Gênero e Sexualidade

A crise da água como um fardo às mulheres

09 Mar 2015   |   comentários

É fácil perceber que, apesar de toda população sofrer e passar pelas situações causadas pela crise de abastecimento gerada pelo governo, são as mulheres que acabam com as maiores demandas para responder com a falta d´água

A crise de abastecimento no estado de São Paulo, apesar de ser negada e até amenizada pelo governo do estado, desde o período eleitoral, é sentida por toda a população. Apesar de ser o setor com o menor consumo do recurso hídrico noestado, é a população que vem pagando pela crise. O governo e a mídia fazem com que toda a população crie práticas cotidianas de economia de água, em atividades rotineiras, e de adaptação aos períodos de corte de abastecimento. O racionamento, como colocado pelo governo, esconde a realidade, pois este termo comprova que há uma distribuição de água diferenciada nas regiões de São Paulo, sendo que a zona Leste é a que passa pela falta de distribuição de água por maiores períodos deste o final do ano passado. O discurso de José Mairton, diretor de base do Sindicato dos Trabalhadores em à gua, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) e técnico da Sabesp, comprova que, propositadamente, ocorre um racionamento direcionado para às periferias desde o final do ano passado: “Não tem água para suprir todo mundo, fecham-se, então, os registros dos mais pobres†1.
É fácil perceber que, apesar de toda população sofrer e passar pelas situações causadas pela crise de abastecimento gerada pelo governo, são as mulheres que acabam com as maiores demandas para responder com a falta d´água. Essa relação existe pois a sociedade, baseada na ideologia machista, faz com que as mulheres tenham o papel de manutenção da vida, tendo que dar conta das tarefas mínimas da reprodução da vida dentro de casa.
Assim, tornam as mulheres as responsáveis pelas tarefas domésticas e, desta forma, são elas que tem que pensar e/ou realizar e, consequentemente, sofrer, com todas as práticas necessárias para a economia e armazenamento d´água, pagando por uma crise gerada pelo governo. Tarefas rotineiras de limpeza e de alimentação tornam-se mais complicadas com a falta d´água e aumenta-se a cobrança para que tais tarefas sejam realizadas como eram feitas antes da crise.
Se formos além, verificamos, mais uma vez, as dificuldades que as mulheres têm com a crise pois são elas que sofrem com uma dupla ou tripla jornada de trabalho. Desta forma, quando retornam para suas casas, a maioria das mulheres realizam as tarefas domésticas, deparando-se, novamente, com os problemas gerados com a crise, tendo, então, mais funções a realizar, já que devem colocar dentre as tarefas já realizadas alternativas para economizar e armazenar água.
Os trabalhadores de empresas terceirizadas de limpeza, que são, em sua maioria mulheres, que já sofrem com a precarização das condições de trabalho, pagam mais uma vez pela crise de abastecimento. A empresa e os empregadores exigem que os trabalhos realizados por estas mulheres continuem sendo realizados da mesma forma como era antes da crise, entretanto, muitos locais de trabalho também passam pelos cortes de abastecimento ou exigem de seus trabalhadores – ainda mais destas trabalhadoras – a economia do recurso.
Nas áreas da saúde e da educação, que são áreas nas quais as mulheres são a maioria, a crise de abastecimento só vem para piorar um cenário de ataques governamentais constantes. Muitas creches e escolas do estado estudam em antecipar a suspensão das aulas, para diminuir o consumo no período de estiagem, se o racionamento drástico (cinco dias sem água para dois com) for realmente implantado. Escolas de municípios do estadojá fecharam suas portas devido a crise. Essa alternativa afetaria a rotina familiar, como colocou Sonia Racy, do jornal Estado de São Paulo, e Delcio Rodrigues, especialista em mudanças climáticas e conselheiro do Vitae Civilis 4. Assim, mais uma vez as mulheres iriam pagar pois elas teriam que cuidar ou arrumar com quem deixar seus filhos. Na área da saúde, a crise de abastecimento é algo crítico pois pode afetar o atendimento aos pacientes, e somente agora o governo estuda eplaneja um plano de contingência para atender tais demanas.
Podemos ver que além da diferença de gênero também há uma diferença de classe no pagamento pela crise de abastecimento. São as mulheres trabalhadoras, que sofrem cotidianamente com: a precarização das condições de trabalho, transporte sem qualidade e lotado, dificuldade para estudar, falta de liberdade para decidir sobre seu próprio corpo, dentre outros problemas gerados pelo sistema, que utiliza do machismo para oprimir, explorar e segregar a classe trabalhadora, são as que mais sofrem com a falta d´água.
Somente com a classe trabalhadora, em conjunto, que poderá dar uma resposta concreta para os problemas da crise de abastecimento, pois é ela que paga pela crise. Entretanto, é necessário que os trabalhadores percebam e que o machismo é uma ideologia utilizada pelo sistema para segregar e explorar, ainda mais, a maioria da classe e que nestes momentos de crise é essa maioria – as mulheres – que é mais explorada. Que todos possam lutar contra o machismo e todas as formas de opressão para que a classe se unifique e tenha força para lutar contra os verdadeiros responsáveis pelas crises.

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