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Argentina: A esquerda ganhou a ’Plaza de Mayo’

30 Mar 2012   |   comentários

No 24 de março (dia em que há 36 anos se deu o golpe militar na Argentina) milhares de companheiros e companheiras convocados pelo Encontro Memória, Verdade e Justiça e pela esquerda, nos fizemos presente na histórica Plaza de Mayo e nas cidades mais importantes do país.

No 24 de março (dia em que há 36 anos se deu o golpe militar na Argentina) milhares de companheiros e companheiras convocados pelo Encontro Memória, Verdade e Justiça e pela esquerda, nos fizemos presente na histórica Plaza de Mayo e nas cidades mais importantes do país.

Na Cidade de Buenos Aires, a Frente de Izquierda apresentou a coluna mais importante, que contou com a Assembléia de Intelectuais de apoio àFIT, o PO, Izquierda Socialista e nosso partido, o PTS. Também marcharam com o Encontro, milhares de companheiros independentes. Não só se exigiu o cárcere para os genocidas. Também se denunciou que este governo promoveu a Lei Antiterrorista, acumula já mais de 18 mortos por lutar (só no último ano e meio), e tem o maior número de processados, desde a queda da ditadura. A marcha opositora foi similar em convocatória àdos organismos oficialistas e até "Página/12" [um dos maiores órgãos de imprensa argentina] teve que reconhecer este feito.
Por que a esquerda ganhou a praça? Porque o governo kirchnerista tem uma crise, especialmente com seu flanco "progressista". O discurso dos intelectuais de Carta Abierta [1] chamando a apoiar ao kirchnerismo para aprofundar o "modelo" terminou apontando o poder de um governo que busca baixar o salário operário, manter a precarização do trabalho e incrementou, da mão da "segurança democrática" da Ministra Garré, a perseguição aos lutadores e àesquerda. Basta ver as paritárias e as declarações de qualquer funcionário, para compreender que a dinâmica é em direção ao "ajuste". Os tetos salariais, a impunidade para os responsáveis do massacre de Once [2], o ataque aos professores, a Lei Antiterrorista, o apoio descarado àmiséria a céu aberto, já não se podem esconder com discurso a favor da "soberania" em Malvinas ou com tímidas medidas, como a retirada de algumas concessões de YPF [petrolífera antigamente estatal e hoje nas mãos da Rapsol]. Tampouco se sustenta o lema de "apoiar o bom e criticar o mal", que serviu como argumento para que a chamada "esquerda independente" apoiasse veladamente o governo.

Ante esta realidade do kirchnerismo, a oposição só apresenta sua própria impotência. Sobretudo para a centro-esquerda. O que se pode oferecer a FAP [Frente Ampla Progressista] de Binner e de Víctor De Gennaro? O governo "socialista" de Santa Fe acaba de iniciar sua própria agenda de "ajuste", tem um dos índices mais altos de trabalho ilegal e segue impune o assassinato de Silvia Suppo. Para não falar da crise que arrasta o Proyecto Sur de Pino Solanas e o MST de Vilma Ripoll, que vem de uma derrota política nas eleições. A Frente de Izquierda realizou uma importante eleição no passado 23 de outubro, e começa a aparecer como uma alternativa, em parcela dos lutadores e da juventude. Assim o demonstram as distintas praças este 24. Isto não é casual, a esquerda esteve presente na luta pelas liberdades democráticas, denunciando o avance repressivo, quando a Comissão Interna de Kraft junto a Myriam Bregman do CeProDH e do PTS, e outros organismos de Direitos Humanos desmascararam a Nilda Garré, a "sua" gendarmería e a espionagem do "Projeto X". Em crisr como o massacre de Once, onde os delegados do Ferrocarril Sarmiento, os ferroviários da Bordó del Roca e outros setores antiburocráticos, impulsionaram uma combativa marcha pela renacionalização sem indenização de todos as linhas de trem sob gestão de trabalhadores e usuários. A esquerda também esteve nas paritárias docentes, promovendo a luta contra a traição de Yasky e Baradel. Assim como no difícil combate pela recuperação dos sindicatos na indústria, onde a esquerda e em particular o PTS, tem protagonismo, como nas chapas classistas da alimentação, gráficos ou saboneteiros.

O governo mede todo o tempo por onde avançar, e por onde não, porque sabe que a classe trabalhadora, se se a ataca de frente pode converter-se em um inimigo poderoso. A disputa pela CGT mostra até que ponto o kirchnerismo necessita da "paz social". A ofensiva para desbancar a cúpula da CGT mostra o quanto a teme o governo a quem foi um de seus agentes mais servis, Hugo Moyano. O medo é de que este faça seu próprio jogo e mova o vespeiro quando a crise capitalista mundial golpeie em cheio, ou estalem os limites próprios de um "modelo" que não resolveu nenhum dos problemas estruturais do país.
Os lutadores operários e da juventude, temos que aproveitar este tempo e, nesse sentido, as conclusões políticas deste 24, colocam àesquerda uma responsabilidade. Temos que fortalecer a Frente de Izquierda, a opção de independência de classe, que impôs sua presença na Plaza de Mayo. Mas também partindo de defender e desenvolver essa grande conquista que significa a FIT, há que abrir, entre os partido da Frente e os milhares que nos acompanharam na Plaza, um debate sério sobre a construção de um partido revolucionário unificado.

Desde o PTS batalhamos por arrancar a classe operária da influência da burocracia sindica, para que esta seja o eixo articulador de uma aliança com o povo pobre e oprimido. As condições de um país arruinado pelo "neoliberalismo", que o kirchnerismo continuou no essencial, a "sintonia fina" e as tentativas de avançar sobre as conquistas operárias, ao que se agrega um mundo capitalista em crise; inscrevem a perspectiva de situações explosivas. Quando esses choque seja inevitáveis, um partido com um programa e uma estratégia para vencer, será decisivo. Porque o que se enfrenta é o poder do Estado, a "banda de homens armados" que sustenta este sistema de exploração e opressão.

Abrir desde agora o debate sobre a construção de um partido revolucionário, implica clarificar programas e estratégias, basando-nos nas lições históricas e recentes (nacionais e internacionais) da luta de classes.
Esta clarificação política está ligada intimamente àideológica. É necessário o "ajuste de contas" com as utopias reformistas, hoje em crise no mundo e contra o ecletismo teórico do amplo espectro do "autonomismo" impotente, que obrigam àrevitalização do marxismo e do trotskismo como seu verdadeiro continuador. Na "arte" do convencimento com flexibilidade tática e intransigência estratégica, está a possibilidade para a esquerda que se reivindica revolucionária de emergir e se desenvolver neste marco político, assinado pelo retrocesso do governo.

O "Cromañón ferroviario" [3], foi só um sintoma das consequências do fim do "nunca menos" e fez surgir o ódio de setores empobrecidos, que não vai desaparecer porque justamente está ancorado nos padecimentos cotidianos das vítimas do "modelo". A emergência generalizada do ódio de classe, a experiência da classe operária com o governo, os partidos patronais, a burocracia e as correntes reformistas, a partir de suas próprias lutas, colocará abertamente a possibilidade de construir um grande partido revolucionário capaz de jogar um papel de condução das amplas massas para uma saída anticapitalista e socialista. A tarefa de hoje é impulsionar a construção de uma força militante revolucionária, que além de conquistar posições na classe operária e na juventude, prepare-se para estes momentos convulsivos.

[1espaço de intelectuais kirchneristas ditos àesquerda do governo

[2se refere ao massacre no último fevereiro na estação ferroviária Once que deixou 49 mortos

[3analogia entre o massacre em uma discoteca próximo àestação Once que deixou 194 mortos em 2004 e mais de 1400 feridos, com a massacre do Once agora

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