Movimento Operário

A indústria nacionalizada e a administração operária

07 Jan 2008   |   comentários

Nos paises industrialmente atrasados o capital estrangeiro desempenha um papel decisivo. Daí a relativa debilidade da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional. Isso cria condições especiais de poder estatal. O governo oscila entre o capital estrangeiro e o nacional, entre a relativamente débil burguesia nacional e o relativamente poderoso proletariado. Isto dá ao governo um caráter bonapartista sui generis, de índole particular. Eleva-se, por assim dizer, por cima das classes. Na realidade, pode governar convertendo-se em instrumento do capital estrangeiro e submetendo o proletariado às amarras de uma ditadura policial, ou manobrando com o proletariado, chegando inclusive a fazer-lhe concessões, ganhando deste modo a possibilidade de dispor de certa liberdade relação aos capitalistas estrangeiros. A atual política (do governo mexicano, NdoT) se localiza na segunda alternativa; suas maiores conquistas são a expropriação das ferrovias e das companhias petrolíferas.

Estas medidas se enquadram completamente nos marcos do capitalismo de estado. Entretanto, em um país semi-colonial, o capitalismo de estado se encontra sob a grande pressão do capital privado estrangeiro e de seus governos, e não pode sustentar-se sem o apoio ativo dos trabalhadores. Isso é o que explica por que, sem deixar que o poder real escape de suas mãos, (o governo mexicano) trata de dar às organizações operárias uma considerável parte da responsabilidade na marcha da produção dos ramos nacionalizados da indústria. Qual deveria ser a política do partido operário nestas circunstâncias? Seria um erro desastroso, um completo engano, afirmar que o caminho ao socialismo não passa pela revolução proletária, senão pela nacionalização que realize o estado burguês em alguns ramos da industria e sua transferência às organizações operárias. Porém esta não é a questão. O governo burguês levou a cabo por si próprio a nacionalização e se viu obrigado a pedir a participação dos trabalhadores na administração da industria nacionalizada. Obviamente, pode-se fugir da questão dizendo que a não ser que o proletariado tome o poder, a participação dos sindicatos na direção das empresas do capitalismo de estado não pode dar resultados socialistas. Entretanto, uma política tão negativa por parte da ala revolucionária não seria compreendida pelas massas e reforçaria as posições oportunistas. Para os marxistas não se trata de construir o socialismo com as mãos da burguesia, mas de utilizar as situações que se apresentam dentro do capitalismo de estado e fazer avançar o movimento revolucionário dos trabalhadores.

A participação nos parlamentos burgueses já não pode mais oferecer resultados positivos importantes; em determinadas situações, pode inclusive conduzir àdesmoralização dos deputados operários. Porém isso não é argumento para que os revolucionários apóiem o antiparlamentarismo.

Seria inexato identificar a participação operária na administração da indústria nacionalizada com a participação dos socialistas em um governo burguês (o que se chama ministerialismo). Todos os membros de um governo estão ligados por laços de solidariedade. Um partido representado no governo é responsável pela política do governo de conjunto. A participação na direção em uma determinada industria brinda, ao contrário, uma ampla oportunidade de oposição política. No caso de que os representantes operários estejam em minoria na administração, têm todas as oportunidades para proclamar suas propostas rechaçadas pela maioria, pó-las ao conhecimento dos trabalhadores, etc.

A participação dos sindicatos na administração da industria nacionalizada pode comparar-se com a dos socialistas nos governos municipais, aonde ganham às vezes a maioria e se encontram obrigados a dirigir uma importante economia urbana, enquanto a burguesia continua dominando o estado e seguem vigentes as leis burguesas da propriedade. Na cidade, os reformistas se adaptam passivamente ao regime brigues. No mesmo terreno, os revolucionários fazem tudo o que podem no interesse dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, lhes ensinam a cada passo que, sem a conquista do poder de estado, a política municipal é impotente.

A diferença é, sem dúvida, que no governo municipal os trabalhadores conquistam certas posições através de eleições democráticas, enquanto que na esfera da industria nacionalizada o próprio governo os convida a tomar posse de determinados postos. Porém esta diferencia tem um caráter puramente formal. Em ambos os casos, a burguesia se vê obrigada a conceder aos trabalhadores certas esferas de atividade. Os trabalhadores as utilizam a favor de seus próprios interesses.

Seria estupidez não levar em consideração os perigos que surgem de uma situação na qual os sindicatos desempenham um papel importante na industria nacionalizada. O risco se encontra na conexão dos dirigentes sindicais com o aparato do capitalismo de estado, na transformação dos representantes do proletariado em reféns do estado burguês. Porém, por maior que possa ser este perigo, constitui somente uma parte do perigo peral, ou melhor, de uma doença geral: a degeneração burguesa dos aparatos sindicais na época do imperialismo, não somente nos velhos centros metropolitanos, como também nos países coloniais. Os líderes sindicais são, na esmagadora maioria dos casos, agentes políticos da burguesia e de seu estado. Na industria nacionalizada pode tornar-se, e já estão tornando-se, seus agentes administrativos diretos. Contra isso não há outra alternativa a não ser lutar pela independência do movimento operário em geral; e especialmente pela formação nos sindicatos de firmes núcleos revolucionários que, uma vez que defendam a unidade do movimento sindical, sejam capazes de lutar por uma política de classe e uma composição revolucionária dos organismos dirigentes.

Outro perigo reside no fato de que os bancos e outras empresas capitalistas, dos quais depende economicamente um determinado ramos da industria nacionalizada podem utilizar, e sem dúvida irão, medidas especiais de sabotagem para colocar obstáculos no caminho da administração operária, desacreditá-la e empurrá-la ao desastre. Os dirigentes reformistas tratarão de evitar o perigo adaptando-se servilmente às exigências de seus provedores capitalistas, especialmente dos bancos. Os líderes revolucionários, ao contrário, da sabotagem concluirão que é necessário expropriar os bancos e estabelecer somente um banco nacional que se encarregaria da contabilidade de toda a economia. Claro está que esta questão deve estar indissoluvelmente ligada àda conquista do poder pela classe operária.

As diferentes empresas capitalista, nacionais e estrangeiras, conspirarão inevitavelmente , junto com as instituições estatais para dificultar a administração operária da indústria nacionalizada. Por sua parte, as organizações operárias que dirigem os diferentes ramos da industria nacionalizada devem unir-se para trocar experiências, prestar apoio económica e agirem unidas frente ao governo, pelas condições de crédito, etc. Claro que esta direção central da administração operária dos ramos nacionalizados da industria deve estar em estreito contato com os sindicatos.

Para resumir, pode-se afirmar que este novo campo de trabalho implica as maiores oportunidades e os maiores perigos. Estes consistem em que o capitalismo de estado, através dos sindicatos controlados, pode conter os operários, explorá-los cruelmente e paralisar sua resistência. As possibilidades revolucionárias consistem em que, baseando-se em suas posições nos ramos industriais de excepcional importância, os operários podem ir ao ataquem contra todas as forças do capital e do estado burguês. Qual destas alternativas triunfará? Em quanto tempo? Naturalmente, é impossível prever. Depende completamente da luta das diferentes tendências na classe operária, da experiência dos próprios trabalhadores, da situação mundial. De qualquer maneira, para utilizar esta nova forma de atividade no interesses dos trabalhadores e não da burocracia aristocrática operária, somente uma condição se faz necessária: A existência de um partido marxista revolucionário que estude cuidadosamente todas as formas de atividade da classe operária, critique cada desvio , eduque e organize os trabalhadores, ganhe influência nos sindicatos e assegure uma representação operária revolucionária na industria nacionalizada.

Publicado em Fourth Internacional, agosto de 1946. Sem assinatura. Quando o artigo foi publicado em Fourth Internacional calculou-se que havia sido escrito em maio ou junho de 1938 (o manuscrito não apresentava data). Porém no original que está nos arquivos de Trotsky em Harvard se encontra a data de 12 de maio de 1939. Trotsky escreveu este artigo depois que o governo de Cárdenas expropriou a industria petroleira e das ferrovias e deu aos sindicatos grande responsabilidade em sua administração. Um funcionário da CTM, Rogrigo Garcia Treviño, então adversário dos stalinistas, perguntou a Trotsky sua opinião sobre a atitude que deveriam tomar os sindicatos em relação a participar na administração. Trotsky aceitou escrever um memorandum e vários dias depois entregou este artigo a Treviño. Tomado da versão publicada em Escritos, Tomo X, pág. 482, Editorial Pluma.

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