arte ocidental, gente como Pablo Picasso assimilou as chamadas “formas primitivas" e criou uma pintura que assustou a burguesia durante o início do século passado. Não existe nenhum idealismo em afirmar que uma conexão internacional condicionou movimentos como o cubismo e o expressionismo alemão. Se isto é verificável na pintura e na literatura modernas, por que não seria também na música popular dos anos sessenta e setenta? Os nacionalistas ficavam (ou ficam?) enraivecidos com a atitude rockeira da LIBELU nos anos setenta, porque dentro da perspectiva cultural o caráter unicamente “nacional popular" era questionado. Se a princípio isto poderia ser confundido com o debate entre nacionalistas e tropicalistas no final dos anos sessenta, o motivo é que a tropicália envolve a pré-história desta situação na música popular brasileira.

A própria confusão existente entre a contribuição dos componentes contraculturais assumidos, em parte, por militantes trotskistas nos anos setenta e os esquemas comerciais da indústria fonográfica, mostra que a memória do trotskismo em seu âmbito cultural deve ser não apenas debatida, mas difundida. Experiências culturais como o tropicalismo, apesar de suas inúmeras contradições, não foram jogadas fora pelos trotskistas. Avaliar, por exemplo, as possíveis contribuições estéticas da tropicália, (que, como todo mundo sabe, não se restringe ao plano da música popular, mas envolve também teatro, cinema, artes plásticas etc.) consiste na realização de uma dança dialética que capta as contradições do próprio movimento. O mesmo podemos dizer em relação ao trabalho dos artistas da esquerda nacionalista. No caso brasileiro em particular, do Romance de 1930 ao Cinema Novo, tem muita coisa boa, que não guarda relações com os erros do stalinismo cultural.

É nosso dever crítico apontar para os erros do nacionalismo de esquerda que contaminaram boa parte da arte brasileira. Esta posição não implica na glorificação do tropicalismo, mas na valorização das suas conquistas expressivas: nacionalistas e tropicalistas participaram de um período altamente criativo da cultura brasileira; sendo que os tropicalistas olharam mais adiante na hora de compreender a internacionalização da música. Ainda assim, não se pode negar que nomes importantes, como Geraldo Vandré e Caetano Veloso, apresentam, mesmo em suas diferenças de horizonte estético, contribuições valiosas para se debater as qualidades revolucionárias da canção (esta pode envolver letras engajadas e um som acústico, ou pode envolver o uso de guitarras com letras cujo elemento político contestador não é tão explicito).

Os tropicalistas não eram marxistas a rigor, mas sua contribuição neo-antropofágica, portanto ancorada no pensamento de Oswald de Andrade, incomodou a ditadura militar (a prova é que Gil e Caetano foram em cana). Assimilar criticamente estéticas ligadas aos movimentos de contracultura representou um passo e tanto na consolidação de uma nova crítica cultural no Brasil. Entretanto, o tropicalismo, como uma série de outros movimentos culturais dos anos sessenta, carecia de uma leitura política revolucionária: a questão não é apenas assimilar e parodiar as contradições da sociedade burguesa, mas superar o modo de produção capitalista. Ninguém pode deixar de observar as falhas deste movimento. A boca da indústria foi maior que a dos tropicalistas, que, como uma série de outro movimentos da época, foram engolidos e neutralizados. Porém, atentar-se para as contribuições da tropicália (mantendo a crítica frente ao seu caráter em parte comercial), evita o retrocesso histórico do nacionalismo de esquerda: este sim um desastre histórico total que nunca deveria ter saído do limbo.

Investigar a maneira como a arte participa da realidade política, não pode se dar nos estreitos limites do purismo nacionalista. Na realidade digital dos nossos dias, as experiências audiovisuais, por exemplo, levam a uma percepção internacionalista que redefine o cinema revolucionário. Mas isto é assunto para um próximo artigo.

Artigos relacionados: Debates , Cultura









  • Não há comentários para este artigo