São Paulo

A crise da água é passageira ou veio para ficar (e piorar)?

13 Nov 2014   |   comentários

O discurso de que a crise passará quando vierem as chuvas se transformou no novo mantra oficial. A maior crise hídrica em São Paulo em oitenta anos, talvez em toda a história da metrópole, passou para o discurso oficial como uma marola. Nunca vão assumir que essa política de negar a crise ou naturalizá-la é um problema e um crime contra a população mais pobre, e que minimizar sua gravidade é ainda mais (...)

O discurso de que a crise passará quando vierem as chuvas se transformou no novo mantra oficial. A maior crise hídrica em São Paulo em oitenta anos, talvez em toda a história da metrópole, passou para o discurso oficial como uma marola.

Nunca vão assumir que essa política de negar a crise ou naturalizá-la é um problema e um crime contra a população mais pobre, e que minimizar sua gravidade é ainda mais obsceno. Além do que avaliar como “marola†, tão superficialmente, só piora as condições para enfrentar a próxima crise. Técnicos independentes do governo têm argumentado na direção oposta: a crise é gravíssima, é de grandes proporções e veio para ficar.

Mesmo com as chuvas esperadas para este verão, o esvaziamento dos mananciais foi tão extremo, a começar do sistema Cantareira, que ano que vem e pelos anos afora, as famílias trabalhadoras de São Paulo podem esperar por uma temporada de novas crises, de mais desabastecimento.

São décadas de erros estratégicos, de pilhagem, de violência contra os pobres e contra a natureza, de zero planejamento urbano e hídrico. Este é o elemento chave que torna estiagens, que tenderão a ser mais frequentes e mais profundas, em uma grande calamidade em termos de abastecimento, crise esta que tem condições de se tornar crônica e mais grave do que já é. E que não será equacionada com as próximas chuvas de verão, sejam elas fortes ou fracas, longas ou curtas.

Por que a casta política necessita esconder a profundidade da crise?

Porque ela tem tudo a ver com as causas da crise hídrica. Um governo que está na raiz da crise, que é responsável direto pela calamidade que São Paulo está passando, naturalmente tem que mentir. Necessita mentir como necessita respirar. Esta cortina de fumaça é a “roupa†para que o rei não fique nu. Para que a classe trabalhadora não se levante contra os artífices dessa desgraça anunciada
.
Por isso as autoridades precisam defender que a crise hídrica é natural, que é fruto da estiagem histórica, que a Sabesp e o governo fizeram o melhor que podiam. Precisam negar o racionamento (ou dizer que ele é “pontual†), necessitam jogar a culpa na população que desperdiça, precisam culpar qualquer coisa que se mova desde que não seja o governo.

A gravidade da crise hídrica

Em primeiro lugar, deixaram que a crise do sistema Cantareira chegasse ao paroxismo, esticaram ao extremo sua vida útil, sua funcionalidade como manancial e como ecossistema.

Apesar de todos os avisos, de todas as cláusulas legais (como as de 2004), nenhum desses governos trabalhou para reduzir a dependência de uma São Paulo cada vez mais populosa em relação ao velho sistema Cantareira, que permaneceu o mesmo. Isto é, permaneceu a mesma oferta para uma demanda em expansão e sob pressão três vezes maior. Não construíram novos mananciais, não despoluíram as águas de São Paulo ou próximas àmetrópole, não planificaram todas as bacias de forma a proteger sua capacidade de captação de água e de armazenamento, de forma a proteger todos os municípios.

O resultado foi que, na hora da crise, da estiagem deste ano, levaram o sistema, pela primeira vez em sua história, ao absurdo do uso da última água, mais barrenta e mais concentrada em poluentes, mais cara para ser tratada, e que tem que ser bombeada, já que ela fica lá no fundo da represa. O tal volume morto.

A morte do volume morto

A especialista em gestão de recursos hídricos, Marussia Whately (Correio da Cidadania 11/07/14), denuncia a decisão do governo de usar o volume morto. Considera como medida desesperada e irresponsável. O nome correto, diz, é “volume morto para abastecimento†, não para o reservatório. Para que o sistema continue existindo não se deve usar essa água. Ao ser usada, o manancial vai demorar muito mais tempo para se regenerar (erosão, assoreamento, absorção rápida da água da chuva pelo solo agora ressecado, etc.). É uma ação irresponsável, primeiro, porque não evitou uma crise evitável e, em seguida, porque age sem medir as consequências.

Usar a segunda cota de volume morto foi um desastre; e começaram a usá-la na última semana de outubro. O Ministério Público Estadual entrou com ação civil pública para barrar o uso da segunda cota do volume morto pela Sabesp por conta também do prejuízo que trará, por outro lado, para o abastecimento de quem mora na bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Bacia PCJ), ao menos 5 milhões de pessoas. Esta bacia é que doa água para o sistema Cantareira, e o uso da segunda cota impacta naqueles rios desastrosamente. Seu nível pode ficar abaixo das comportas e o impacto negativo, dentre outros, além do ambiental, será de falta d´água lá na ponta do sistema.

A grande verdade é que nunca na história do sistema Cantareira se chegou a um nível tão baixo dos cinco reservatórios. E o estresse do sistema foi brutal: mais de oito meses recebendo o volume de água mais baixo do que sua mínima histórica. Desde que foi fundada nunca tinha chegado a esse fundo de poço. E é das consequências deste estresse que estamos falando aqui.

A difícil recomposição do sistema

A questão crítica é que haverá problemas para a recuperação do sistema Cantareira em curto prazo: quando o fundo do lago fica exposto (e seco) – na explicação de Gabriel Kogan – se torna permeável. A água da chuva vai tender, agora, a infiltrar para o lençol freático antes de poder criar uma camada impermeável, como a que existia. Estamos diante desse problema doravante. Sua recuperação pode durar dez anos ou mais e, enquanto isso, a população vai crescer.

E mais: o que mantém os reservatórios Cantareira cheios são as chuvas de verão; mas estas, mesmo que fortes, encontrarão os depósitos abaixo do nível do volume morto, e o solo mais permeável, sem sua permeabilização natural, situação que jamais ocorreu desde sua criação nos anos 1970.

Por que a temporada de chuvas será insuficiente?

É verdade que a temporada de chuvas está começando. No entanto, o cenário previsto de chuvas para o mês em curso é de que ficarão abaixo da média histórica (74%), segundo informação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (NOS), no Estadão de 1/11/14. Sua previsão é de que mesmo no final de novembro os reservatórios tenham caído para 15,5% nos seus níveis (hoje estão em 18,8%), menores que no racionamento de 2001.

E a outra informação é que se o fenômeno do El Niño ocorrer agora no fim do ano, a chance de uma grande seca por aqui e no mundo será enorme, segundo pesquisadores da Organização Mundial de Meteorologia.

Na opinião do DCM (Diário do Centro do Mundo), de 23 de outubro de 2014, mesmo com fortes chuvas nessa temporada, como o sistema Cantareira foi explorado além do limite de qualquer época, além do que suportaria, pode não conseguir se recuperar totalmente com as chuvas de verão. A consequência é que o abastecimento na próxima estação seca estaria comprometido.

Na verdade, para os meteorologistas oficiais a situação de abastecimento se normaliza com a chegada das chuvas de verão; mas são eles mesmos que confirmam que a estação chuvosa não bastará para recuperar e encher os reservatórios a ponto de garantir um inverno sem crise em 2015.

A poluição dos aquíferos

De todo ponto de vista, o fato é que imperiosamente há que deter a poluição das águas, de perto e de longe de São Paulo, de toda a bacia e também dos lençóis freáticos. E também do aquífero Guarani.

Como se sabe, contamos com este aquífero na condição de um colossal depósito (ou esponja de água) ao alcance de São Paulo. Em potencial, seria um imenso reforço para toda essa crise. Poderia ser um plano B. Em momento de crise se poderia perfeitamente contar com o aquífero Guarani ou então com um sistema de água bombeada de mais longe; funcionariam como plano B, na crise. Claro que a Sabesp, do seu ponto de vista mercantil, não vai gostar da ideia de ter custos para trazer uma água de mais longe e tampouco de investir em uma rede de cisternas ou poços em direção ao aquífero, mesmo que fosse uma rede de emergência, para os bairros pobres.

Mas o outro fato que tem que ser denunciado é que o aquífero Guarani também vem sendo gradativamente poluído por afluentes das indústrias e dos esgotos metropolitanos e também pelos tóxicos usados amplamente na agricultura. Fora o complicador de que se o processo de utilização daquele aquífero for levado adiante por empresas privadas, poderemos esperar o pior. Imaginemos uma “Sabesp†, com acionistas por trás, “cuidando†do aquífero Guarani...

Esses elementos todos nos levam a não deixar de levar em conta que a gravidade da crise está fincada também nessa esfera, de décadas de poluição maciça das águas com que São Paulo poderia contar para equacionar seu abastecimento. Começando da Billings e terminando nos lençóis freáticos de maior ou menor porte. Todos sujos.

De quebra, envenenamento...

A Sabesp usa doses cavalares da substância tóxica cloro na água que bebemos; ora, isso é tecnologia obsoleta, abandonada em vários países europeus, denunciada por vários prêmios Nobel e que promove graves problemas de saúde pública no usuário daquela água. A questão é que nem os trabalhadores e famílias pobres – vítimas preferenciais desse sistema tóxico – podem decidir sobre isso e a empresa invariavelmente vai preferir adotar tecnologias que deem mais lucro. E o cloro é mais barato (vem como resíduo industrial). Portanto, continuaremos sendo envenenados no que depender do governo (claro está que, enquanto isso, no palácio e na mansão o governador, ele e sua casta bebem água mineral).

Iremos para uma crise de abastecimento energético?

Para complicar, a baixa do nível de reservatórios no Sudeste pode também levar a um racionamento de energia elétrica; este risco será tanto maior quanto menos chova até abril (Valor Econômico, 28/10/14). Não esperemos encontrar essa discussão nos boletins do governo.

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