Internacional

A crise ucraniana e a possibilidade de deslocamento da Aliança Transatlântica

11 Feb 2015 | Os últimos acontecimentos do conflito armado no leste da Ucrânia e o perigo de uma guerra nuclear provocam uma forte divisão entre EUA e o eixo franco-alemão.   |   comentários

A política ucraniana de Merkel está caindo em um fracasso retumbante. Seu alinhamento por trás da política de sanções promovida pelos Estados Unidos na segunda fase deste conflito, depois da duvidosa queda do avião do Malaysia Airlines, está fracassando miseravelmente.

A política ucraniana de Merkel está caindo em um fracasso retumbante. Seu alinhamento por trás da política de sanções promovida pelos Estados Unidos na segunda fase deste conflito, depois da duvidosa queda do avião do Malaysia Airlines, está fracassando miseravelmente. Mais grave ainda, a economia da Ucrânia está se desintegrando e o exército ucraniano está àbeira do colapso. Sua gestão da crise ucraniana ameaça prejudicar sua estatura como a principal líder europeia, debilitando-a tanto na Alemanha, quanto na Europa.

Tomando consciência tarde da realidade do terreno, onde as tropas rebeldes do leste ucraniano estão destroçando pela segunda vez as tropas do governo pró-imperialista de Kiev em Debaltsevo, Merkel está pretendendo dar um giro de última hora.

Consciente por sua vez que este fracasso militar abre a possibilidade de uma nova escalada dos EUA, que ameaça um conflito de proporções europeias. Esta perspectiva catastrófica é o que explica sua viagem junto ao presidente francês, François Hollande, primeiro a Kiev (apenas para manter as aparências) e sobretudo sua reunião de mais de cinco horas em Moscou, com Vladmir Putin.

O perigo de guerra nuclear

A derrota militar das forças ucranianas abre a possibilidade dos EUA e a OTAN se comprometerem mais que até agora no conflito ucraniano, com o envio de armas e material bélico ao regime de Kiev. A questão não é militar, já que dificilmente, levando em conta a moral baixa das forças oficiais, se possa mudar a realidade do terreno. A razão central de uma decisão de tal calibre por Washington é política: seria um sinal visível de agressão direta dos EUA contra a Confederação da Nova Rússia (assim se chama a entidade formada pelos rebeldes pró-russos do leste da Ucrânia) e, através dela, contra a própria Rússia.

Ninguém melhor que John J. Mersheimer, eminência da escola geopolítica do realismo ofensivo, para explicar os riscos de um passo tão perigoso. Em uma coluna no New York Times de hoje intitulada “Não armem a Ucrânia†(“Don’t Arm Ukraine†) disse: “O envio de armas a Ucrânia não vai resgatar seu exército e em seu lugar vai levar a um aumento dos combates. Tal medida é especialmente perigosa porque a Rússia tem milhares de armas nucleares e está tratando de defender um interesse estratégico vital†. Tratando de contrariar as ideias peregrinas dos neocolonizadores de que a Rússia iria ceder devido ao alto custo que implicaria, recorda que as Grandes potências reagem duramente quando rivais distantes projetam poder militar em sua zona de influência, ainda mais tentando converter um país de suas fronteiras em um aliado. Contra toda apresentação idealista dos interesses vitais dos EUA e de sua política exterior tão comuns nos círculos políticos e acadêmicos norte-americanos, sustenta que “É por isso que os Estados Unidos têm a Doutrina Monroe, e hoje nenhum líder norte-americano jamais poderia tolerar que Canadá ou México se unam a uma aliança militar encabeçada por outra grande potência†.

Devido ao que está em jogo, alerta que: “A possibilidade de que Putin poderia terminar fazendo ameaças nucleares pode parecer remota, mas se o objetivo de armar a Ucrânia é fazer aumentar os custos da interferência da Rússia e, finalmente, colocar Moscou em uma situação aguda, não se pode descartar. Se a pressão do Ocidente tem êxito e o Sr. Putin se sente desesperado, teria um poderoso incentivo para tratar de salvar a situação com o barulho do sabre nuclear. Empurrar contra as cordas uma Rússia com armas nucleares seria brincar com fogo†. E que esta “brincadeira†mortífera se dê a poucos quilômetros das principais cidades europeias, enquanto os EUA, que os promovem, são resguardados pela distância do oceano Atlântico, tem despertado as capitais europeias e tem sido a gota d’água para as crescentes tensões da Aliança Atlântica.

Os conflitos entre grandes potências não saíram do panorama do capitalismo contemporâneo

Não sabemos como terminará esta crise. Em sucessivas notas seguiremos analisando-a. O que está claro é que afeta diretamente o futuro da OTAN, como demonstra a linha tênue em que Merkel tenta transitar entre EUA e Rússia, tal como demonstrou sua entrevista de hoje com Obama. A possibilidade de deslocamento da mesma é altíssima, como nunca em sua história, uma reversão da situação de domínio absoluto que exerciam os EUA durante a chamada Guerra Fria.

Para nós, esta possibilidade não cai do céu. Há tempos, viemos advertindo das fissuras estruturais abertas entre as relações dos EUA e Alemanha, que deram um salto com a crise da zona do Euro e as distintas políticas de Washington e Berlim frente àcrise mundial aberta em 2007/8. Desde o início da crise ucraniana, vimos o potencial explosivo que tinha em desestabilizar não apenas as relações entre Rússia e Ocidente, senão – apesar dos distintos zigue-zagues da posição alemã e a política de seguidismo aos EUA de Merkel na segunda fase da mesma, irreconhecível em muitos aspectos com a política tradicional em relação àRússia do principal imperialismo europeu – também entre Alemanha e EUA (ver aquie aqui).

Contra as visões tranquilizadoras do capitalismo mundial que diziam que o conflito entre as grandes potências era uma coisa do passado, nos opusemos a este abandono ou leitura light da teoria do imperialismo, ferramenta essencial para orientar-se no mundo de hoje apesar das grandes mudanças que sofreu a economia mundial, comparado com o imperialismo do final do século XIX/começo do século XX. Os últimos acontecimentos da crise ucraniana lamentavelmente estão nos dando razão.

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