Gênero e Sexualidade

A "hombridade" de Zago na CPI da USP: nenhuma preocupação real com as vítimas

26 Jan 2015   |   comentários

Após meses de uma crise aberta pelas denúncias de estupros e trotes violentos na Faculdade de Medicina da USP, o reitor Marco Antonio Zago finalmente se pronunciou sobre os acontecimentos. Quarta feira, 21 de janeiro, ele compareceu a CPI das universidades estaduais paulistas.

Após meses de uma crise aberta pelas denúncias de estupros e trotes violentos na Faculdade de Medicina da USP, o reitor Marco Antonio Zago finalmente se pronunciou sobre os acontecimentos. Quarta feira, 21 de janeiro, ele compareceu a CPI das universidades estaduais paulistas. Em uma fala de aproximadamente 30 minutos Zago expôs a visão da direção da USP com relação aos acontecimentos relatados na CPI. Afirmou que o papel da universidade é formar cidadãos a um nível elevado e que as denúncias não dizem respeito a instituição, mas a pessoas que passaram por ela.

As propostas de Zago para... tudo continuar como está

Como proposta para combater a violência no campus o Reitor disse que criará uma Comissão de Direitos Humanos, composta por membros da alta burocracia universitária que ficará responsável pelos casos dentro da universidade e também utilizou o material distribuído durante a semana de recepção aos calouros, um pequeno panfleto se posicionando contra o trote e recepções violentas, como uma iniciativa de mostrar aos alunos o que é a Universidade na visão da Reitoria da USP. Claramente a presença de Zago foi uma formalidade apenas pra defender a instituição.

Uma das principais medidas adotadas seria a reabertura das sindicâncias, que são na verdade um mecanismo de poder da Reitoria já que as sindicâncias são controladas pela Reitoria: é ela quem acusa, julga e pune. Entretanto, não é a toa que há dúvidas sobre as sindicâncias que diziam respeito a casos de violência dentro da universidade: sempre houve e ainda há enorme omissão nestes casos, pois a própria instituição acoberta este tipo de sindicância para não sujar o nome da Universidade. Somente isso pode explicar que sindicâncias para punir ativistas do movimento estudantil e de trabalhadores tenham sido tão ágeis em seus vereditos. É que a Reitoria prefere conviver com estupradores e assediadores do que aceitar a livre manifestação dos estudantes e trabalhadores.

Por outro lado, a Comissão de Direitos Humanos que o Reitor propõe não somente é totalmente insuficiente como de cara já nos mostra que as mulheres continuarão não tendo voz dentro desta universidade. É preciso que essa comissão seja composta por aqueles que lidam com esses casos no dia-a-dia, tendo como protagonistas as vítimas, grupos de mulheres e direitos humanos, estudantes, trabalhadores e professores da universidade que se colocam ao lado das vítimas.

Para livrar a cara da USP, mais ataque aos estudantes e trabalhadores

Já era de se esperar, também, que Zago fará de tudo para culpabilizar as festas dentro da Universidade como responsáveis, conforme seu depoimento na CPI. O Show Medicina, financiado pela Fundação Faculdade de Medicina, se mostra como precursor dessa prática e por isso suas festas não são simples expressões de diversão da juventude, são ações de ódio contra as "minorias". Está claro que a Reitoria da USP tentará proibir festas de convivência e culturais igualando-as a essas barbaridades planejadas para impor humilhação, sofrimento, dor para “diversão†de “senhores que detêm poder†e atuam livres, com apoio ou conivência da Direção da Faculdade de Medicina e da própria Reitoria.

Rankings universitários e tradição: receita pra impunidade

Um momento que causou indignação de grande parte dos presentes na audiência foi quando o Reitor declarou que procura-se fazer uma “demonização†dos alunos da Faculdade de Medicina e que era preciso fazer um diálogo mais adulto com esses estudantes. Claramente tentando preservar a imagem e a tradição da faculdade e dos alunos que utilizam dessas práticas violentas. A Reitoria já demonstrou que não pode levar a frente uma medida efetiva de combate a esses casos, o estupro, os trotes e a violência infelizmente se tornaram uma prática institucionalizada dentro da USP e são acobertados pela direção da universidade em nome dos rankings universitários, da tradição e do prestígio.

O Reitor deixou claro em seu depoimento que seu compromisso está com a formação dos alunos, mas essa formação infelizmente não é a que está a serviço dos trabalhadores e do povo pobre. Mas sim aquela que atende aos requisitos do mercado e de preservar a imagem da USP como uma universidade de excelência. Todos os depoimentos das vítimas nessa CPI deixam claro que os métodos de violência utilizados se constituem como uma forma de manutenção de relações de poder, assemelhando-se aos métodos utilizados pela ditadura militar. Existe na faculdade uma hierarquia entre aqueles que se adaptam a esse métodos e se tornam um deles, aqueles que aceitam pra não serem excluídos socialmente e aqueles que se recusam a aceitar calado tanta humilhação e opressão e passam a lutar contra isso. Esses são infelizmente uma minoria e quando se posicionam contrários a essas práticas são perseguidos dentro da instituição e fora dela, em sua vida profissional.

É preciso colocar de pé uma grande mobilização contra a violência na USP

A CPI deixou ainda mais claro os métodos violentos institucionalizados na universidade. Assim como a Comissão Nacional da Verdade que não puniu os agressores, somente a CPI não basta. Ela constitui um primeiro passo para levantar esses métodos odiosos, mas não pode levar até o final a punição e o combate aos agressores. Só a mobilização dos setores oprimidos apoiados por todos os estudantes, trabalhadores e professores da universidade pode garantir que esses crimes não passem impunes mais uma vez. É preciso retomar o exemplo dos trabalhadores da USP que fizeram uma forte campanha se posicionando contra os estupros e assédios dentro da universidade e levantar também uma grande campanha para que todas essas práticas sejam punidas.

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