Internacional

LEAR

A roupa de trabalho como uniforme de luta

15 Jul 2014   |   comentários

E quantas horas. Quantas foram? E debateram longas jornadas? Havia tempo para estas discussões. Os entulhos caiam de tal forma que seu pó se transformava num cogumelo radioativo, seu espectro fantasmal parecia trocar os valores, e as estratégias eram colocadas em dúvida. Os sujeitos eram castrados de identidade. Logo nos acostumaram a ter vergonha, e a vergonha era uma corrente que se arrastava com pudor. E os filhos eram educados com essa (...)

E quantas horas. Quantas foram? E debateram longas jornadas? Havia tempo para estas discussões. Os entulhos caiam de tal forma que seu pó se transformava num cogumelo radioativo, seu espectro fantasmal parecia trocar os valores, e as estratégias eram colocadas em dúvida. Os sujeitos eram castrados de identidade. Logo nos acostumaram a ter vergonha, e a vergonha era uma corrente que se arrastava com pudor. E os filhos eram educados com essa culpa. Éramos culpados por sermos operários. Era assim. Não nos roubaram a identidade, não; as longas horas um lenta conspiração burguesa tinham um objetivo, não matar-nos. A busca perpétua por nos manter vivos e envergonhados, de uma classe para a qual castraram sua identidade incendiária. Prevalecem os heróis ajeitados e brilhantes, repletos de riquezas. Batman, homem rico e bem cuidado, filantropo, amante da justiça. A sombra dos anos ’90, como um gancho de ferro de um navio pirata na América Latina.

O fim da história. Porque a história é a história da luta de classes. E a luta de classes é o motor da história. E rifavam os corpos na engrenagem que os triturava, mas não eram nada, não tínhamos história. Mas o cronômetro marcava as horas em teus braços. Gritava.

Norma, jovem, vinte e dois anos. Fresca, radiante. E teus tendões jovens, tua matriz em ordem. Norma, operária de Tesis. Norma, jovem mãe. Norma operária exemplar porque afina a vista e adquire destreza nas mãos. Norma, operária de Lear. Ela tocava ao céu. Mas hoje seus dedos gordinhos de operária, com o cheiro da luta do acampamento. Vinte e seis anos depois, Norma Cruz, sem vergonha, nos diz: "Tenho quarenta e oito anos, há vinte e seis anos que trabalho em Lear. Eu sentia que trabalhar em Lear era como toca ao céu. Não me sinto mal quanto dizem que sou vagabunda. Eu deixava minhas filhas, mas também a minha responsabilidade sobre cada uma...Todas as manhãs é difícil me levantar; quando um vai crescendo é difícil a responsabilidade. O que me dá forças é Luana...Eu não venho de Lear, venho da oficina Tesis. Sempre lutei por ela. Isto é companheirismo; (acena para os presentes com suas moldadas mãos de operária) com minhas mãos doloridas eu vinha. Falhava com minha família, mas não falhava com Lear. Voltava exausta. Não tive a oportunidade de ensinar as minhas filhas a falar ou a andar, outro as ensinava. Eu deixei a minha família. Existem muito verdes que se tornaram celestes. Mas não é se é verde ou azul. Aqui todos viemos pelo mesmo objetivo. Por um prato de comida. Eu vi nascer este rapaz, conheço seus pais (apontando para Matu), Fanti, Troca, Paisa, Chiqui, nossa Chiqui luz, porque ela era nossa Chiqui luz, nos dá orgulho." A filha, estufando seu peito, lhe abraça. Se submerge nesse peito, em seu destacado ventre. Seu colete, o cheiro de cigarro impregnado, cheiro da luta. Norma: por operárias como você, vemos a roupa de trabalho como um uniforme de luta. A vergonha será só uma lembrança.

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