São Paulo

A crise da água em Campinas e no interior paulista

17 Oct 2014   |   comentários

A crise da água se intensifica no interior paulista. Já são mais de 14 milhões de pessoas atingidas em mais de 68 cidades. Um planejamento eficiente por parte de Alckmin e do PSDB para que as gotas começassem a faltar após o fechamento das urnas do primeiro turno.

A crise da água se intensifica no interior paulista. Já são mais de 14 milhões de pessoas atingidas em mais de 68 cidades. Um planejamento eficiente por parte de Alckmin e do PSDB para que as gotas começassem a faltar após o fechamento das urnas do primeiro turno.

Com uma aposta do governo de que as chuvas a partir do próximo dia 20 resolverão milagrosamente(e temporariamente) nossos problemas, evitando um cenário ainda mais turbulento, o povo pobre é relegado a uma situação insuportável nos últimos dias.

Termômetros chegando aos 40º C, com a umidade do ar abaixo dos 12% e sem água nas torneiras, a vida nas periferias das cidades está um inferno. Manifestações começam a ganhar força em Itu, e se espalham por Campinas, como ocorreram na Vila Formosa e no Jardim Santo Antônio nos últimos dias.

Em Campinas, já faz 1 semana que a população dos bairros mais pobres vem sofrendo com a falta de água, como nos DICS, Campo Grande, Campo Belo, Rosalina, Itaguaçu, Fernanda, Vila Formosa, Santo Antonio e Parque das Industrias foram apenas alguns de uma lista que veio crescendo a cada dia. Nessa sexta, segundo a própria SANASA, faltará água para 75% da população da cidade.

No Santo Antonio, o estudante Daniel Barreto de 17 anos, denunciava durante o ato que um galão de 20 litros está chegando a custar 20 reais no mercado. No DIC e Campo Belo, a população chega a percorrer 15 kms até a cidade de Itupeva, enfrentando 3 horas de fila para pegar água em uma bica sem tratamento.

Esse é o ´´presente´´ que a população ganha, logo após vereadores e prefeitos venderem a criação de dois distritos na região, um grande cabide de emprego, como a ´´solução dos problemas´´. Porém, a crise é tamanha que o governo já precisa começar a cortar água nos bairros de classe média e mais nobres, como já se noticia nessa última quarta-feira em Souzas, no Taquaral e Swiss Park.

A culpa é de quem?

Os governantes precisam arrumar uma explicação para esconder a incompetência de décadas de distintas gestões. Ora apelam pra São Pedro, ora botam o dedo em nossa cara. Além de mentirem descaradamente que não falta água, tentam responsabilizar individualmente a população pela falta de água. Se é verdade que é preciso mudar alguns hábitos do cotidiano, estes somente refletem a desorganização irracional da sociedade que vivemos. E nessa desorganização, a “água na calçada†e outros fatos do tipo, são os menores dos problemas.

A hipocrisia de governantes é tamanha, que querem responsabilizar o povo pobre e trabalhador que limpa suas calçadas da poeira que adoece em ruas sem asfalto [1] , enquanto as grandes empresas de celuloses e as mansões de seus donos seguem impunes. A crise que vivemos é profunda, e de décadas de um capitalismo cada vez mais caótico.

A população pobre do “estado mais rico do país†começa a pagar pela destruição desenfreada de suas matas ciliares, de seus mananciais, pelos esgotos irregulares das principais indústrias. Não se trata da “falta de chuva†, de “problemas naturais†como quer nos fazer engolir, a seco, o governo.

Há décadas especialistas alertam distintos governos, de distintos partidos da ordem, da séria crise que se gestava. Mas, todos eles, seja Alckmin do PSDB, seja Haddad do PT, seja Jonas do PSB, priorizaram os lucros dos empresários, das construtoras, do agronegócio, ao invés da vida e do meio ambiente. A crise nesse momento é em São Paulo, mas sabemos o caos ecológico de norte a sul de nosso país. Dilma e Aécio, os dois candidatos àpresidência, são responsáveis, junto a seus aliados políticos, pela catástrofe ambiental desencadeada nas últimas décadas em nosso país.

Desequilíbrio

Há exatos dez anos atrás, para não voltar a mais décadas atrás, em matérias no Correio Popular e na Folha de São Paulo [2] , jornalistas já retratavam a destruição de quase 88% da Mata Ciliar da Bacia do Rio Piracicaba, assim como de 70% de toda a Cantareira. Também anunciavam a diminuição de vazão do Atibaia, a destruição de mata ciliar da Billings, de Guarapiranga. Ou seja, não se trata de um problema pontual, mas mostra como o conjunto do sistema hídrico que abastece o estado de SP e outras regiões caminha para o colapso a muito tempo e nada foi feito.

A utilização irracional e ilegal da água por parte dos empresários, a falta de tratamento dos esgotos industriais e residenciais, a especulação imobiliária, que leva a destruição das matas ciliares através de condomínios luxuosos, hotéis e que obriga as populações mais pobres a ocuparem áreas de proteção, já que são expulsas dos centros urbanos com os altíssimos custos do mercado imobiliário nas grandes cidades, são as causas fundamentais do problema.

Assim como o sistema energético, temos um sistema hídrico arcaico, sem manutenção e com uma quantidade de funcionários muito abaixo do adequado, o que faz com que tenhamos um índice de perda altíssimo, quase 30% da água tratada no estado de SP, o que dá, por segundo, a um sistema Cantareira [3] .

A irracionalidade do nosso tratamento de água e esgoto é tamanha, que por trás da “transparência†que ainda foi possível se preservar na água que bebemos, se esconde um verdadeiro tanque químico, preparando doenças futuras na população. A também 10 anos atrás, usávamos cerca de 170 mil toneladas [4] de produtos químicos para manter sua potabilidade.

Se naquele momento já usávamos 17 mil caminhões cheios de produtos químicos cancerígenos, quanto será usado nessa sexta pela prefeitura de Campinas, em nosso “volume morto†, em que a proporção de esgoto nos rios é tão grave que obriga a prefeituras a cortar a água de quase toda a cidade em uma tentativa desesperada de “tratar um pouco†antes de distribuir para a população?

Nada a esperar dos responsáveis pela crise

Nada podemos esperar dos governantes que nos afundaram nessa crise. São eles e seus negócios, os responsáveis pelo caos. Se hoje temos encanamento arcaico, falta de manutenção, falta de funcionários, terceirização, é porque muito já nos foi roubado, como no grande escândalo da SANASA, envolvendo a quadrilha de Dr.Hélio. Com Jonas Donizette, nada mudou. Os legítimos atos de revolta das populações nos bairros, tem que servir de exemplo e serem fortalecidos, apoiados pelos sindicatos, movimentos de bairro, organizações estudantis.

O povo pobre, as crianças e os idosos não podem mais pagar com sua saúde pelo vandalismo e incompetência de nossos governantes. É preciso colocar a SANASA sob um controle real dos trabalhadores e da população, pois somente assim conseguiremos começar a dar uma resposta efetiva a essa crise. Precisamos de um sistema de água estatizado, sob controle operário e popular em todo o estado de SP. Chegamos a um limite. A destruição das fontes naturais a passos largos, uma vida cada vez mais caótica e doentia, uma desorganização do espaço urbano que beira o colapso, esse é o legado das últimas décadas do capitalismo contemporâneo, uma “natureza atormentada†[5] .

[1Quem for pego limpando a calçada em Campinas, paga uma multa com o valor de três vezes o custo de sua conta de água http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2014/02/campinas-determina-multa-para-o-consumidor-pego-lavando-calcada.html

[4Dados retirados de artigos citados por Mike Davis em seu livro “Planeta Favela†, pg. 183 da edição espanhola, Foca Investigacion. O livro foi lançado em português pela editora Boitempo.

[5Recomendo a todos a leitura do excelente livro “Natureza atormentada, marxismo e classe trabalhadora†de Gilson Dantas, publicado pela Centelha Cultural

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