Debates

PSOL E PT "JUNTOS"

A unidade da “esquerda†por mais direitos... junto com o governo do PT

17 Nov 2014   |   comentários

Como "combater a direita" e lutar por mais direitos sociais junto com os que apoiam um governo e um partido financiado pelas empreiteiras envolvidas nos escândalos da Petrobrás e pelos investidores financeiros que lucram com a dívida pública do país?

Muito tem se falado sobre o fortalecimento da direita, seja pelo crescimento em votos dos tucanos nas últimas eleições, seja pelos atos que têm pedido o impeachment de Dilma e a volta da ditadura militar. Em contrapartida, muito também tem se falado sobre as debilidades do novo mandato de Dilma, seja pela diminuição dos votos no PT ou pelas dificuldades que o novo governo já começou a mostrar no Congresso, em especial no manejo da relação com seus principais aliados, como o PMDB.

Diante desta situação, organizações ligadas ao governo federal, como CUT e UNE, promovem uma série de políticas para sustentar a governabilidade do mandato de Dilma, se aproveitando da polarização eleitoral que trouxe àtona as origens petistas de muitos setores da esquerda que abertamente fizeram campanha por Dilma Roussef.

Na última semana, o ato do dia 13/11 na Avenida Paulista tem sido propalado como a maior manifestação de rua depois de junho de 2013, desta vez em combate àdireita e aos “golpistas†. Ainda que isoladamente possa haver bandeiras corretas nesta manifestação, não se pode fechar os olhos para o “conjunto da obra†. O ato composto por CUT, MST, UNE, que contou com a participação em peso do MTST e do PSOL, tinha como centro a luta por uma reforma política, mas não tinha nenhuma bandeira denunciando os escândalos da Petrobrás. Mera coincidência? Ao que tudo indica não, foi um ato claramente governista.

As direções do PSOL e do MTST, organizações da esquerda que também encabeçaram esta manifestação, tentam de toda a forma “esconder†o peso que tiveram as organizações como CUT e UNE, para “esquerdizar†este ato e justificar a sua política oportunista e de adaptação ao governo do PT. Um verdadeiro combate àdireita não pode se dar através de uma frente que termina servindo aos interesses do governo Dilma, pois não tocou na principal debilidade de seu governo atualmente, a crise da Petrobrás.

Por que é impossível estar ao mesmo tempo ao lado do governo e do povo?

Os governistas não fazem nenhuma questão de esconder o objetivo da campanha pela reforma política. Dizem abertamente que é necessário defender a governabilidade do novo mandato de Dilma frente ao fortalecimento da direita. Governabilidade essa que já implementou aumento de tarifas (combustíveis, luz etc.); que anunciou um ajuste fiscal mais duro nos próximos anos (nenhum ativista de esquerda duvida que isso só pode significar sacrifício dos gastos voltados às áreas sociais); que entrou numa rota ascendente das taxas de juros (que ninguém duvida que gerará mais recessão e desemprego).

Neste ato vendido como grande contraponto aos atos organizados pela direita, o presidente da CUT deixou bem claro os objetivos em questão: “Esse ato é para dizer que acabou a eleição e o Brasil precisa de uma grande governança para dar condições da presidenta colocar em seu programa de governo aquilo que o povo escolheu. (...) Esse é um governo em disputa. A presidenta é progressista por essência, mas sofrerá fortes pressões de um Congresso Nacional bastante conservador, inclusive, na base aliada, do mercado e de parcela da mídia que é um panfleto político. O que estamos fazendo aqui é mostrar a ela que tem apoio dos movimentos sociais e das ruas para fazer um governo para o povo e para os trabalhadores†.

O mais curioso é que num ato por uma suposta “reforma política†que teria como objetivo acabar com a corrupção que reina no país não se falou nem uma só palavra sobre o escândalo de corrupção da Petrobrás. Não se disse nada sobre Dilma estar implementando no plano econômico justamente as medidas que havia criticado em Marina Silva e Aécio. Incrivelmente, num ato em São Paulo, onde a falta de água que faz a população pelo descaso dos governos, essa não foi uma preocupação da que defendem uma “reforma política†.

Como é possível que os defensores do governo queiram realmente punir as empreiteiras que financiam com milhões e milhões de “doações†ao PT e seus candidatos? Pode-se crer seriamente que os defensores do governo que ao longo de 12 anos destinou mais de 40% dos recursos públicos ao pagamento de juros e amortizações aos grandes investidores financeiros vão querer lutar contra os planos de ajuste que estão em curso? Que “reforma política†é essa que se cala frente a esses “detalhes†?

Apesar dos petistas e governistas de toda estirpe se apressarem em integrar as articulações contra a falta de água em São Paulo, estes não podem querer construir uma mobilização séria para dar uma resposta de fundo para esse problema. Como vão impedir que a indignação pela falta de água se misture com a indignação pelos escândalos de corrupção, atingindo tanto o PSDB como o PT, como ocorreu nas manifestações de junho de 2013. Por isso, não podem mais que querer desgastar eleitoralmente os tucanos, freando qualquer tentativa séria de mobilização independente.

O movimento/campanha “por uma reforma política†que vem sendo impulsionado pelas direções governistas nos sindicatos e movimentos sociais tem um objetivo muito especial: servir de dique de contenção e desvio do profundo descontentamento e indignação que se gesta na população, o qual pode tranquilamente virar combustível para novas explosões sociais como a de junho de 2013.

Por uma mobilização independente dos trabalhadores e da juventude

Por mais que o PSOL defenda um projeto de reforma política diferente do pretendido pelo governo, por mais que Luciana Genro tenha discursado no ato contra os ajustes de Dilma, não é possível fechar os olhos para o fato de que esse movimento por uma reforma política que existe trata-se de um esforço consciente para frear qualquer possibilidade de mobilização independente do movimento de massas, canalizando todo o descontentamento para os marcos de uma pressão controlada sobre as instituições dominantes. Pressão essa que, como já ficou demonstrada uma e outra vez ao longo da história, não pode resultar em mais que pequenas mudanças cosméticas que não vão ao fundo dos problemas.

Por que as direções dos sindicatos e movimentos sociais não impulsionam um movimento/campanha para que todo político, parlamentar, juiz e funcionário de alto escalão ganhe o mesmo que um professor? A única forma de combater consequentemente a direita é mobilizando os trabalhadores e a juventude de forma independente para dar uma resposta de fundo para a crise da água, garantir o fim da impunidade aos corruptos e corruptores e barrar os planos de ajuste do governo. Esse caminho só poderá ser construído contra a vontade das direções governistas.

Para responder a essa tarefa, nós, junto aos trabalhadores do Movimento Nossa Classe, fazemos um chamado a todos os sindicatos e oposições sindicais ligados àesquerda antigovernista para impulsionar um Encontro nacional de trabalhadores de base. Um fórum que tire um plano de ação em comum para amplificar nossa voz e nos dirigir aos trabalhadores que se encontram nas bases das entidades dirigidas pelo governismo, mas que querem se libertar das amarras impostas por suas direções para trilhar um caminho independente do governo.

Chamamos os trabalhadores e jovem que votaram em Luciana Genro e que confiam no PSOL a saírem dessa armadilha de fazer parte de um movimento por uma reforma política e de um “combate contra a direita†que, ao estar voltado a sustentar a governabilidade do novo mandato de Dilma, termina sendo contrário àmobilização independente da população, e consequentemente só pode enfraquecer a construção de uma verdadeira alternativa de esquerda. Chamamos a romperem com esse bloco de sustentação ao governo e impulsionar junto conosco um polo para retomar o caminho de junho.

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