Internacional

A “desunião coordenada†de Obama e os equívocos estratégicos em tempos de declínio hegemônico

30 Sep 2014   |   comentários

Em meio à acentuação da crise de refugiados curdos na fronteira da Síria com a Turquia, e as crescentes evidências de que sem a intervenção militar com destacamento de tropas terrestres, os bombardeios aéreos contra o Estado Islâmico na Síria acabam por ajudar o regime de Bashar al-Assad a preencher o vazio político, Obama teve de reconhecer as “falhas de origem†na abordagem da estratégia contra o (...)

Em meio àacentuação da crise de refugiados curdos na fronteira da Síria com a Turquia, e as crescentes evidências de que sem a intervenção militar com destacamento de tropas terrestres, os bombardeios aéreos contra o Estado Islâmico na Síria acabam por ajudar o regime de Bashar al-Assad a preencher o vazio político, Obama teve de reconhecer as “falhas de origem†na abordagem da estratégia contra o EI.

Em entrevista à“CBS ’60 Minutes†, Obama admitiu que a espionagem norteamericana subestimou as capacidades de combate do Estado Islâmico e confiou erroneamente na força dos militares iraquianos para fazer frente ao desafio imposto pelos yihadistas, que ocupam um enorme território no centro do Oriente Médio. Citando o diretor Nacional de Inteligência, Jim Clapper, fez um paralelo com a Guerra do Vietnã, “Não fomos capazes de prever sua vontade de lutar, e isto é sempre um problema... Não o fizemos no Vietnã. Não fomos capazes de prever que as forças iraquianas do norte do país colapsariam†.

Segundo Obama, fruto do caos produzido na guerra civil síria que desmembrou as instituições governamentais em boa parte do país, este ramo da Al-Qaeda conseguiu reconstituir-se, reagrupando e recrutando combatentes estrangeiros na Europa, nos EUA, na Austrália e em todo o mundo muçulmano, convertendo a Síria na “zona zero dos yihadistas de todo o mundo†.

É sintomática a crise interna em Washington sobre qual o caminho a percorrer numa guerra em que tanto a Grã-Bretanha quanto os Estados Unidos admitem que durará anos e terá conseqüências imprevisíveis para toda a região. O republicano John Boehner, presidente da Câmara dos Representantes, foi a mais nova personalidade política a declarar não comungar da estratégia de Obama (ataques aéreos coordenados em coalizão, enquanto treina tropas iraquianas para combater em terra), questionando a possibilidade de treinar a tempo as forças iraquianas para a luta necessária sobre o terreno. Apesar do parlamento britânico ter votado a participação na ofensiva, países como Dinamarca, Holanda, Bélgica e Austrália enviaram apenas 6 caças de combate cada um para bombardeio no Iraque, sem intervir na Síria.

Assim, as divergências estratégicas na cúpula da coalizão, as dificuldades em mover seriamente os membros da ONU para auxílio ativo (assim como a oposição síria, que tem a percepção de que a coalizão internacional serve de salvavidas ao regime de Assad), a oposição de Rússia e China àintervenção na Síria, fazem da entrevista do líder da “nação imprescindível†um retrato geral da debilidade militar e política dos Estados Unidos de concluir sua orientação política externa.

A inspiração de Obama nas operações do Iêmen e da Somália

Na outra “guerra†travada por Obama, de separar esta ofensiva militar das experiências de George W. Bush que conduziram àderrota dos EUA no Iraque e no Afeganistão, o presidente equiparou as atuais operações contra o Estado Islâmico com as operações “antiterroristas†no Iêmen e na Somália. Estas últimas são consideradas por Washington como “êxitos militares†e um exemplo de sucesso no quadro da estratégia militar utilizada contra o Estado Islâmico, ou seja, os EUA atacam pelo ar enquanto as forças locais lutam sobre o terreno. Não há muito mais que isso que possibilite a analogia.

O número e a freqüência das incursões no Iraque e na Síria distam muito dos ataques esporádicos e limitados no Iêmen e na Somália.
De 2001 a 2014, os Estados Unidos efetuou de 14 a 20 ataques aéreos na Somália; no Iêmen, nos mesmos 14 anos, realizaram-se 114 ataques. Desde que começaram a 8 de agosto, em um mês e meio de ofensiva, os Estados Unidos já realizou mais de 250 ataques a objetivos militares do EI no Iraque. Nos dois primeiros dias de bombardeios na Síria, quase 50. Ou seja, não se trata de bombardeios seletivos e “cirúrgicos†como na Somália, mas uma autêntica guerra aérea.

Ademais, os resultados das ofensivas em países de muito menor importância geopolítica são contrários aos expostos por Washington. Apesar de terem diminuído as capacidades de defesa das filiais da Al-Qaeda, as operações na à frica e no Golfo de Éden não eliminaram as posições yihadistas, pelo contrário, transformaram estes estados em “Estados falidos†, permanentemente em guerra civil e incapazes de estabilizar instituições confiáveis ao imperialismo. No epicentro do labirinto do Oriente Médio, o tabuleiro geopolítico do Iraque e da Síria é incomparavelmente mais complexo, onde se entrecruzam numerosos interesses e o tecido de forças das potências árabes. Com cuidado para não opor-se àintervenção na Síria contra o Estado Islâmico (que também é inimigo do regime de Assad), o embaixador sírio criticou os EUA por armar e treinar a oposição síria.

Permissão para que o Exército turco entre na Síria

O Exército turco destacou desde a segunda-feira 35 tanques de guerra e dezenas de veículos blindados na fronteira com a Síria, revidando disparos de artilharia depois de vários projéteis do Estado Islâmico terem atingido o território turco, fruto da ofensiva dos yihadistas que bombardeiam a região curda de Ayn al Arab (Kobane), no norte da Síria.

O fortalecimento da presença militar de Ankara na fronteira se dá produto do rápido avanço do Estado Islâmico sobre a região curda que divide fronteira com a Turquia, e da crise humanitária com os refugiados curdos: mais de 160.000 ultrapassaram a fronteira nos últimos dez dias, que poderia aumentar para 400.000 se o Estado Islâmico se apodera de Kobane (fruto da guerra civil síria, a estimativa do governo turco era de 1,5 milhão de refugiados sírios).

A região está sendo defendida pelas milícias locais curdas, as Unidades de Proteção Popular (YPG), que não contam com a confiança do primeiro ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, que teme o fortalecimento dos militantes separatistas curdos (Partido dos Trabalhadores do Curdistão, PKK, considerados terroristas pela Turquia e os EUA) dentro do país. A aberta repressão das autoridades turcas contra as tentativas dos refugiados de passarem a fronteira revela as distintas tensões nacionais que fragmentam os objetivos da coalizão internacional.

Até agora, Erdogan havia se negado a participar na campanha liderada pelos Estados Unidos, para evitar as conseqüências de represálias yihadistas em seu território (que tinham 46 reféns turcos) e a saída de turcos para participar das Unidades de Proteção Popular curdas. Mas nos últimos dias o governo turco endureceu nos últimos dias as mensagens de advertência ao Estado Islâmico, prevendo para esta quinta-feira um debate no Parlamento para aprovar uma moção que permitiria o Exército turco a cruzar o território sírio, e reforçar o já existente no Iraque. A primeira preocupação de Erdogan é estabelecer uma zona tampão e de exclusão aérea que permita concentrar os refugiados fora de seu território, na própria Síria.

Uma possível entrada de tropas terrestres de um país-membro da OTAN na Síria agravaria as tensões políticas com os aliados do regime de Assad, principalmente Rússia e Irã, que se opõem àintervenção, além da situação interna de um regime altamente questionado pela repressão às questões democráticas. Boa parte do comércio estrangeiro da Turquia, entretanto, inclusive a importação de petróleo da rica região de Kirkuk-Bagdá, depende da região ocupada pelo estado Islâmico, o que força o governo a cogitar cenários de intervenção terrestre.

O quebra-cabeças norteamericano em tempos de retrocesso hegemônico

Os “equívocos†na apreciação estratégica dos Estados Unidos, que segundo Obama deram origem a um “desafio geracional†obrigando a “soluções concretas não só no Iraque e na Síria, mas no Oriente Médio em geral†, constituiu a política do imperialismo norteamericano nas duas últimas décadas no Oriente Médio. Em aliança com as burguesias árabes, desenvolveu divisões sectárias e fomentou guerras civis inter-religiosas como forma de evitar que o descontentamento derivasse em guerras de libertação nacional ou em processos revolucionários contra os governos fantoches na região. Foi parte essencial da política desde a Guerra do Golfo em 1991, passando pelas guerras no Iraque e no Afeganistão e posterior ocupação militar, e culminando na estratégia para terminar com os levantes no mundo árabe e muçulmano durante a “primavera árabe†de 2010-2011, contra os velhos regimes políticos autoritários pró-norteamericanos (como Mubarak no Egito), ou governos tiranos pró-imperialistas, mas aliados a potências rivais dos Estados Unidos como a Rússia (Kadafi na Líbia e Assad na Síria).

Desde então, os Estados Unidos apostou em distintos grupos de oposição para substituir os regimes desgastados e desviar politicamente as mobilizações estabilizando alternativas pró-imperialistas “de oposição†. O sucesso da política de cooptar a oposição síria bastou para impedir um processo revolucionário contra Assad, mas acabou não assegurando a estabilidade na região, e vários destes grupos, como o Estado Islâmico, utilizam o respaldo e impulso que ganharam do imperialismo para seguir uma política própria na região.

Aliados como Turquia, Arábia Saudita e Catar, suspeitos de financiar o Estado Islâmico e a AL-Nusra para derrubar o regime de Assad estão agora chamados a enfrentá-los. Israel equipara o Estado Islâmico com o Irã e o Hamas, buscando bloquear as negociações diplomáticas e a aproximação da Casa Branca com o regime iraniano de Hassam Rouhani, do qual depende em boa medida a capacidade dos Estados Unidos em estabilizar o Oriente Médio. O ditador egípcio AbdelFatah Al-Sisi condiciona seu apoio ao aval de Washington ao envio de armas na cruzada contra a Irmandade Muçulmana, que os estados Unidos veio diminuindo depois do golpe militar.

O declínio hegemônico dos Estados Unidos dificulta o disciplinamento pelo discurso e a unificação séria de seus aliados regionais para em defesa de seus objetivos de domínio. Esta desconjunção e anemia dos esforços de seus principais aliados em combater o Estado Islâmico (interpondo os interesses internos àfrente dos interesses imediatos do imperialismo, ainda que seja veículo dele), para não mencionar a ausência européia, projeta a figura desta bárbara intervenção militar sem resultados previsíveis contra a contracara terrorista do EI.

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