Movimento Operário

DENÚNCIA

A mulher trabalhadora na indústria da carne

20 Feb 2015   |   comentários

Neste artigo, continuamos a denúncia, ao tratarmos da precária (e invisível na propaganda da Friboi e da Seara, uma brutal realidade que Tony Ramos e Fátima Bernardes não mostram) situação dos trabalhadores da indústria da carne no país.

A demissão ilegal de Andreia Pires, no último mês, que foi denunciada pelo Movimento Nossa Classe e o jornal Palavra Operária e recentemente também pela Viomundo (veja a reportagem aqui), serviu para escancarar mais uma vez o desrespeito da JBS (dona da marca Friboi), aos direitos dos milhares trabalhadores e das trabalhadoras da indústria da carne.

Andreia (veja entrevista completa aqui) era membro da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) com uma função de cuidar pelo respeito às normas de segurança do trabalho. A JBS demitiu a trabalhadora desrespeitando a estabilidade de uma no garantida aos membros da CIPA. Como muitas mulheres no chão de fábrica das grandes indústrias frigoríficas no país, convivia diariamente com o assédio moral, condições precárias para prevenção de acidentes e doenças do trabalho.

Neste artigo, continuamos a denúncia, ao tratarmos da precária (e invisível na propaganda da Friboi e da Seara, uma brutal realidade que Tony Ramos e Fátima Bernardes não mostram) situação dos trabalhadores da indústria da carne no país.

Um perfil dos trabalhadores nos frigoríficos no Brasil

Para se ter uma ideia do trabalho nos frigoríficos de abates e na indústria de fabricação de carnes trazemos aqui um perfil geral traçado pelo DIEESE a partir do dados Ministério do Trabalho e emprego com os dados referentes ao ano de 2012, mas que seguem atuais.

O setor frigoríficos que inclui o abate e a produção de produtos de carne, empregava 388.386 trabalhadores, sendo que o estado de SP é o que mais emprega no setor, representando 16,5% do total de emprego seguido pelo Paraná e Rio Grande do Sul. Com relação ao salário, a média de remuneração dos trabalhadores é de R$ 1.286,29, e mais da metade recebe menos de 2 salários mínimos. Nestes empregos da pesquisa não estão incluídos os empregos sem carteira assinada e subcontratados, ou seja, terceirizados, ou seja, este número pode ser maior, em 2011, por exemplo, a estimativa era de mais de 750 mil trabalhadores no setor de frigoríficos.

Outro aspecto importante do setor é a alta rotatividade dos trabalhadores, 40% destes estão empregados a no máximo 1 ano. A rotatividade neste setor deve ser afetada com as novas medidas de Dilma e Levy que alteraram as regras para o recebimento do seguro desemprego e abono salarial, o que se prevê é o aumento do assédio moral junto a chantagem patronal aos trabalhadores já que agora será preciso 18 meses para se receber o primeiro seguro desemprego. O agravante é que o setor de frigoríficos é marcado por trabalhadores e trabalhadoras jovens, que muitas vezes estão em seu primeiro emprego com carteira assinada. 25% do trabalhadores possuem de 18 a 24 anos e somente 8%, possuem mais de 50 anos.

A baixa escolaridade também é mais uma triste estatística do setor de frigoríficos, mais da metade dos trabalhadores possuem ensino médio incompleto. Segundo a Rais 2012, cerca de 34,6% dos trabalhadores não concluiu o Ensino Fundamental, enquanto 15% possuem o Ensino Fundamental completo e cerca de 12%, possuem ensino médio incompleto.

As mulheres e os frigoríficos

Segundo os dados do sindicato CNTA Afins, as mulheres representam cerca de 41% do total dos trabalhadores empregados no setor de frigoríficos. Dentro da indústria de alimentos, o abate e produção de produtos de carnes é o ramo que mais emprega mulheres. Elas vem aumentando sua participação no conjunto do setor industrial, ocupando funções que antes eram exercidas majoritariamente por homens.

A pesquisa apresentada pelo sindicato, evidencia uma triste realidade na qual as mulheres são as que mais sofrem com o assédio moral e constrangimento pelas chefias, que pressionam pelo aumento de produtividade e ritmo de trabalho, impondo muitas vezes, limites para idas ao banheiro e a gravidez, em nome do lucro se impõe um verdadeiro controle da patronal do corpo das mulheres.

O assédio moral afeta mais as mulheres pois também muitas delas, por serem mães solteiras, pela dificuldade de encontrar um novo emprego e pela ameaça mais constante do que para os homens de demissão, é sabido que as mulheres ficam no mesmo emprego por menos tempo em média, do que os homens (a rotatividade do trabalho é ainda maior para as mulheres dentro do setor).

Na indústria da carne, as doenças e acidentes de trabalho são mais frequentes a as mulheres as que mais sofrem, são casos de lesões por esforço repetitivo (são cerca de 80 a 120 movimentos por minuto numa desossa de frango, por exemplo, sendo que a legislação permite até 35 movimentos por minuto!) e de transtornos psicológicos como depressão e traumas. A inflamação nos tendões, por exemplo, leva muitas mulheres a perderem a autonomia ao deixarem de realizar tarefas banais como pentear o cabelo, abotoar uma blusa. Outro problema são as queimaduras e deformidades nos dedos causadas pela exposição longe e contínua ao frio intenso.

Estes acidentes são causados pelo intenso ritmo de trabalho, condições precárias, como a exposição àbaixíssimas temperaturas, choques térmicos bruscos, ruídos, realização de movimentos rápidos e repetitivos e ainda o contato com produtos tóxicos e que geram queimaduras na pele como no caso de Andreia que trabalhava no setor de higienização de máquinas no frigorífico da SEARA.

As mulheres são as mais afetadas pelos acidentes de trabalho (lesões nos músculos, tendões e coluna) pois muitas delas possuem jornadas duplas ou triplas de trabalho. Elas chegam em casa após um exaustivo dia de trabalho e ainda cuidam dos filhos e marido, outras tantas ainda são mães solteiras, isso se deve também pois a mulheres nos frigoríficos possuem faixa etária entre 30 e 39 anos (32%) e de 18 a 24 anos (25%), de acordo com dados do Dieese.

Indústria da carne: máquina de moer gente (e de gerar lucro)

Em abril de 2014, uma mulher trabalhadora foi morta prensada na esteira de carnes quando realizava sua limpeza diária no setor de produção de um frigorífico em Londrina/PR. Meses depois em junho, outro trabalhador que realizava a higienização de uma máquina de moer ossos morreu de forma brutal durante o trabalho em Rondônia num frigorífico da Minerva. Estes são dois exemplos, mas a morte e as sequelas geradas pelo trabalho precário nos frigoríficos são uma realidade constante na vida de milhares de trabalhadores efetivos e terceirizados da indústria da carne, sobretudo das mulheres como vimos acima.

Como denunciou o documentário Carne e Osso (veja resenha aqui), a produção nos frigoríficos é marcada por uma estratégia de trabalho precário e o desrespeito às leis trabalhistas pelos grandes monopólios da indústria da carne como a JBS, BRFoods e Minerva. O Brasil é o maior exportador de carne do mundo e mais de 150 a consomem inclusive grandes redes de fast food como Subway, Mc Donald´s e redes de supermercados como o Wall Mart, segundo pesquisa no site moendogente.org.br.

Como já apontamos em outro artigo, algumas irregularidades praticadas pela JBS estão: o não cumprimento da pausa em ambientes frios de 20 minutos a cada 1H40; o desrespeito àexistência de locais adequados para o intervalo de recuperação térmica dos trabalhadores expostos àtemperaturas extremamente frias para o corpo humano (entre 5o C e -15o C); excesso de jornada de trabalho (há registros de denúncias que dão conta de jornadas de até 15 horas seguidas); o descumprimento de normas de saúde e segurança dos trabalhadores; o fornecimento de refeição com carne contaminada servida aos trabalhadores; não pagamento de adicional insalubridade; assédio moral; desrespeito a medidas básicas de monitoramento e segurança em relação ao reservatório para refrigeração por gás amônia, ou seja, mais um exemplo de que a JBS submete constantemente seus trabalhadores a riscos de acidentes de trabalho.

Alguns números alarmantes sobre a realidade de doenças das trabalhadoras e dos trabalhadores da carne retirados do site moendogente.org.br:
· No abate de bovinos, ocorrem duas vezes mais traumatismos de cabeças e três vezes mais [do que em outros setores da indústria] traumatismos de abdômen, ombro e braço;

· No abate de aves, a chance de um trabalhador desenvolver um transtorno de humor, como uma depressão, é 3,41 vezes maior;

· No abate de bovinos, o risco de sofrer uma queimadura é seis vezes superior;

· No abate de aves e suínos, o risco de sofrer uma lesão no punho ou nos plexos nervosos do braço é 743% maior.

Uma saída

Ao contrário de sindicatos como o CNTA Afins que apontam a baixa escolaridade dos trabalhadores dos frigoríficos como principal justificativa para não reclamarem diante de tamanha brutalidade e precariedade em suas condições de trabalho, apontamos como exemplo a luta de Andreia e de outros trabalhadores na JBS que não aceitaram em silencio os abusos da patronal. É possível uma forte luta e uma grande campanha construída pela base em cada fábrica, pelo respeito às leis trabalhistas, pelo direito àsegurança no trabalho, pelo fim das mortes e acidentes.

Uma luta combativa sem qualquer confiança nos patrões que tanto exploram em nome do lucro, para que seja dos ganhos bilionários dos monopólios da carne que se paguem pelos custos nas mudanças nas condições de trabalho, sem demissões e com salários dignos que atendam às necessidades de uma família. Para as mulheres e homens trabalhadores nos frigoríficos a saída é a organização no local de trabalho e a certeza de que juntos são fortes e podem derrotar os ataques dos patrões e dar um fim na triste estatística do assédio moral e dos acidentes de trabalho.

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