Domingo 21 de Julho de 2019

Nacional

ELEIÇÕES 2008

A falácia das eleições municipais

14 May 2008   |   comentários

Enquanto novos acordos, blocos e conchavos entre os partidos da burguesia voltam a ocupar o noticiário por conta das eleições municipais, as questões elementares de interesse da maioria da população não são minimamente debatidas entre os tantos políticos que se dizem candidatos para assumir prefeituras no ano que vem.

O que prima na guerra de bastidores são os “acordões†sem nenhum programa político, a barganha eleitoral para disputar a maior cota de TV que cada coligação vai conseguir e principalmente a disputa para ver quem vai contar com o apoio de Lula e quem vai ocupar o cada vez mais restrito espaço de oposição. Roubam a cena dos principais problemas que vivem as cidades, desde as grandes capitais até o município mais pobre. Saúde, educação, transporte público, moradia e terra não estão na pauta das discussões. O que aparece diariamente nos jornais são as negociatas e as esdrúxulas acusações de corrupção por todos os lados, que somem com a mesma velocidade que surgem, enquanto que o conjunto dos trabalhadores e do povo nem se surpreende mais com tanta corrupção e mentiras que sempre aparecem para acobertar um “escândalo†anterior...

Enquanto isso, o lucro recorde do primeiro trimestre desse ano da Ambev, Unibanco (mais de R$ 700 milhões cada) e ABN- Real (R$ 650 milhões) [1], só para citar os 3 maiores, é uma mostra de que tudo vai bem para o bolso dos patrões. No campo, os grandes latifundiários e agora os arrozeiros de Roraima continuam lucrando e seguem impunes, matando e perseguindo índios e trabalhadores sem-terras. Nos últimos dias, livraram da cadeia os assassinos de Dorothy Stang, morta a tiros em 2005. No Congresso Nacional, mais jogo de cena em torno do “Dossiê FHC†[2]. Como sempre, a conta de todos esses privilégios e falcatruas será paga pelos trabalhadores.

A “corrida†de 2008 só acaba em 2010

O grau de hipocrisia de todos os partidos que compõem o dito “regime democrático†fica evidente quando as alianças e rachas se mostram alheias aos problemas concretos do povo. Partidos e políticos estão preocupados somente em como repartir os cargos do Estado e aproveitar as eleições municipais para largar na frente dos adversários que brigarão pela sucessão de Lula.

Lula segue como o principal ator da corrida eleitoral desse ano. Privilegiado pelos altos índices de sua popularidade, baseada no último ciclo ascendente da economia e na cooptação das direções do movimento de massas, Lula dita as regras da disputa entre as distintas alas dos partidos burgueses. Do lado governista, todos esperam se beneficiar da popularidade de Lula. Do lado opositor, reina a impotência e o PSDB se divide com uma ala tentando se aproximar do PT.

Em São Paulo, o PSDB de Serra e Alckmin se dividiu. O primeiro quer se fortalecer pra 2010, amarrando o DEM paulista do prefeito Gilberto Kassab e o PMDB de Orestes Quércia, que tenta manter um pé na canoa do governo e outro na canoa opositora. Enquanto isso, Alckmin insiste na sua candidatura esse ano para chegar em 2010 como prefeito, e garantir assim alguma visibilidade política.

O tucano mineiro Aécio Neves, outro presidenciável, aposta numa aliança com o PT em Belo Horizonte para tentar se viabilizar como o “candidato do consenso†para 2010. A executiva nacional petista tentou vetar a coligação, pois o crescimento de Aécio em aliança com o PT mineiro ameaça deixar o PT de fora da disputa presidencial. Agora, contanto com a intransigência do PT mineiro na coligação com os tucanos e contando que o próprio Lula simpatiza com essa aliança a executiva nacional do PT ensaia um recuo. De passagem tenta aproveitar o recuo para barganhar o apoio do PSB em São Paulo: é que a candidatura de Marta ainda não conseguiu apoio de um único partido e anda mal das pernas. Até mesmo o PR, partido do vice-presidente José Alencar está apoiando o bloco Serra-Kassab. Marta até agora tem menos da metade do tempo de TV que a dupla Serra-Kassab conseguiu.

PT, PSDB, PSB e PMDB fazem a “ciranda política†que melhor convém a cada região e aos projetos de cada “presidenciável†, sem esquecer que na disputa pra ver quem fica com mais nacos, o “bloquinho†também entra. Para SP, Lula ainda tenta convencer Aldo Rebelo do PCdoB, Paulinho do PDT e Luiza Erundina do PSB a apoiar Marta.

A Burocracia facilita a farsa das eleições

O que permite que as distintas alas e partidos da burguesia se preocupem somente em como repartir entre si o aparato do Estado, sem discutir minimamente as necessidades elementares dos trabalhadores e do povo pobre, é o papel criminoso que cumprem as direções tradicionais do movimento de massas. Se não bastasse a CUT, Força Sindical, MST serem correia de transmissão do governo Lula e funcionarem como obstáculo ao desenvolvimento da luta de classes, os partidos que os burocratas sindicais representam também estão envolvidos no mesmo mar de lama dos partidos burgueses, participando da corrupção e dos conchavos. Recentemente Paulinho da Força foi acusado de desviar verba do BNDES para prefeituras ligadas ao seu partido, o PDT.

O espaço “vazio†que o PSOL quer preencher

Com chances reais de vitória pelo menos em Porto Alegre, com a candidatura de Luciana Genro (MES), o PSOL tem feito um grande esforço em aparecer na campanha eleitoral como um partido mais capaz de administrar o Estado burguês do que a própria burguesia. A aliança com o PV em Porto Alegre, mais do que votos, serve para tentar conquistar a confiança de setores da burguesia sulista, principalmente aqueles que estão sendo mais penalizados com a valorização do real. Levanta para isso um programa anti-neoliberal em geral, sem nenhuma delimitação de classe, empunhando a bandeira de setores não monopólicos da burguesia. Seu objetivo é tentar se tornar o representante político destes setores burgueses “produtivos†que defendem a redução dos juros e a desvalorização do real, já que não há nenhum setor, nem na oposição nem no governismo que os representa diretamente. Não é uma coincidência, portanto, que o PSOL votou a favor da lei anti-operária que é o super-simples.

No afã de ocupar esse espaço anti-neoliberal, o PSOL apresenta um programa neodesenvolvimentista para a administração das prefeituras. Critica a “política-económica de conluio entre PT-PSDB, patrocinada pelo capital financeiro†em nome de um investimento mais “justo†e “politicamente correto†nas economias locais. Heloisa Helena chega a classificar como “insensíveis†as ausências de políticas públicas em saúde, educação e assistência social, como se fosse um problema moral a exploração e opressão capitalista. Como alternativa, o PSOL propõe um “novo projeto económico de desenvolvimento sustentável†com inclusão social, para “derrotar o projeto neoliberal inaugurado por FHC e aprofundado por Lula†se propondo, finalmente, a ocupar esse espaço relegado, por ora, entre os setores burgueses que continuam apostando no projeto de Lula.

É necessária uma política independente da classe trabalhadora

Os acordos políticos e conchavos eleitorais nada têm a ver com a realidade da maioria da população. Mais uma vez a democracia dos ricos se mostra uma grande falácia contra as necessidades elementares dos trabalhadores e do povo pobre, como saúde, educação, moradia, etc. Em Porto Alegre, enchentes dominam diversos bairros. No RJ, a dengue continua se alastrando e o prefeito César Maia (DEM), cínico, culpa o clima. O preço dos alimentos atinge patamares cada vez mais altos, impossibilitando os trabalhadores mais precarizados de garantir sequer a cesta básica. Por tudo isso, os trabalhadores não podem continuar cumprindo um papel passivo no período eleitoral, ficando a mercê da má sorte que nos reserva a burguesia e essa farsa de democracia.

Por sua vez, o PSOL não apresenta uma alternativa que responda aos problemas fundamentais dos trabalhadores e do conjunto das classes oprimidas, independente dos governos e partidos da burguesia. Em Porto Alegre, Luciana Genro flerta com o PV, mesmo partido que em São Paulo compõe a coligação Serra-Kassab! Também as correntes trotskistas do PSOL, como a CST, se liquidam dentro desse partido, pois apesar de ter uma tese distinta da ala majoritária e “exigir†a independência de classe no ultimo Congresso Eleitoral do partido, acaba se diluindo no projeto neodesenvolvimentista de HH e Luciana Genro.

O PSTU, ao invés de lutar para que nessas eleições se expresse um programa e uma política de independência de classe, se limita a criticar em seus jornais e site a política de alianças que o PSOL leva em Porto Alegre ao se unificar com o PV; abrindo mão (“taticamente†) de combater o programa e a estratégia de conciliação de classes do PSOL.

Nesse sentido, nós da LER-QI defendemos que o Congresso da Conlutas que ocorrerá no próximo mês de junho deva expressar uma política oposta a que levanta o PSOL. É obrigação daqueles que se colocam no campo da independência de classe denunciar o caráter reacionário dessas eleições, rechaçar a política anti-operária do PSOL e levantar um programa que responda as necessidades mais sentidas dos trabalhadores, sem esperar o engessamento e a divisão imposta pela data-base das leis burguesas.

Somente numa Frente Classista verdadeiramente independente a classe trabalhadora pode responder aos anseios do conjunto das classes exploradas e oprimidas, e não uma “Frente de Esquerda†sem delimitação de classe a que se submete o PSTU, em nome de acordos eleitorais com o PSOL.

[1Edição eletrónica do Jornal Zero Hora 8/05/2008.

[2Conjunto de documentos secretos do governo Fernando Henrique, que um assessor de Dilma Russef (braço direito de Lula e “mãe do PAC†), tornou público

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