Quarta 16 de Outubro de 2019

CRÔNICA

A insurreição das vassouras!

24 Apr 2011   |   comentários

“A luta é dura, companheiro†. É com esta constatação que uma trabalhadora anuncia ao estudante mais um dia no piquete das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados da Empresa União, bloqueando mais uma vez a entrada da surda e muda- porém, implacável- Reitoria.

Por debaixo de suas pernas cansadas, o velho papelão que, neste dia, garante que se sente sem sujar
suas roupas. Ele é o mesmo sob o qual todos os dias coloca sua comida e descansa seus cravados 20 minutinhos de almoço, fora, obviamente, dos prédios nos quais trabalha dentro da USP. Não é que ela goste ou tenha qualquer sentimento bucólico de ficar no mato, mas é que é preciso algo que a proteja do chão sujo no qual é obrigada a comer, uma vez que sua permanência junto a estudantes e professores é proibida.

Por cima, os raios escaldantes de sol atingem sua pele e aquecem todo o corpo. Curiosamente, ela pensa o quanto é melhor estar neste sol, do que ter de limpar com aquele uniforme calorento cerca de 33 salas em menos de 2 horas, repetindo esta maratona de hora em hora e, depois, no fim do dia, voltar para casa sem um banho. O que lhe resta de humor a faz pensar o quão parecida com uma atleta ela seria.

São muitos dias sem seu salário ou qualquer forma de subsistir. Lembra destes dias.. no quarto a criança chora e o irmão mais velho- que não passa dos 6 anos- inocentemente pede por um danone ou algo que adocique a vida no barraco abafado. O “dono do domicílio†já disse que, se não pagar os 100 reais, ele vai ter de dar um jeito na situação. São 4:00 e a greve começa cedinho cedinho. É preciso sair. É preciso deixar seu filho na escola municipal e seu bebê com a vizinha do lado esquerdo. Hoje não vai ter nada pra almoçar, porquê o que sobrou no armário vai pra merenda do mais velho. Lembra de espremer um pouco mais da pomada para varizes que pegou mês passado no posto e passa na perna. Ajeita seu cabelo com o pente olhando pelo espelinho do banheiro, toma um copo de água e sai sem saber o que vai acontecer, se seu salário vai sair, se seu barraco vai ficar ou se é capaz de aguentar...

É – pensa divagante enquanto o estudante sorridente segue seu caminho - a luta é dura....

No meio desta angústia muitas coisas vem àsua cabeça. Lembra que está sem seu salário e o dono do barraco já deu seu ultimato; sua barriga a lembra que há 4 dias tem vivido de pão e suco. Sua mão inchada a lembra do conflito que teve com o burocrata sindical que não quis deixar ela e os meninos do sindicato da USP entrarem para falar com o reitor. Lembra da estudante, agressiva e violenta, a chamando de vagabunda, suja, e apontando para o lixo no chão como se um monstro estivesse ameaçando a vida desta estudante e ela tivesse sido a responsável pela liberação deste câncer...
Se sentia muito mal por tudo isto. Sentia que nada adiantava mais...

Curiosamente, no entanto, algo no rosto daquele estudante e no que ele disse conseguiu mudar aquilo que sentia. Não se sentia mais só. Ele havia dito“ É sim, companheira, é mesmo. Mas você não tá sozinha! De hoje eles não passam!†e virou-se com um sorriso confiante pra fazer sei lá o quê.

O que ele disse deu algum tipo de força a ela. Nunca um rapaz, branco, estudante, bem vestido, havia sequer se dirigido a ela. Agora ele estava ali suando, brigando, cantando, conversando dividindo a luta e brincando com ela. Sentia que não estava sozinha. Sentia que aquilo que ele dizia era sincero.

Um dia antes tinha ouvido umas coisas ditas por este e outros estudantes com jornais na mão dizendo como a TV e os jornais estavam falando: “ Vocês hoje, guerreiras e guerreiros, mostraram pra todos os patrões que o que fazem é fundamental. Se vocês continuarem parados, a USP vai parar e nós, os estudantes, estamos com vocês. Não vamos permitir a escravidão nem aqui nem em lugar nenhum. Vocês perceberam sua força e perceberam que unidos podem mudar as suas e as vidas de outras pessoas. A luta de vocês é histórica e um exemplo para todos os trabalhadores. Nós queremos estar ao seu lado ajudando com o que quiserem decidir.â€

Estas palavras a fizeram pensar mais ainda, sobretudo, na tal escravidão. Não parecia certo, agora, o que faziam com ela no trabalho. Não parecia certo receber 500 reais e ter de andar 2 horas para chegar ao trabalho, pois não recebia vale transporte. Não parecia certo ouvir do chefe para calar a boca e ir trabalhar porquê já tinha 20 minutos de descanso e, pra ele, 5 minutos parados são 2 portas que ficam sujas. Não parecia certo ter de comer em banheiros, ou salas minúsculas ou ter de se deitar nos gramados fora dos prédios como indesejáveis.
Acima de tudo, não parecia certo aquele tipo de olhar, meio de lado, desconfiado, como que acusando-a de estar ali para roubar algo e, sendo assim, como se falasse para ela se rastejar e abaixar a cabeça pois ali não era um lugar para gente como ela.

O que os estudantes disseram fizeram ela pensar que aquilo não estava certo e AH, que alívio! Foram mais de 14 anos de silêncio e, durante todo este tempo, não sabia que podia sentir o que sente, pensar o que pensa e, agora, lutar como luta! “Não estou sozinha!Todas minhas companheiras agora tem gente que dá apoio!†Ela pensava...

Parou de pensar- ainda com o sorriso esperançoso no rosto- e levantou-se para ir a uma atividade que os alunos estavam chamando junto dos trabalhadores para discutir alguma coisa.

Lá, ouviu várias falas de companheiros trabalhadores que diziam que aquilo ali era uma revolta mesmo. Diziam que todos os dias as pessoas olhavam para eles- sobretudo elas, já que a maioria esmagadora são mulheres- como vassouras varrendo o chão, invisíveis e automáticas. Um trabalhador da USP levantou e disse, então, com aquela veia do pescoço estalada como se estivesse falando e cuspindo fogo ao mesmo tempo, parecendo muito revoltado mesmo: “ Vocês são vistos como objetos que devem ser usados e jogados fora! Todo dia as pessoas olham pra vocês e ignoram o que vocês fazem. É hora de serem sujeitos e deixarem de ser objetos!†. Em seguida, como que pulando do chão pra não perder o tempo e a deixa, um estudante gritou bem alto: “Hoje as vassouras mostraram que tem vida! Não serão mais objetos e nem usados do jeito que estes canalhas as usaram até hoje! Hoje é o dia de começar a insurreição das vassouras!â€
Aquilo fez explodir um mar de palmas, berros e sorrisos.
Em seguida um estudante continuou dizendo que a luta daquelas mulheres e homens era histórica, lembrando de um tal de maio de 68 e falando de uma tal aliança operária-estudantil que historicamente derrubou muitos daqueles patrões safados e foi capaz de garantir que num lugar lá longe todos pudessem ter uma vida diferente, com emprego, saúde, lazer, educação e moradia pra todos.

Toda a falação animou a companheira que, terminada a atividade, foi conversar com suas amigas sorridentes e tomar mais suco do galão de água improvisado.
Encontrou de novo o estudante, que foi falar com ela sobre o que ela tinha achado. Ela respondeu que achou muito bonito tudo aquilo que foi dito e que estava muito feliz por estar ali com os estudantes, que nem o tal do maio de 68. O estudante então, como que lembrando daquilo que ela disse anteriormente falou:
-Você lembra que me disse que a luta é difícil?
Então ela respondeu:
- Sim sim. Ela é, mas estamos juntos e que nem disseram ali, vamos vencer juntos!
Com um sorriso no olhar o estudante então disse:
Isso mesmo, não vamos dar nenhum passo atrás. Lá na frança, em 68, os estudantes e trabalhadores fizeram umas frases que marcaram a história. Uma delas era “La lutte continue†.
Confusa, a trabalhadora indagou:- Mas o que quer dizer?
- A luta continua! Ele respondeu.

Eles se olharam, sorriram e deram um longo abraço seguido de mais falação, debaixo do sol e sob a grama.
Algo, naquele dia, fez o estudante e a trabalhadora pensarem e os fez- e tem feito- seguir a risca o sentido desta última frase, histórica e carregada do sangue e suor de muitos trabalhadores e estudantes, unidos em luta. Para aqueles, no passado, e estes, no presente, a luta continua!









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